Raízes japonesas em Piracicaba

persona Presidente do Clube Cultural Recreativo Nipo-brasileiro de Piracicaba fala sobre vida e trabalho na entidade. (Foto: Amanda Vieira / JP)

Nascido em Pariquera-Açu, cidade da região do Vale do Ribeira (SP), aos 63 anos de idade, o engenheiro elétrico Irio Takumi Kawasima está desde 1986 em Piracicaba. Mudou-se para o município para trabalhar na Dedini S/A Indústrias de Base, onde ficou por 16 anos até seguir novos rumos profissionais em Campinas. Filho de japoneses, atualmente vive em Piracicaba com a esposa, Terue, e os três filhos, Elton, Igor e Vivian Kawasima. É presidente do Clube Cultural Recreativo Nipo-brasileiro de Piracicaba e nesta entrevista para a seção Persona conta um pouco sobre a própria história de vida, do pai, Itiro — que chegou ao Brasil com 13 anos, durante a guerra do Japão contra outros países asiáticos — e da mãe, também chamada Terue, bem como seu envolvimento em outros clubes nipo-brasileiros e o trabalho realizado no clube local no ano em que se completa o centenário da imigração japonesa em Piracicaba.

Quando começou sua história com a Noiva da Colina?
Sou nascido em Pariquera-Açu, região do Vale do Ribeira (SP), onde vivi até terminar o colegial. Passei no vestibular e meu pai deu essa chance de estudar na faculdade da cidade de Lins, no curso de engenharia elétrica. Depois que me formei, fui trabalhar em Fernandópolis, por cerca de 12 anos, depois eu vim a Piracicaba para trabalhar na Dedini, em 1986, onde fiquei por 14 anos, e em 2000 eu fui para Campinas, em um novo emprego. Já em 2014, montei uma empresa do ramo de manutenção de transformadores, também com sede em Campinas, mas sigo morando aqui em Piracicaba com a família, com a esposa Terue, com o filho mais velho Elton, o Igor e a caçula Vivian. Todos levam o sobrenome Kawasima. Na verdade, meu nome seria Kawashima, mas quando meu pai se registrou aqui no Brasil a grafia foi escrita sem o “h” do nome original.

Seus pais são japoneses? Qual a história deles com o Brasil?
Meu pai se chamava Itiro e minha mãe chame-se Terue. Meu pai, já falecido, era nascido no Japão, e minha mãe, filha de japoneses, é nascida aqui no Brasil mesmo. Itiro, com 13 anos, chegou aqui no Brasil fugindo da Guerra do Japão na Ásia, contra a China e a Coreia, em meados da década de 1930. O Japão já estava em guerra com estas nações e meu pai, por ter um físico mais avantajado perto dos japoneses da época — eles eram todos menores e meu pai era forte —, estava sendo recrutado para a aeronáutica japonesa com apenas 13 anos. Por coincidência, um tio dele, que estava no Brasil por algum tempo, voltou para o Japão para fazer uma visita e ficou sabendo da convocação e percebeu que, se meu pai ficasse lá, ele poderia morrer. Sendo recrutado pela aeronáutica, na época, todos sabiam o que poderia acontecer em situação extrema, ou seja, eles eram os primeiros a morrer. Além disso, a situação econômica do país era muito difícil na época. Todos esses motivos fizeram esse tio trazer ele para cá.

Seu pai passou por dificuldades aqui no Brasil?
Não. Meu pai não chegou a passar necessidade aqui no Brasil como os outros japoneses que vieram para o Brasil, pela primeira vez, sem ter nenhum parente ou amigo para ajudar ou orientar. Ele teve meu tio, que já conhecia bem o país, tinha um norte e aconselhava muito ele. Isso deixou com que sua adaptação ao país fosse mais rápida e menos sofrida. Ele sempre contava para gente que a coisa que mais assustou ele quando veio ao Brasil foi ver os negros. Até aquele momento da vida dele ele nunca havia sabido que podia haver um ser humano negro e ele ficou muito assustado. No porto de Santos, todos os estivadores eram negros. Outra coisa que ele sempre falava também é que foi aqui no Brasil, com 13 para 14 anos, que ele comeu arroz branco pela primeira vez. No Japão, conhecida como uma terra de produção de arroz, devido à situação econômica da época, o arroz branco, de grão inteiro, era vendido para poder obter renda na família e o que eles comiam era o arroz quebrado ou triturado, as migalhas do arroz. Ele ficou muito admirado com a fartura que encontrou aqui, principalmente no Vale do Ribeira, região onde ele viveu. Era tudo mata virgem ali, tinha muito peixe, animais para caçar e palmito tinha de sobra lá. Ele ficou maravilhado nessa terra e até no dia de morrer ele afirmava que queria ser enterrado aqui. Nós perguntamos para ele em vida se ele queria ser levado para o Japão e ele dizia: “não, a minha terra é aqui!”, de tanto que ele gostou do Brasil. Foi aqui que ele conseguiu fazer a família, criar os quatro filhos, todos com formação universitária. Ele também dizia: “No Japão eu não teria as oportunidades que tive aqui”. Ele ganhou muito dinheiro no cultivo de banana. De 1950 até 1954, quando eu nasci, ele ficou muito rico e sempre falava que todo o dinheiro que ele ganhou na vida dele foram nesses quatro anos. Depois disso, nunca mais ganhou dinheiro. Ele teve uma vida boa, mas foi menos sofrida porque, apesar de estar longe da família, ele tinha alguém que sempre o ajudava por aqui.

Seu pai é do Japão e sua mãe brasileira, porém de família japonesa. Como foi que eles se conheceram?
Minha mãe é nascida aqui no Brasil, na cidade de Registro (SP). A história deles, meu pai contou apenas uma vez e é muito bonita. Ele era um atleta nato, competia muito no atletismo e sempre ganhava diversas provas. Naquela época tinha um tio meu, irmão da minha mãe, que era melhor do que ele no atletismo e eles se conheceram numa dessas competições. Num desses eventos esportivos, meu pai viu minha mãe na torcida e ficou encantado com minha mãe. Realmente, quando vejo fotos daquela época da minha mãe, ela era muito bonita, chamava a atenção pela beleza. A partir daí ele começou sua jornada para casar com minha mãe. Naquela época, era diferente de hoje para casamentos. Meu pai foi até a casa da minha mãe para pedir a mão dela em casamento para os pais dela, mas ele foi recusado. Itiro era de Juquiá (SP) e Terue era de Registro, um dos motivos que a família foi contra a união. Aí, o tio do meu pai, aquele que trouxe ele para o Brasil, ficou sabendo e foi tentar ajudar. A família deste meu tio era descendente de samurais japoneses. Ele pegou meu pai e foi mais uma vez lá com ele para fazer o pedido. Chegando lá, a família da minha mãe novamente recusou, porém, neste dia, um parente dela, já de bastante idade e bem culto, ao escutar o nome do tio do meu pai, ao se apresentar, questionou sobre a origem do nome e explicou que a família dele tinha história com o Japão. Aí, o tio explicou que ele descendia de samurais e depois disso eles aceitaram o casamento. Mas também tinha a questão de meu pai estar economicamente bem, com várias terras e plantações de banana, e minha mãe era de família com conforto economicamente. Ela acabou saindo do conforto da cidade para ir morar com meu pai no sítio. Foi lá que eles criaram nossa família, eu e meus irmãos.

Seu pai chegou a voltar para o Japão? Vocês conheceram o restante da família lá do Japão?
Em 1960, eu, meu irmão e minha irmã já éramos nascidos. Tínhamos seis, quatro e dois anos, respectivamente. Meu pai levou a gente para o Japão, a família toda, fomos de navio. Foram 45 dias de viagem e minha mãe fala que sofreu muito porque a viagem era muito difícil. Meu pai voltava para o Japão pela primeira vez. Ele lembrava que tinha enviado uma carta para o pai dele meses antes e dois meses antes da nossa viagem o pai dele faleceu. Os parentes contam que meu avô estava esperando meu pai voltar. Eles contaram que meu avô segurava sempre aquela carta e que ele a levou consigo no leito de morte e foi cremado junto com ela. É uma história muito bonita também. Apesar disso, estávamos lá e na década de 1960 a situação ainda não era fácil não. Nós ficamos do lado norte da ilha, ao lado do mar do Japão, oposto a Tóquio. O país era muito pobre, mas eu gostei muito de lá, mesmo meu pai tendo sofrido acidente de moto um mês antes de nós voltarmos e acabamos ficando mais sete meses lá. Acabamos saindo de lá falando japonês fluentemente, aprendemos rápido. No entanto, ao voltar ao Brasil, eu já tinha sete anos e tinha que ir ao primário, estudar. Foi aí que tive dificuldades, pois só falava o japonês. Meu pai nunca deu conforto para nós, mas ele nunca nos impediu de conhecer o mundo, de nos dar oportunidades de crescer na vida. Ele deixava a gente ir viajar, comprar aquilo que precisávamos, porém, tínhamos o básico em casa. O suficiente para vivermos bem e boa comida na mesa, não vivemos no luxo. Nunca passamos fome. Minha mãe sempre acompanhava as decisões do meu pai e é isso que nós aprendemos, temos esta formação.

Como começou seu envolvimento com clubes de cultura japonesa?
Comecei a participar dos clubes nipos por intermédio do meu pai. Em Juquiá (SP), fui bem atuante e fui presidente do departamento de jovens do clube por dois anos. Naquela época, havia muito o conflito de gerações e tive que contornar essa situação. Desde aquela época, eu me entendia muito bem com os mais idosos, os amigos dos meus pais, me dava muito bem com eles. Nessa ocasião, começamos a resolver os conflitos de gerações e uma das primeiras “brigas” foi quanto a realização de um baile no clube. Os mais idosos bateram de frente para não realizar o evento, diziam que ia aparecer “os moleques” que “vão atacar nossas filhas” e “não queremos isso”. Fui bem incisivo e também questionei como eles sabiam que tais pessoas estariam presentes em nosso baile, se eles tinham prova que iam ter problemas com isso. Foi um clima bem pesado, mas decidimos fazer a festa, eles querendo ou não, mas fiz questão de eles irem até o baile para ver o que estava acontecendo e ainda questionei o porquê eles não confiarem nos filhos deles. Eles foram à festa, viram, gostaram e não tivemos mais problemas e os conflitos foram terminando aos poucos. Depois disso, fui estudar em Lins e lá a colônia japonesa é muito grande, nem se compara com a que temos aqui, que também é representativa. Participei muito do clube de lá também, mas não fui gestor em nada. E em 1986, quando cheguei a Piracicaba, procurei pelo clube e ele estava fechado.

Você ficou preocupado por ver o clube fechado? O que você fez a respeito?
No começo, o clube era muito forte, mas os mais idosos, naquela ocasião, não aceitavam as ideias dos jovens que queriam a abertura do clube. Fazer coisas novas, eles não aceitavam isso. Com isso, houve uma dissidência desse grupo de jovens do nosso clube e eles montaram o Clube Sol Nascente, no Jupiá, onde participavam cerca de 30 famílias e o restante ficou por aqui mesmo. Isso antes de eu chegar. Como frequentador dos clubes nipos, por todas as cidades que passei, procurava por uma unidade para participar de suas atividades, era um costume meu. O ex-presidente aqui do clube, o Pedro Mizutani, chegou aqui um pouco antes de mim, em 1984, ele também procurou o clube e ele também estava fechado e já procurava um meio de reativar o clube. Quando eu cheguei, no meu setor tinha um descendente que me explicou o que vinha acontecendo com o clube. Aguardei um tempo, o clube reabriu e começamos a frequentá-lo em meados da década de 1990. Meu filho mais velho já começou a frequentar o clube também, na escola japonesa. Fiquei um tempo fora das atividades do clube para acompanhar meu filho no time de beisebol que a Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) tinha, depois disso, voltei e fiquei como coordenador da escola japonesa. Não parei mais. Há cinco anos, o Pedro Mizutani me convidou para fazer parte da diretoria do clube e me colocou como vice-presidente. Não estava muito animado porque não teria muito tempo para dedicar ao clube, já que viajo para trabalhar em Campinas todos os dias, porém, estava disposto a ajudar. O Pedro ficou por dois anos, foi reeleito por mais dois anos e ano passado me colocou para disputar o cargo de presidente. Ele dizia: “Se você não continuar nosso trabalho, o clube pode fechar de novo”. Aceitei o convite e estou no final do meu primeiro mandato, que cessa aqui e por hora não tenho intenção de ficar mais dois anos, mas tem muita gente pedindo para que eu fique. Não decidi isso ainda. A eleição é só em dezembro.

Neste seu período como vice-presidente e agora como presidente, o que você acredita que foi melhorado no clube?
Nós fizemos muita coisa aqui. O clube era muito fechado e nós começamos a abrir nossas portas para nos integrarmos mais com a sociedade piracicabana e criamos novas atividades. A escola japonesa é tradicional e sempre esteve presente no clube, a dança japonesa também tinha, mas era muito fraco de participação. O Pedro sempre teve uma visão mais aberta das coisas, menos conservador, e tomou a frente de muita coisa, principalmente o karaokê. Depois disso, trouxe o taiko (tambor japonês). Tínhamos na escola jovens japoneses que davam aulas aqui em troca de aprender a língua portuguesa. Eram cerca de 20 jovens que ficavam aqui por dois anos e uma delas começou a tocar um taiko antigo nosso e achei maravilhoso aquilo. Já presenciei apresentações, mas ela tocava muito bem. Minha filha viu e quis aprender, a professora começou a dar aulas do instrumento, mas tínhamos um único taiko na escola. Aí, decidimos expandir essas aulas e comprar mais tambores. Uma professora tinha um amigo que morava no Paraguai e que fabricava os tambores. Eu sabia que os tambores do Japão eram fabricados lá por causa da qualidade da madeira, mas o preço era caro. Negociamos muito e fechamos um preço ótimo e trouxemos os instrumentos. Depois disso, chegamos a ter 20 pessoas fazendo aula, hoje temos 10, mas são todos muitos bons e fazem constantes treinamentos e se apresentam na cidade. Em abril deste ano, um ex-vizinho meu fez o casamento dele com uma descendente de japonês e eles contrataram nossa banda de taiko para se apresentar no casamento. Assim, o grupo consegue dinheiro para se manter. Todos sempre foram contra isso, trazer atividades novas, porque não dava lucro e mostramos que não é bem assim. Além disso, incentivamos também a gincana Undokai, que significa exercício para muitas pessoas, e isso também não tem dado prejuízo, mas reúne muitos aqui no clube uma vez por ano, sempre no mês de agosto. Uma das atividades que é bem interessante e envolve todos, praticantes e público, é a procura de objetos, muito comum no Japão. Na atividade, entregamos uma lista de objetos para o participante e ele tem que encontrar os objetos aleatoriamente junto ao público para vencer. Para manter tudo isso, realizamos diversas atividades ao longo do ano, uma novidade foi a instalação da nossa cozinha e já estamos servindo almoço em alguns dias. As pessoas encomendam e buscam. Tem dado um resultado positivo e ajuda a ter uma boa renda. O mais recente de todas as atividades são as aulas de shamisen (instrumento de corda tradicional japonês). Ele é um instrumento parecido com uma viola e tem apenas três cordas, só lá que tem. O frei Everton Takaki que apresentou o instrumento aqui no clube. Ele estudou teologia no Japão e aprendeu a tocar o shamisen e se ofereceu para ensinar aqui. Na hora aceitamos e eles têm se apresentado em nossos eventos, principalmente na Festa da Primavera. A música japonesa retrata, pelo shamisen, a vida do agricultor, do trabalhador japonês, sempre com esta temática. A única coisa que ainda falta fazer aqui é uma atividade de integração, a exemplo do que vi muito em Lins, reunir os “bichos” das faculdades de agronomia, odontologia, serviço social, todos eles, e fazer uma festa com eles aqui.

Qual a importância de manter o clube na cidade?
A interação com pessoas que vêm de cidades da região é muito recente, começou pouco antes do Pedro assumir. Com ele, se ampliou e agora estamos deslanchando tudo isso. Hoje temos mais brasileiros aprendendo a língua japonesa que japoneses aprendendo a língua portuguesa, a dança de salão também é assim, em todas as atividades está assim. Para o karaokê, tem vindo gente de toda a região para participar, está bem consolidado isso, principalmente pelo evento anual de karaokê (concurso) que realizamos. Nossas atividades são muito divulgadas fora daqui da cidade e isso acaba trazendo mais gente. Isso ajuda na atração de mais renda para o clube e manter ele de porta aberta para todos, mas o importante é enaltecer o trabalho dos voluntários que sempre estão atentos as nossas atividades, bem como nossa última reforma, que custou mais de R$ 300 mil e ampliou as possibilidades de ações a serem realizadas no clube. Tudo isso se dá devido à interação, a abertura que demos ao clube. Se não fosse isso, hoje, poderíamos estar fechados. Saber que estamos bem, num ano de centenário da imigração nos deixa tranquilos de fazer bem nosso trabalho. Temos um bom apoio da prefeitura e o nosso próximo desafio é a realização da Festa da Primavera que aconteceria aqui na Estação da Paulista, mas por alguns empecilhos vamos levar pela primeira vez o evento ao Engenho Central. O ideal seria realizar a festa aqui, pois foram na estação que os pioneiros imigrantes chegaram, mas nós já sabíamos de algumas coisas e estávamos planejando levar o evento para lá no ano que vem, infelizmente, tivemos que antecipar. Outro ponto importante foi o livro feito pelo jornalista Cecílio Elias Netto, que resgatou a nossa história e registrou em um lindo livro que foi lançado recentemente e que teve muito do nosso apoio. A parte em japonês do livro foi eu quem traduziu, foi um trabalho muito gostoso. Somos muitos gratos.

(Felipe Poleti)