Santa Casa realiza desejo de paciente em cuidados paliativos

Equipe se mobilizou para levar Luciano Araújo Barro, de 43 anos, para ver o mar pela última vez. (foto: divulgação)

No dia 24 de agosto, o motorista Luciano Barros, 43, nem podia imaginar o que estava para acontecer em sua vida. Internado, o paciente diagnosticado com câncer – e em cuidados paliativos após constatação de metástase -, teve o sonho de ver e sentir o mar, ao lado de sua família, realizado por parte da equipe que integra a Comissão Interna de Cuidados Paliativos da Santa Casa de Piracicaba. E tudo isso só foi possível graças aos funcionários do Hospital, que não mediram esforços para fazer esse grande dia acontecer!

Dias antes, ele havia sido internado devido à desidratação e fraqueza decorrentes da doença. Luciano já não estava mais se alimentando e tinha muita dor e vômitos, pois com o avanço da doença, as medicações surtem pouco efeito. No entanto, ao saber que a equipe multiprofissional da Santa Casa estava disposta a realizar seu sonho, ele logo apresentou melhora.

“Naqueles dias, chegamos a pensar que não daria tempo de realizar o desejo do Luciano, pois ele estava muito mal. Mas, assim que falamos da nossa intenção, ele começou a apresentar melhora e, no dia da viagem, estava disposto e passou bem o tempo todo”, disse o enfermeiro Devandro Santos, supervisor e membro da Comissão Interna de Cuidados Paliativos.

A médica Astrid Giorgia Machini Zanatta, que acompanha o caso de Luciano, disse que tudo começou quando ela entrou na enfermaria da Unidade de Oncologia, onde o paciente e sua família estavam sendo orientados sobre o tratamento paliativo, aplicado quando não há mais proposta curativa.

“Eles entraram em desespero, foi difícil; mas precisamos falar sobre o estágio de metástase da doença e explicar que, naquele momento, o lugar dele não era no hospital, mas ao lado de sua família para aproveitar todos os momentos”, conta a médica. Segundo ela, no mesmo dia, a equipe solicitou que Luciano fizesse uma lista de coisas que ele desejava e a primeira que ele citou foi ir à praia.

A equipe, então, orientou a família a levá-lo, mas ele estava instável e voltava ao hospital com frequência por conta da fraqueza, náuseas e dor; situação que gerou medo em Luciano. “Quando soube que o problema dele era o medo, chamei sua esposa Claudineia e me propus a trocar meu plantão para acompanhá-lo à praia”, contou Astrid. Ela revela que, diante do entusiasmo de Luciano, conversou com o enfermeiro Devandro, que se propôs a ir também e prontamente comunicou a psicóloga Paula Maia e a administração do Hospital.

“Havia risco? Sim, afinal ele é um paciente oncológico grave que havia passado por cirurgia e apresentava dor em picos”, disse a médica, explicando que a situação, bem como o que poderia acontecer, foi esclarecido à família.  “Lembramos, porém, que se algo acontecesse, estaríamos todos juntos e eles toparam”, revelou.

No caminho para o Litoral Sul, Luciano foi no carro com a médica Astrid, sua esposa e o filho caçula. “Até chegarmos à praia coloquei as músicas que ele gostava de ouvir. Foi visível a emoção dele e de sua família. Mas o que mais me tocou foi quando ele olhou nos meus olhos e falou da felicidade que a equipe estava proporcionando não só a ele, mas a toda sua família”, disse Astrid, lembrando que, o ver os filhos e a esposa naquele momento, ele chorou. “Aquela vivência não tem preço; foi um presente para mim, como ser humana”, ressaltou a médica.

Durante todo aquele dia, a equipe informou que Luciano não se queixou, não teve náusea e se alimentou muito bem, o que não ocorria mais. “Não podemos esquecer que o tratamento não é apenas do corpo do paciente, mas também da mente e da alma”, disse Astrid ao revelar que a  viagem foi um verdadeiro remédio para o paciente, que precisava desse momento com os filhos para que essa imagem pudesse ser registrada em suas lembranças”.

A viagem contou com todo aparato necessário para atender às necessidades de Luciano, monitorado pela equipe durante todo o tempo.

Ao ver o mar, sentir a areia e a água, Luciano foi tomado pela emoção, que contagiou a todos. “Foi incrível, emocionante. Impossível conter as lágrimas neste momento único. Essa viagem é a prova de que os cuidados paliativos vão além das paredes do hospital. Como profissional, digo que foi enriquecedor em termos técnicos; como ser humano, digo que essa foi uma das maiores emoções que senti na minha vida”, disse Devandro.

Para a psicóloga hospitalar Paula Maia, o sentimento foi de gratidão por participar de um momento tão importante para aquela família e dividir com ela momentos de dor e tristeza, misturadas com alegria e conforto. “Estamos ainda mais convictos de que cuidados paliativos não envolvem apenas os momentos das noticias ruins; mas também de amor, carinho, compreensão e acolhimento ao paciente e seus familiares”, salienta.

Pelas redes sócias, Bruna Barros, uma das filhas de Luciano, agradeceu a equipe da Santa Casa. “Agradeço de coração por todo cuidado, carinho e amor que todos vocês têm pelo meu pai, ajudando-o realizar o sonho que ele tinha de voltar a ver o mar. Para nós, isso era quase impossível devido ao medo e ao seu estado delicado de saúde. Mas vocês deixaram suas casas e suas famílias para estarem conosco neste momento. Vocês são maravilhosos!”, relatou.

 

MOMENTO DELICADO

Lidar com a morte quando não há mais esperança de vida é uma situação extremamente delicada para a grande maioria das pessoas. Porém, esta é a realidade quando a medicina esgota todas as possibilidades de tratamento e não há mais o que ser feito a não ser os cuidados paliativos para que a pessoa sofra o menos possível.

Por isso, o cuidado paliativo tem se configurado como um ramo crescente da medicina, já que nele é possível lidar não apenas com os sintomas físicos, mas também com as questões emocionais e espirituais dos pacientes e seus cuidadores.

“Ao passo que a medicina avança em protocolos de segurança, que são importantíssimos, pois aumentam os índices de cura, há também o outro lado da medicina, que tem focado mais no ser humano, pois o conceito de cuidados paliativos tem como base a humanização, principalmente em casos de doenças terminais” ressalta Astrid.

Segundo ela, os cuidados paliativos ajudam os familiares a lidarem com a sensação de impotência diante da morte iminente, com o sentimento de dor, sofrimento e também com questões práticas do dia a dia, como lidar com a perda de apetite típica do final da vida, por exemplo. “Os cuidados paliativos ajudam todos a se prepararem para as mudanças físicas e psicológicas que podem surgir e a maneira mais saudável para gerenciar essas situações”, disse. (SCP/Diretor Técnico: Ruy Nogueira Costa Filho- CRM 39.044).

Da Redação