Resposta aberta

Esquerdista, comunista, imbecil, raso, lulista, militante de bandido, torcedor contrário do novo governo… Sou mais um, entre milhões de brasileiros, que está dando sua opinião política. E com ela chegam as achincalhações. Semana passada, porém, uma carta recebida via e-mail particular sobre meu último texto publicado neste espaço me deixou incomodado. O artigo falava sobre como nos envergonhamos diariamente com a incompetência do governo Bolsonaro. Alguém não gostou!

Os insultos recebidos por um eleitor do presidente são desonestos. Afinal, criticar o atual governo é ser de esquerda? É ser comunista? Serei eu um petista-robô vítima do socialismo?

“Querido, Rubinho. Fico me perguntando quando o Brasil vai se livrar de jornalistas néscio (sic) e doutrinados iguais a você, como você pode ser tão tendencioso no Jornal de Piracicaba?”. Assim começa a carta. “Néscio”, para quem não sabe, significa desprovido de conhecimento, estúpido, ignorante, incapaz, inepto. Bonita palavra, não é? Vou começar a usá-la.

“Sinceramente você não fica envergonhado? Querido, se não tivéssemos nenhum presidente no momento estaríamos melhor do que esta corja socialista que doutrinaram (sic) você e os jovens desse país, infelizmente”, continua.

Eu não consigo imaginar de onde veio essa doutrinação! Na faculdade onde estudei, a Unimep, os professores de Jornalismo eram bem diferentes uns dos outros, politicamente, inclusive. Nas editorias que trabalhei no JP, idem. Onde estaria tal doutrinação? Na catequese da infância?

“Chapa vermelha, seja imparcial como um bom profissional tem que ser, dê força para o sucesso do governo por um país melhor. Não aposte no quanto pior, melhor.”

O caro leitor também precisa entender que um espaço para artigos é dado a profissionais, jornalistas, políticos, entre outros membros da comunidade, para expressarem suas opiniões. Diferentemente de um texto jornalístico, o artigo é parcial, sempre, pois espelha o que pensa seu autor.

“Pare com isso, seja justo ou preferia que estivéssemos igual a Venezuela, hein? Afinal, onde iríamos parar se o PT estivesse ainda no poder, com a política de dando que se recebe? E olhe que eles distribuíram dinheiro a todo seus camaradas, sem falar no foro de São Paulo, etc, etc. Querido, ainda está em tempo de se redimir.”

Os bajuladores do governo Bolsonaro insistem em sempre usar o PT como forma de argumento. Não uso o PT como exemplo em meus textos em mais de três anos de artigos neste matutino. Sobre a Venezuela, alguma vez o caro leitor já conversou com um venezuelano? Eu sim. Sabe o que ele me disse? Bolsonaro é “a cara de Maduro”. Podem ter lados diferentes, mas a base é a mesma.

“Essa corja socialista está toda presa, vamos dar um voto de confiança para o Brasil.”

Não sou adepto ao bordão “hay gobierno soy contra”, mas desde que me conheço por gente tenho minhas críticas pelos que estão no poder. Seja FHC, Lula, Dilma, Temer, Alckmin, Machado, Ferrato, Barjas… são políticos e precisam ser cobrados por seus atos. Não é porque eu votei em um deles que eu deveria me calar. Ser eleitor e cidadão é cobrar de seus governantes.

Bolsonaro tem um plano de governo, se é que pode-se chamar de plano, que vai contra ao que eu acredito. Ele começou torto e parece estar entortando ainda mais. Serei oposição até o fim, pois os objetivos do atual presidente ferem tudo o que acho ser certo para o meu país. Torcer a favor é torcer para que as ideias amalucadas deste militar reformado sejam postas em prática. Eu não quero!

Críticas ao que produzo textualmente são bem-vindas, desde que sejam construtivas e honestas. O caro leitor poderia ter criticado, por exemplo, o título do último artigo. “Estamos ‘a’ zero dias sem passar vergonha”. O correto é “há”. Isso também me deixa bem envergonhado!