Saudação de agosto

Quero fazer uma saudação ao tempo. Escrever umas linhas inflamadas, de sentimentos variados, de muitas impressões e um pouco de amor a este mês que sempre me pareceu tão estranho, tão hostil e pouco simpático.

Agosto não é como maio. Não, não é. Tampouco como julho, o adorado mês das férias escolares, que me punha num trem, a caminho de São Paulo, para uma inesquecível temporada na casa da madrinha Tia Anita. O sobrado da Mooca, as luzes da cidade que era só minha em julho.

Também não é como janeiro, um mês novinho em folha, cheio de esperanças e expectativas! É o ano que começa e nos enche de promessas. Sobretudo as que fazemos a nós mesmos. Cada um tem para si uma meta a cumprir. Parar de fumar, começar o falado regime, conhecer Israel, saltar de paraquedas ou trocar de carro.

Mês lindo é setembro, a primavera da vida brotando em nós. As suaves manhãs, sua brisa, sua luz, sua beleza. Outubro e novembro são neutros para mim, começo a sentir o apelo natalino, a propaganda que diz “antecipe seu Natal” e logo a agonia se instala em meu pobre peito dezembrino.

Agosto é assim uma coisa passageira, que há de passar. Mas fevereiro e março ficam marcados para mim como meses que descortinam coisas e premissas. Na verdade, estou à espera de abril. As tardes de abril me fazem calar. Assisto ao espetáculo da natureza, no enlevo sublime de todas as horas. Fico triste se deixo o ano passar, sem escrever um texto celebrando abril.

Junho tem o prenúncio do inverno e muitos o acham poético. Sim, o frio é romântico, pede um vinho, roupa de lã, cachecol e calor no coração. Quem não sabe viver o inverno está perdendo um pouco da beleza da vida. O amor é ainda mais lindo no frio. Beijar, abraçar, ah, Deus Pai, como é bom!

Mas agosto é assim algo híbrido, como o cruzamento entre cavalo e jumenta, fruto de alguma conspiração contra nós. Lavo o quintal e logo o carvão preto da queimada está lá. Quão felizes são as pessoas que não precisam lutar contra esse tormento! A certa altura da vida, queremos limpar só uma vez e ver tudo sempre limpo.

Este mês de agosto está passando e vai passar como tudo na vida. Minha madrinha adorava a música do Nelson Ned e repetia: “Tudo passa, tudo passará!”. Falava entre risos e nos seus olhos havia um brilho que só eu via. Aquele brilho que se apagou, quando ela partiu, rindo sem parar, pulando de nuvem em nuvem no céu.

No céu não deve haver tempo. No céu não deve haver meses, tampouco agosto. No céu não nos lembraremos que dia é hoje e também não celebraremos o final de semana. Deve haver celebrações mais tranquilas, sem ansiedade e sofrimento. Depois da morte, paramos de sofrer, de sentir angústia e dor. Assim seja!

Por enquanto, no calendário da Terra, passamos por agosto como se precisássemos de muito cuidado. Vamos devagarinho, pisando as folhas secas do caminho. Porque com agosto não se brinca. Sabe-se lá se é mesmo o mês de cachorro louco. Por via das dúvidas, vamos quietinhos, atravessando este mês e tentando ver nele sua beleza e sua verdade. A gosto de Deus.