Riopedrense Américo Froner comemora 100 anos

fubá Froner ainda tem um moinho para produzir fubá. ( Foto: Thiago Altafini/Nossa Rio das Pedras)

O último dia 14 de outubro marcou o centenário do rio-pedrense Américo Froner e foi comemorado com uma festa organizada pelas filhas Maria Hermínia e Maria Angélica. Buscar informação com o senhor Américo é como ir matar a sede numa fonte de água mineral cristalina. Puro como os alimentos que ele gosta de consumir. Alguém que parece parece ter nascido com informações genéticas que o fazem à frente de seu tempo. Homem bom e sábio, ele se diz amante das aves e conta que deixou de comer carne antes dos 20 anos, por compaixão dos animais (descreve com detalhes a experiência traumática do abate de um boi que viu e que o levou a tomar a decisão de cortar a carne da dieta).

E foi com essa natureza pacífica que vivenciou angústias intermináveis entre os anos de 1943 e 1945, uma vez que esteve pré-convocado para a 2ª Guerra Mundial. Apavorado pela possibilidade de ser chamado para embarcar ao campo de batalha a qualquer momento, acompanhou os desdobramentos do maior conflito militar da história por meio de um grande rádio de madeira, aparelho que conserva até hoje.

O mesmo respeito que Froner exigiu para si em relação à qualidade dos produtos alimentícios, procurou oferecer aos clientes do igualmente centenário moinho de pedra para produzir fubá, construído pelo pai, o austríaco que falava italiano Gedeone Froner, quando o filho Américo tinha um ano de idade. O moinho fica nos fundos do imóvel em que ele vive até hoje, na rua Prudente de Moraes, bairro Centro (antigo Bom Retiro). Atualmente, o maquinário é operado pelo neto Américo Gabriel Salles.

O início da primeira conversa com Américo Froner para esta reportagem se deu com um pedido para que ele descrevesse o comércio rio-pedrense dos tempos mais remotos que se lembrasse. A resposta veio da seguinte forma:“Eu me casei em 43. Em 23 de fevereiro. Depois fui encontrando com a guerra. Falei: puxa vida! Quer ver que eu vou embora pra guerra também? Eu entrei na lista, o senhor acredita? Estava convocado pra guerra. Passei um tempo bárbaro”.

A falta de relação entre o enunciado e a resposta é sinal do quanto a 2ª Guerra Mundial o traumatizou. O relato do centenário cidadão rio-pedrense dá a dimensão – e aproxima aqueles que o ouvem – do horror que foi viver naquele período, mesmo em uma Rio das Pedras predominantemente rural.

Recém-casado e pré-convocado, o “Capitão”, como Froner passou a ser chamado pelos seus amigos (apelido um tanto sarcástico, uma vez que deixava aterrorizado aquele jovem homem), acompanhou o conflito pelo rádio. Descreve com riqueza de detalhes algumas passagens traumáticas da batalha chamada por ele de “a guerra que nunca acabava”.

Conseguia, conta ele, ouvir rádios do mundo inteiro. O programa internacional que mais gostava era um chamado A Voz da Alemanha, transmitido de Berlim por um locutor brasileiro. Ao todo, 25.834 homens e mulheres foram enviados pelas Forças Armadas do Brasil para se juntar aos Aliados na fase final da Segunda Guerra. Questionado se preferia morrer ou de a ter que matar alguém caso fosse chamado à guerra, responde de imediato e com a convicção que torna ainda mais digna de admiração essa boa alma: “Eu preferia morrer”.

 

(Rodrigo Guadagnim )