Quem causa tanta alegria?

Na infância, este começo de mês parecia encher-me da graça da Vida. Hoje, nem tanto. Tenho na memória a cena destes dias quando minha mãe juntava a filharada em torno do pinheiro trazido por meu pai não sei de onde, e enfeitava observando o encantamento da filharada.

Tudo muito verdadeiro. Minha mãe ajeitava, com cuidado, na árvore, símbolo daquele momento, as bolas, cores variadas, as sinetas, o ponteiro – ah, o ponteiro! – impondo-se sobre os demais adornos como se à sua ponta indicasse à estrela, o caminho. Por fim, punhados de algodão esparramados casualmente diziam da neve.

Nem isso nos incomodava, porque os cartões de Natal que chegavam representavam este cenário frio, carregado de beleza e mistério. Éramos pequenos e vivíamos intensamente este teatro. Em tudo acreditávamos. As rádios, com canções natalinas, contribuíam vivamente com a expectativa da festa. As cidades e seus enfeites, singelos, é bem verdade, ampliavam, o clima de esperança e paz. Não havia, para sorte nossa, este alvoroço de papais-noéis, chamando para abraços e beijos ensaiados.

Por que tantas mudanças que causaram perturbação à data? Respondo ao poeta: Não fui eu quem mudou. Foi o Natal. Pequeninos, sabíamos de Belém e do sentido do nome onde o Menino revelou a humana condição de Deus facilitando o entendimento de seu Espírito ao de seu Filho, o Pão da Vida.

Ao nascer em Belém o Menino convida a múltiplas reflexões. A pobreza, a humildade de que se reveste a cena do nascimento contrasta com o nosso tempo em que o consumo excessivo dá o tom. Vida? Não exatamente a que nos apresenta Jesus, verdade, mas “a ganância insaciável que atravessa a história humana”. Enquanto alguns se banqueteiam na noite e no dia em que celebrariam este momento sublime, o Menino acena entre famintos, sobretudo num país como o nosso, marcado pela injustiça e pelas diferenças.

Com seu Filho, Deus quis dar vida nova à humanidade, numa tentativa vã de fazer com que cada um aprendesse a ver no Menino o ator da mudança. O ato deveria ser entendido como distribuição farta de amor e paz. Daí, a simbologia da gruta, terna pobreza impregnada com nova fragrância de vida, como ensina Francisco, a da simplicidade.

Sorte a nossa de termos em Francisco, luz que alumia e ensina. Difícil ao homem, tão controverso, entender a razão de tudo isso para que se impregne deste amor e desta simplicidade.

Quem mais acolheu o Menino senão os pastores que, estando com Ele, sentiram Sua Luz refulgir entre todos revelando a que veio, Pão que aviva a alma, alimenta o espírito e permite dividir-se entre todos que seguirem sua Luz.

Estes são signos visíveis, tendo Jesus como modelo e como luz verdadeira. Aproximar-se de Deus é acreditar no que se repete, inúmeras vezes, na sua palavra ao tentar arrebatar-nos para seu Amor: “Não temais”.

Ao insistir nisso, Deus se mostra disponível aos homens. Se houver medo, haverá distanciamento. Com Jesus, tão igual a nós mesmos, Deus é quem, pelo Filho, se aproxima e chama e pede para que dividamos com todos o que temos, demonstrando, com isso, entendimento da real intenção com sua presença entre os homens.

Esta a causa da alegria, já nos primeiros dias do Advento. Ao ser concebida, Maria dá a chave para o entendimento e se envolve de beleza e Luz. Com o Nascimento, a alegria de sua concepção, deve impregnar o coração da humanidade: consciência da salvação.