Romualdo Sarcedo: “É função do artista questionar”

Romualdo Sarcedo, 52 anos, é piracicabano, filho único do casal Giannina Dedini e Flávio Sacerdo (já falecidos). Entrou na faculdade com a intenção de se tornar um jornalista, mas contato com o teatro universitário mudou seus planos e sua vida. Trocou a universidade e o curso de Jornalismo pelos palcos e o aperfeiçoamento em artes. Sim, para ele as escolhas envolvem renúncias, mas sem arrependimentos. Piracicaba perdeu um jornalista, mas ganhou um grande artista. O pai de Laura tem a leitura e o cinema como atividades de lazer. Ele nunca disse ‘bye bye, Brasil’, nem deixou Piracicaba, encontrou na ‘roda viva’ do teatro o sentido da vida e como expressar sua ‘opinião’. Apesar das citações, o ator, que iniciou a carreira, na década de 1980, não sofreu a opressão da ditadura.

Há quanto tempo você atua como ator?

Eu trabalho desde os anos 1980, comecei ainda na faculdade de jornalismo da Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba). Participei do grupo de teatro e ali peguei gosto pela atividade e por toda a vivência. Aos poucos fui migrando para o teatro e me encontrando, digamos assim.

E até então você percebia em você uma veia artística ou foi na faculdade teve este start e decidiu trilhar esse caminho?

Sempre tive um olhar para isso, até na infância em alguns momentos, na escola, me despertaram o interesse em aulas de artes quando a professora desenvolvia algumas atividades ligadas ao teatro, porém mais tarde já na faculdade, tendo essas outras oportunidades eu realmente achei que era o caminho que eu gostaria de seguir por uma série de motivos.

E você iniciou a carreira como ator ou escritor?

Foi como ator. Comecei atuando com alguns grupos e a partir de 1988, comecei a produzir um espetáculo infantil que foi a minha primeira experiência à frente do trabalho. Eu já havia escrito algumas coisas até mesmo na época da Unimep. Fazia algumas atividades em bairros, em projetos sociais da universidade, mas em 88, fiz minha primeira produção com infantil e com ele saí para a estrada para apresentar em diversas cidades. Tive a oportunidade de conhecer vários teatros pelo Estado de São Paulo, e entre acertos e erros descobri caminhos para que eu pudesse permanecer naquela atividade, pois como ator, percebi que dependia muito dos convites que chegavam.

E qual foi o espetáculo da tua estreia?

Foi um infantil com Arnaldo Siambrone com direção do Carlos ABC “Amigos do Tarzan”,um espetáculo que tenho muito carinho e boa lembrança. Várias pessoas que passaram pela cidade atuaram no espetáculo, que teve mais de 300 apresentações ao longo do tempo em festivais, numa série de lugares, até na Argentina apresentamos essa peça.

No senso comum, o sonho de todo artista são os grandes centros, as Capitais, onde ocorre a efervescência cultural. Você chegou a sair de Piracicaba?

Não, eu fiquei na cidade. Viajei muito, mas a base sempre foi Piracicaba. Nunca deixei de morar aqui mesmo me apresentando por vários lugares. Curiosamente, nunca me aventurei nos grandes centros, nunca fiz um teste para televisão ou teatro, pois tinha um lado família no meio disso. Casei tive filhos, minha ex-esposa é atriz e a gente desenvolveu nosso trabalho junto por vários lugares, mas sempre vivendo aqui, pois também tinha minha mãe e eu estava ligado a essas questões. Minha mãe envelhecendo e eu dando atenção para ela.

Você acha que isso teve algum impacto positivo ou negativo na tua carreira?

É sempre aquela coisa, as escolhas envolvem renúncias, sempre. Você escolhe um caminho e, automaticamente, abre mão de outros. Não posso me queixar de por viver aqui, até poque muitos dos trabalhos que eu participei, foi de criação minha. Sempre agendava os teatros e faço isso até hoje. Faço a divulgação, a direção e estou no palco sempre.

Você começou tua carreira nos anos 1980, quando ainda havia o governo militar, você chegou a enfrentar problemas com relação à censura?

O primeiro trabalho que produzi era um infantil, coisa mais graciosa, e tive de levar o texto para censura carimbar e liberar, isso já no final da ditadura, mas a censura estava lá, ainda existia. Com o pessoal da Unimep nós fazíamos trabalhos um pouco mais politizados com mais questionamentos, mas não me lembro de viver situações de repressão. Nos anos 80 essa coisa de censura já estava bem amena. Não me lembro de grandes acontecimentos comigo ou com pessoas próximas.

E como era o cenário cultural de Piracicaba nessa época?

Piracicaba bem ou mal, sempre teve – com maior ou menor intensidade – movimento cultural. É uma cidade que sempre teve e tem e terá artistas, pessoas de todos os campos da arte. Em alguns períodos com mais vigor, em outros um pouco mais adormecida, mas não deixa de existir. Eu lembro que nos anos 80 tinha o grupo da Unimep, o Andaime do qual fiz parte da origem, o grupo do Tubarão, tinha o grupo do Carlos ABC, movimento do qual eu passei a fazer parte com esse trabalho infantil e aprendi a trabalhar de forma mais profissional, foi muito bacana, tinha também o grupo do Sesc, que o José Maria Ferreira desenvolvia. Depois surge a Ceta (Companhia Estável de Teatro Amador), que trouxe um novo vigor e de repente, a cidade tem uma companhia estável de teatro. Depois vieram os festivais, o Fentepira. De certa forma teve o Traga Talha, outro grupo que surgiu, viajou e ganhou muitos prêmios também.

Em sua opinião, o que motiva ou provoca esse movimento cultural?

É curioso tentar entender. Esse processo que o artista fica por um tempo, depois vai embora em busca de novos horizontes. Tem grupos surgindo todo ano. Se você for analisar, a impressão que dá é que as coisas andam apáticas, digo em termos de movimento cultural, pois parece que a gente entrou num período pesado, complicado para o artista. Tem muita gente boa fazendo ou tentando fazer acontecer.

E a tecnologia, você acredita que ela contribuiu ou distanciou o público dos artistas e dos espetáculos?

Vivemos essa grande revolução que é a internet, são 30 anos praticamente, mas é cada dia mais nítido os efeitos transformadores no planeta, nas relações humanas, comerciais, comunicação, de acesso. Nunca tivemos tanto acesso a tantas coisas, mas aí o que fazer com tudo isso? Quem consegue estar em evidência na rede usufrui de um destaque gigante, mas que também é momentâneo, efêmero. É doloroso pensar que se você não está na rede você não existe aos olhos da grande maioria das pessoas. Alguns youtubers, nem todos são bons ou ruins, não vou entrar nesse mérito, mas para quem monta, desenvolve projetos, se preocupa com cenários, com texto, direção, detalhes da luz, você tem uma preocupação, chega ser frustrante, pois um youtuber vai lá com a roupa do corpo, nem se preocupa com figurino, usa um microfone, dá-lhe falar uma hora, uma hora e meia no palco, muitas vezes fala coisas constrangedoras e agressivas, e é sucesso. Aí você pergunta o que move essas pessoas a estarem lá para ver esse cara? Você vê que ele é uma celebridade, pois as mídias projetam essas pessoas. É digno fazer isso, não estou criticando, mas é um desafio para quem não está vivendo essa ‘vibe’.

Então o público está menos seletivo hoje?

Talvez são critérios que passam por outros caminhos que não são da profundidade da verticalização, mas tudo bem se o público também quer se divertir, a gente precisa desse escapismo, precisa dar risada. Por outro lado, a coisa está um pouco rasa. Falando assim parece que você está subestimando a inteligência das pessoas e não é isso, mas talvez esse ruído, essa distração, esteja confundido um pouco.

Você acredita que toda essa diversidade de opções chega a inibir a produção de um grande espetáculo?

Sim. Porque é complicado você produzir um espetáculo. Ele custa, sempre custou e vai custar. Produzir custa caro. Você tem custos desde as taxas, direitos das pessoas que trabalham, material que você vai confeccionar, elaborar. Você vai fazer uma produção dessas e se você tem patrocínio, maravilha, a bilheteria vai ser para custear o teu trabalho como ator, se não, você tem de correr muito, enfrentar esse terreno incerto para ver se na bilheteria você consegue cobrir o custo e, com muita sorte sobrará alguma coisa para você sobrevier. As pessoas precisam entender quanto custa levar um trabalho artístico para o palco.

Com relação às leis de incentivo à cultura, o governo federal pretende fazer mudanças e reduzir o acesso de artistas, como você avalia isso?

Uma tragédia. Imagine a França extinguindo Ministério da Cultura e projetos culturais? A Itália, o Estados Unidos, extinguindo e reduzindo? Nós temos referências da cultura que é a marca de um povo. As questões de lei de incentivo, se ela tem problema ou distorções, precisam ser corrigidos, melhorados, aprimorados e ampliados, pois temos uma cultura reconhecida pelo povo que se identifica que se reconhece nela. É a nossa história, as pessoas não estão aqui do nada, temos uma trajetória. Piracicaba, por exemplo, tem uma história, uma riqueza cultural. Esse país é incrível, é diverso, tem influências do mundo todo, tem uma história de opressão, sangrenta, e no meio de tudo isso se produziu e se produz muita coisa. É um cenário fantástico você pensar que – de repente – você tem projetos, você tem leis e mecanismos que vão dar condições das pessoas mostrarem o que elas têm, de continuar a existir e se manifestar. Dá pra viver sem cultura? Talvez sim, mas um ser humano oco, que não se conhece. A arte não é só para perfumaria e decoração, a arte nos mostra e traz as nossas angústias, inquietações, você se reconhece nela. E agora se joga sobre o artista levando para a marginalização desse profissional, isso é arcaico, é um retrocesso de séculos. Meus Deus, o artista provoca, incomoda, é a função da arte também de questionar, rumo ao consenso não ao campo de batalha.

Beto Silva