Raíssa Amaral: música é o que move a sua vida

Raíssa Amaral tem 27 anos e coleciona uma carreira cheia de admiração e qualidade musical. (Foto: Amanda Vieira / JP)

A cantora erudita piracicabana Raíssa Amaral, 27, ganhou o primeiro lugar na categoria “Cantores” da 7ª Edição do Concurso Jovens Solistas, organizado pela Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, após ser avaliada por uma banca formada apenas por maestros experientes. O Concurso, muito importante no meio musical, tem como proposta revelar novos talentos da música erudita, cantores e instrumentistas.

Raíssa Amaral começou sua trajetória musical aos seis anos, quando pediu um violão de presente à mãe, mas foi na adolescência que a música realmente se tornou uma paixão.

Passou a cantar no coro regido pelo maestro Ernst Mahle e em 2014 tornou-se bacharel em cordas populares. Um ano depois, também se formou no bacharelado em canto erudito. Finalizou o mestrado na área em 2017 e atualmente é doutoranda, com o objetivo de estudar a ópera “A Moreninha”, de Mahle.

Após ser convidada a participar de diversas apresentações e concertos, a cantora decidiu se arriscar no concurso. “Muitas vezes nós temos que arriscar, ir fazer as provas e as audições. Não posso dizer que é gostoso participar de competições, pois nunca fui uma pessoa competitiva, mas nessa área é importante enfrentarmos essas situações”, afirma. “Esse concurso foi como um alerta para eu sempre continuar em frente”.

Na edição de hoje, o Persona entrevista a talentosa profissional, que honra no nome de Piracicaba pelo país.

Ser músico no Brasil não é fácil. Muitas vezes falta incentivo, remuneração adequada… Fale sobre as principais dificuldades que enfrentou na carreira que escolheu.
Quando decidi seguir a carreira de musicista, eu já tinha consciência de que existiriam dificuldades, principalmente no início.
Nos países europeus, com toda a sua bagagem histórica, existe um esforço muito grande na valorização dos vários tipos de arte. A sociedade reconhece a profissão e a valoriza.
No Brasil, embora todos apreciem música, o próprio costume popular não reconhece a música como profissão. Um conceito de difícil reversão, que torna a vida do músico mais complicada. Entretanto acreditei que poderia conseguir vencer essas barreiras e apresentar algo com qualidade.
Muitas pessoas queridas me ajudaram: meus familiares; meu pai Carlos inúmeras vezes deixou seus afazeres para me acompanhar, dirigir, registrar, ajudar; a Dona Cidinha Mahle, que me deu aulas de piano gratuitas; recebi vários convites para participar de concertos e óperas.
O violão que eu tinha não era adequado para estudar na faculdade, por meio de alguns vídeos que tenho YouTube, um senhor do Rio de Janeiro gostou muito e me presenteou com um violão de luthier caríssimo para eu poder fazer meus estudos. A união de muitas coisas me mostraram que eu deveria seguir na música.

Quais foram seus principais incentivos na infância para se interessar pela música?
Quando criança, na minha casa e na casa dos meus avós, sempre tinha um som ligado com música. Cresci ouvindo diversos gêneros musicais.
Possuíamos arquivos de música e minha mãe sempre tocava violão pra mim.
Por volta dos seis anos, pedi um violão de presente para minha mãe e aprendi a tocar, pois eu sempre gostei cantar.
Conhecíamos alguns músicos e o jeito que eles tocavam me impressionava.
Até aos 14 anos, o violão era meu brinquedo, foi então que fui ter aulas de violão clássico com o Sergio N. Belluco, um grande mestre, que me ensinou toda teoria musical e uma leitura musical muito ágil, que foi de essencial importância para o que eu faço hoje.
Aos 15 anos comecei a cantar no coro do maestro Mahle, por meio do qual conheci um novo universo musical.

Quando você percebeu que era isso que você queria fazer como profissão?
Quando estava terminando o colegial em 2009, prestei o vestibular para estudar na ESALQ e para Música na Unicamp. Foi difícil a escolha, pois a primeira é excelente e fica em Piracicaba, e a música, embora numa universidade excelente, também é uma profissão menos valorizada e eu teria que viajar todos os dias de ônibus para estudar em Campinas.
Nessa época, minha família me apoiou dizendo para escolher aquilo que me faria feliz e escolhi a música.
A Dona Cidinha Mahle foi uma pessoa muito importante também, me incentivou. Ela me ligou em todas as provas do vestibular para saber como fui.
Fiz o primeiro semestre de licenciatura, mas minha vontade era mais prática e instrumental, então passei por um novo processo seletivo e troquei o curso para cordas populares, me graduando sob a orientação do Prof. Ulisses Rocha. Também cursei Canto Erudito, me graduando sob a orientação do Prof. Dr. Angelo J. Fernandes, que sempre esteve presente me auxiliando, e muitas vezes me acolheu como um membro da família em sua residência quando eu não tinha possibilidades de viajar.
Depois, fiz o mestrado com habilitação em canto lírico e práticas interpretativas (análise e performance), e atualmente estou no doutorado.

Você tem compositores e músicos que são inspirações?
Adoro todos os períodos pelo qual a música passou. Dentro deles existem muitos compositores, instrumentistas, regentes, pelos quais tenho admiração.
Sou amante da história da música e a cada dia descubro algo surpreendente. Será uma lista grande se eu detalhá-los aqui. Todos tem sua importância e a sua característica. Injusto seria eu dizer que admiro mais um do que outro.
Como atualmente dedico-me mais à música erudita, tenho mais aproximação com o estilo.
Como Piracicabana, tenho que exaltar o maestro Ernst Mahle. Muitos não sabem da imponência da sua obra, que ultrapassa 2.000 composições. Ele é considerado um dos maiores compositores contemporâneos. Possui uma característica própria e ao mesmo tempo consegue ser eclético. Seu nome já está gravado na história da música.
O conceituado piracicabano Sergio Napoleão Belluco é outro que possui lindíssimas e numerosas composições regionais populares e violonísticas, foi professor de grandes violonistas brasileiros.
Meu mestrado foi baseado nas obras de um compositor mineiro chamado Carlos Alberto Pinto Fonseca, o qual todos também deveriam conhecer.

O maestro Ernst Mahle figura como uma pessoa importante em sua formação musical?
Admiro e considero muito o Mahle, que sempre me tratou com carinho e atenção. Ele possui uma história de vida linda desde a Alemanha até Piracicaba, onde se casou com a Dona Cidinha. Constituíram a Escola de música junto às pessoas que valorizavam isto na época.
Por isso deixei para fazer no doutorado que é mais significativo para mim, a obra do Mahle: “A Moreninha”, ópera que tive a honra de protagonizar sob a regência dele há alguns anos.
Sou grata ao maestro por tudo que ensinou e me incentivou neste sonho que hoje realizo!

Quais hobbies que não são ligados à música você geralmente pratica em seu tempo livre?
Estudo canto praticamente todo dia, meus vizinhos que o digam e agradeço a paciência. Quando sobra um tempo, pra fugir do cotidiano, gosto de ler algumas peças para violão ou piano.
Sempre fui aficionada em filmes, são momentos que nos desligamos do dia a dia.
Quando criança tive oportunidade de fazer diversas atividades, como pintura, desenho, ballet, natação, judô, ginástica rítmica e acrobática. Hoje, quando posso, vou à academia fazer um pouco de musculação.
Sempre que tenho um tempo livre também gosto de fazer o que se chama de turismo gastronômico, adoro conhecer lugares para comer.

Existe alguma viagem que foi marcante para você?
Todas as viagens que faço profissionalmente são marcantes. Além da emoção de me apresentar em cada estado e cidade, as pessoas destes lugares também foram especiais!

Se pudesse indicar um livro, qual seria?
Atualmente, minha leitura está relacionada ao doutorado, mas gosto muito de suspense, ficção, romances e também daqueles que alimentam a alma.
Na vida, quais coisas você considera indispensáveis?
Deus e a família são indispensáveis para ser forte em nossa jornada e para o nosso caminho ser mais seguro e tranquilo.

Sua ligação com sua avó parece ser muito forte, inclusive você dedicou o prêmio Jovens Solistas a ela. Conte um pouco sobre essa relação.
Minha avó Isolina, sempre alegre, carinhosa, adorava me ouvir cantar. Sempre me incentivando, dizia que quando me ouvia cantar tudo ficava mais bonito e alegre!
Tinha até gravações minhas em DVDs para ouvir quando eu não estava presente!
Há um ano ela adoeceu e, infelizmente, faleceu, deixando muitas saudades!
Ela sempre me dizia que toda vez que eu cantasse, mesmo que ela não pudesse estar presente ela iria me ouvir!

Você hoje atua como professora na Empem. Qual é a sensação em compartilhar sua paixão com os pequenos?
É muito gratificante transmitir e ensinar música para as crianças, elas têm muita energia, entusiasmo e vontade de aprender. Vejo que elas estão cada dia mais interessadas na arte musical, seja para cantar ou tocar algum instrumento.
Elas são o futuro e procuro utilizar os meios mais eficientes para que elas aprendam, admirem as músicas e tenham sucesso.
Tenho alunos de várias faixas etárias, desde os pequenininhos até a terceira idade.
Atualmente, na Unicamp, estou no programa de estágio docente, atuando na graduação, mas tento conciliar meu tempo com meus outros alunos em Piracicaba.

Para quem ama música e sonha em viver dela, quais conselhos você daria?
Penso que todos gostam de música e são um pouco músicos, mas para viver de música, tendo ela como sustento de vida, tem que haver dedicação. É preciso estudar muito, correr atrás das suas metas. O aprendizado não tem fim. Se esse é o seu sonho, faça tudo para ser feliz.
O que realmente importa é ver a alegria estampada no rosto das pessoas e proporcionada pela música. Isso não tem preço. Saber que você pôde fazer a diferença, nem que seja apenas pra uma pessoa, faz com que a gente ganhe o dia.

Raíssa, como você se imagina no futuro em sua vida pessoal e na carreira?
Acredito que sempre estarei me esforçando em busca de conhecimento. Nunca podemos parar de nos atualizar, não importa qual seja a profissão.
Imagino continuar cantando e me apresentando. Por meio da música quero poder alegrar a vida das pessoas.
Pretendo me aperfeiçoar no exterior, após concluir meu doutorado. Também me imagino como professora, pois gosto de ver a evolução de cada aluno e como eles ficam felizes ao perceberem o quanto evoluíram.
Um dia quero me casar e ser abençoada com filhos e netos, compartilhar os momentos e fazer minha família feliz.

 

Mariana Requena
mariana.requena@jpjornal.com.br