Rosto colado

Um amigo querido me fez esta sugestão: uma crônica relembrando o tempo dos bailes, quando dançávamos de rosto colado. Conversávamos sobre o assunto, de como foi maravilhosa a época do Baile do Bicho, da Agronomia, aqui na cidade, e também os bailes de formatura no final do ano, quando as moças se arrumavam para uma noite memorável e os rapazes convidavam para dançar.

Saber que haveria um baile era um acontecimento, uma emoção vivida semanas antes. Mandava-se fazer um vestido novo. Naquele tempo, as costureiras tinham muito trabalho, muitas encomendas de roupas. Os salões de beleza ficavam lotados no dia do baile, as moças queriam um penteado diferente. Havia um frenesi no ar, uma excitação encantadora, eu vivi esse tempo lindo e tenho certeza de que muita gente que me lê sonhou junto comigo.

Esperar pelo dia do baile! Era algo surreal dentro do coração! Esperar pelo baile era apertar a mão da doçura. Sonhar com o baile significava perder o sono, imaginando como seria a noite das noites. Provar o vestido na costureira, experimentar um brinco de pérola, uma pulseira, um anelzinho, nada muito extravagante, naquele tempo a sobriedade total era a nota da elegância.

Não havia, naquela época, os recursos de beleza de agora. Mocinhas iam ao baile quase sem pintura nenhuma, apenas com a beleza natural. No máximo, um batom rosa nos lábios, para destacar um sorriso necessário. A beleza, afinal, era o baile, a emoção, a expectativa, a sensação maravilhosa de que o mundo poderia parar no instante daquele bolero inesquecível.

Então, com os cabelos arrumados, um sapatinho de salto gracioso, os pés mal tocando o chão, as moças do meu tempo eram as princesas maravilhosas, sonhadoras, românticas, o coração pegando fogo, besa-me mucho!

Ah, eu dancei. Eu dancei quando jovem, eu dancei. Os bailes foram o sonho da minha juventude! E quando se encontrava um par que sabia dançar, era a felicidade. “Você dança bem”, ele dizia. E a gente respondia: “Você também”. A orquestra fazia um pequeno intervalo, depois de uma longa seleção de ritmos maravilhosos, e os pares continuavam ali, no centro do salão, à espera. Quando a música recomeçava, o sonho prosseguia.

Depois de algum tempo dançando juntos, se conhecíamos bem nosso cavalheiro, podia-se colar o rosto, timidamente. Sobretudo se o rapaz era um possível candidato ao namoro. Se já vinha nos convidando para dançar em outros bailes. Se já havia certa familiaridade, aquela corte gentil que não existe mais.

Rosto colado, coração aos pulos. A sensação de morte iminente, respirar parecia impossível, naqueles braços másculos que nos seguravam com tanto enlevo. Eu tive sorte com meus parceiros de dança. Quantos moços lindos e educados me convidavam pra dançar. Poucas vezes tomei o indesejável “chá de cadeira”.

Na juventude, somos todos lindos, belos e promissores! A beleza conquista nossa face em cada minuto, nossos olhos brilham ao som da valsa eterna e, nos rodopios pelo salão, as almas suspiram o que ninguém pode ouvir. Só quem suspirou sabe. Eu suspirei muito, nas valsas, nos boleros, nos ritmos lentos e românticos dos bailes que nunca mais dancei.

Era lindo demais. Rosto colado. Ah, que saudades!…