Reinado de Momo

“Existem no Brasil apenas duas coisas realmente organizadas: a desordem e o Carnaval”

Em termos de duração, o carnaval é o maior período de festas disponíveis em nosso calendário. Não se esquecer daqueles que, para ele, começam a se preparar desde as vésperas do Natal, retornando ao trabalho após o carnaval, muitas vezes na segunda-feira seguinte à quarta-feira de cinzas.
Os festejos momescos oferecem a oportunidade esperada para uma exacerbação no uso de bebidas, na prática da luxúria em todas suas nuances. Há noivos e casados que buscam conseguir seu alvará, para cair na folia, citando Paulo Apóstolo, em epístola aos romanos, 12,15, “Alegrai-vos com os que se alegram, e chorai com os que choram”. Necessitamos de festas de confraternizações coletivas. A vida moderna concede-nos poucas oportunidades para elas.
O carnaval, incluído no calendário de festas nacionais, arraigou-se em nossa cultura a ponto de, assim como o futebol, ser considerado o maior espetáculo da terra, quer em número de participantes, como no esplendor de seus desfiles. Tanto o carnaval carioca, como o paulistano que promete não ficar atrás; transformaram-se em gigantescos espetáculos, cada vez mais sofisticado, mas com o senão, de excluir de sua participação ativa, grande parte da massa popular, sem condições de participarem.
No carnaval de Recife e de Salvador predomina a participação popular, com coreografias coletivas e, ao mesmo tempo, pessoais das ondas humanas deslocando-se atrás dos trios elétricos.
O Carnaval de São Paulo, após muita demora, já está ombreando com os demais.
Foi no Rio de Janeiro, a partir de 1930, que o carnaval começou apresentar uma feição civilizada, tornando-se aos poucos uma atração internacional. Seus grupos de ranchos carnavalescos e de escolas de samba aprimoraram-se, até chegarem ao que assistimos atualmente.
Em muitas cidades, o carnaval de rua, genuinamente popular, cedeu lugar para os bailes nos clubes sociais. Nestes últimos anos, no entanto, na maioria destes carnavais de salão, não se vê a animação de outrora. Os foliões, antes animados por marchinhas, de todos conhecidas, como: Eu Linda Morena, Fita Amarela, Cidade Maravilhosa, As Lágrimas Vão Rolar, Não Tenho Lágrimas, Jardineira, Aurora, Barracão, Máscara Negra, Trem Das Onze e outras.
Sempre houve, desde Gilberto Amado, aquele que vê no carnaval, não uma manifestação espontânea de alegria, mas um desafogo. Seja como for, tanto aqueles que concordam com o Eclesiastes de que há tempo para tudo e afirmam que o carnaval é tempo para beber, dançar e amar, como aqueles que necessitam de um desafogo, para as mágoas causadas pelas mazelas nacionais, com os ‘mensalões’, desvios bilionários de verbas públicas, impunidades indefensáveis, devem aproveitar o conselho de São Paulo “alegrar-se com os que se alegram” e deixar para quarta-feira de cinzas para chorar com os que choram e, talvez, ter de implorar: Ei! Você aí, me dê um dinheiro aí; para quitar as contas das esbórnias.
Infelizmente o Barão de Rio Branco, o patrono da nossa diplomacia, ao profetizar que no Brasil, apenas existem duas coisas: a desordem e o Carnaval; estava com razão, até em sua citação ao colocar a desordem antes do Carnaval. A cada ano, vemos a desordem aumentar sem freios. Em 2019 as desordens serão punidas?