Saúde em pauta

Nascido em Piracicaba em 28 de junho de 1952, o secretário municipal de Saúde e Esportes, Pedro Antonio de Mello, é o entrevistado da seção Persona do caderno Arraso+ deste domingo. Após a Secretaria Municipal de Saúde confirmar, no último dia 28 de fevereiro, o primeiro óbito por febre amarela na cidade — um morador do bairro Chácaras Nazareth 2 —, o titular da Pasta, em resposta aos questionamentos da reportagem, falou que “não há motivos para alarde” quanto ao assunto. Ele também comentou sobre o recém-inaugurado Hospital Regional e a respeito do débito da secretaria com os hospitais Santa Casa e HFC, bem como da criação de um trailer para castramóvel.
 
 
Casado e pai de dois filhos, Mello formou-se em medicina pela UnB (Universidade de Brasília) em 1976 e especializou-se em pneumologia, com Residência Médica pelo Hospital de Base de Brasília. Foi secretário de Esportes durante o governo Barjas Negri (PSDB), de 2005 a 2008 e de 2009 a 2012, e atuou como médico do E.C. XV de Novembro de Piracicaba por oito anos. Manteve-se na Pasta durante o governo Gabriel Ferrato (PSB) até 20 de maio de 2013, quando assumiu a Secretaria de Saúde, onde permaneceu até o final da gestão, em 2016. Na administração atual de Negri, tem a função de secretário de Saúde e da Selam (Esportes, Lazer e Atividades Motoras).
 
 
Como avalia o controle da febre amarela no Estado de São Paulo? E em Piracicaba, uma vez que há uma morte constatada no município pela doença?
 
A Vigilância Epidemiológica do Estado de São Paulo está realizando um trabalho abrangente de prevenção, especialmente nas áreas consideradas endêmicas, onde há risco de se contrair a doença, para tentar conter o avanço da febre amarela para as áreas urbanas. O secretário de Saúde, David Uip, anunciou que a população do Estado será vacinada e a campanha de vacinação está em andamento. Os 54 municípios que compõem o cinturão verde do litoral paulista já receberam a vacina fracionada e a sua população está sendo imunizada. As cidades com casos confirmados estão recebendo atendimento especial, sem que haja falta de vacinas, e as equipes da Sucen (Superintendência de Controle de Endemias) estão em campo para ajudar a elucidar casos ainda duvidosos, como o de Piracicaba, cujo LPI (Local Provável de Infecção) da vítima da doença ainda não foi concluído.
 
 
Quais as suas orientações para a população quanto à prevenção da doença? Além da vacina, o que pode ser feito?
 
A orientação principal é que a população mantenha-se em calma, porque não há motivos para alarde. Como o protocolo de vacinação em Piracicaba, segundo a Vigilância Epidemiológica de São Paulo, deve se manter o mesmo, a vacina está liberada para todos aqueles que moram na zona rural ou a visitam frequentemente, para quem vai viajar para cidades brasileiras classificadas como áreas de risco e para quem vai viajar para países que exigem a carteira internacional de vacinação. Vale lembrar que a dose precisa ser tomada pelo menos 10 dias antes da viagem. Temos 21 postos da Atenção Básica onde a vacina pode ser tomada diariamente. Essas informações, com as devidas recomendações, estão disponíveis no site da Secretaria: www.saude.piracicaba.sp.gov.br. No caso das pessoas que moram na zona rural, é importante que fiquem atentas aos possíveis macacos que vivem na região. Se encontrarem animais mortos ou acidentados, devem avisar imediatamente o Canil, pelo telefone (19) 3427-2121 ou o Centro de Controle de Zoonoses, no (19) 3427-2400, para investigação. A vacinação contra a febre amarela na zona rural em Piracicaba vem sendo feita de forma intensificada desde 2013.
 
 
Ao notar sintomas da doença, a pessoa deve fazer o quê de imediato? Em quanto tempo, em média, os sintomas da febre amarela aparecem na pessoa após ela ser picada por um mosquito com o vírus da doença?
 
Uma vez contraído, o vírus da febre amarela mantém-se em incubação no corpo durante três a seis dias. Muitas pessoas não apresentam sintomas, mas quando estes ocorrem, os mais comuns são febre, dores musculares, sobretudo nas costas, dores de cabeça, perda de apetite, náuseas ou vômitos. Na maioria dos casos, os sintomas desaparecem após três ou quatro dias. No entanto, uma baixa percentagem de doentes entra numa segunda fase mais tóxica no espaço de 24 horas, após a recuperação dos sintomas iniciais. Voltam as febres altas e são afetados vários órgãos, normalmente o fígado e os rins. Nesta fase, é provável que as pessoas desenvolvam icterícia (amarelamento da pele e dos olhos, daí o nome “febre amarela”), urina escura e dores abdominais com vômitos. Pode ocorrer sangramento da boca, nariz, olhos ou estômago. Metade dos doentes que entra na fase tóxica morre no período de sete a 10 dias. A febre amarela é difícil de diagnosticar, especialmente durante a fase precoce. A doença mais grave pode ser confundida com malária grave, leptospirose, hepatite viral (especialmente nas formas fulminantes), outras febres hemorrágicas, infecções com outros flavivírus (exemplo: dengue hemorrágica) e envenenamento. Os testes de sangue (RT-PCR) podem, por vezes, detectar o vírus na fase precoce da doença. Nas fases mais tardias da doença é necessário fazer o teste para identificar anticorpos (ELISA e PRNT).
 
 
Como se dá o tratamento de uma pessoa com febre amarela?
 
A febre amarela não tem tratamento específico. É dado suporte de vida, que pode incluir ventilação assistida, hemodiálise, nutrição parenteral, antibioticoterapia para infecções secundárias, fisioterapia, transfusão sanguínea.
 
 
Quem tomou a vacina contra a febre amarela há mais de 10 anos pode se considerar protegido até quando?
 
A OMS (Organização Mundial da Saúde) preconiza uma única dose, pois a vacina é extremamente eficaz, conferindo imunidade sustentável e proteção para toda vida a 99% das pessoas.
 
A respeito do Hospital Regional, recém-inaugurado, quantos funcionários terá? Quantas pessoas poderão ser atendidas na unidade diariamente, em média?
 
Inicialmente, serão 60 leitos no HR: 30 cirúrgicos, 20 clínicos, 10 para UTI Adulto, 4 salas cirúrgicas, além de atendimentos ambulatoriais. Quando estiver funcionando a todo vapor, o HR terá 138 leitos: 84 destinados à internação, 20 à UTI Adulto; 27 para cuidados mínimos, sete para o Hospital Dia; 10 salas cirúrgicas, além de diagnóstico por imagem. Para isso, serão contratados aproximadamente 400 profissionais. A inauguração do Hospital Regional é a concretização de um desejo antigo dos piracicabanos. Trata-se de uma estrutura que será implantada gradativamente, com alta tecnologia, atendimento 100% SUS (Sistema Único de Saúde) e que traz a marca da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) como gestora, uma instituição com know-how em gestão hospitalar. A unidade vai atender a microrregião de Piracicaba e ampliar a rede pública de saúde do município. Junto com outros empreendimentos que estão em andamento, como a Escola de Medicina Anhembi Morumbi — uma das melhores escolas de medicina do Estado de São Paulo —, o Hospital do Câncer, da Associação Ilumina — que traz para Piracicaba a expertise do Hospital do Câncer de Barretos —, das residências médicas e odontológicas, que agregam a FOP (Faculdade de Odontologia de Piracicaba) à rede pública, o HR demarca uma nova fase do município, como polo de excelência em saúde pública.
 
 
Quanto à dívida da prefeitura com os hospitais Santa Casa e HFC, quando o valor o total de débito será liquidado?
 
Assim que o prefeito Barjas Negri assumiu, apresentou uma proposta para quitar a dívida de 2015 e 2016, dividida em três parcelas anuais, para 2018/2019 e 2020. Ambos os hospitais aceitaram o acordo. Sendo assim, recentemente foi quitada a dívida de 2015 no valor de R$ 1.354.080,32 para o HFC (Hospital dos Fornecedores de Cana) e R$ 3.674.180,40 para a Santa Casa. Neste valor estão recursos da Câmara de Vereadores. O montante pendente de 2016 está sendo apurado para quitação nos dois próximos anos.
 
 
Quais as principais ações que constam em seu planejamento para a saúde pública de Piracicaba neste ano?
 
Teremos o HR Zilda Arns e o Hospital do Câncer (Hospital de Amor) em funcionamento. A Faculdade de Medicina da Anhembi Morumbi vai receber os primeiros 80 alunos, iniciando, assim, um novo centro de formação de profissionais da saúde, além de se tornar uma fonte de recursos para o município, uma vez que 10% da renda bruta da escola de medicina será destinada à Atenção Básica e serão usados especificamente para a compra de equipamentos, reforma das unidades e capacitação de profissionais. A escola criará ainda sua Residência Médica, cujos residentes vão atuar na rede pública, atendendo pacientes SUS. Teremos, também, uma Residência Odontológica, fruto de parceria da Prefeitura com a FOP. Os residentes de buco-maxilo-facial vão atuar no HR e HFC, o que permitirá que Piracicaba tenha em breve um centro de patologias da face. Vamos construir uma nova UPA Vila Cristina, mais USFs (Unidade de Saúde da Família), no Jardim das Flores, Monte Feliz, Santa Rita Avencas e Jardim Ipês, além de uma unidade mista de saúde, no Parque Piracicaba (Balbo). O Samu será reformado, com emenda parlamentar do deputado estadual Coronel Telhada (PP). Será reformado também, com recursos próprios, a USF de Tupi. Chegarão duas novas ambulâncias do Ministério da Saúde para o Samu e uma emenda parlamentar do deputado estadual Chico Sardelli (PV) possibilitará a aquisição de uma outra ambulância, para melhorar nossa frota de atendimento de urgência e emergência. Para o SITSS (Sistema Integrado de Transportes da Secretaria de Saúde), já recebemos este ano três veículos da Chevrolet de sete lugares, zero quilômetros, e vamos receber mais dois furgões Peugeot, que estão sendo adaptados para ambulância. Vamos comprar dois novos aparelhos de raio X, entre outros equipamentos para a Atenção Básica, como eletrocardiogramas, ares-condicionados, bebedouros, refrigeradores para vacinas, geladeiras, móveis em geral. Alguns desses investimentos acima receberam recursos de emendas parlamentares dos deputados federais Antonio Carlos Mendes Thame (PSDB), José Serra/José Anibal (PSDB), Paulo Maluf (PP), Bruno Covas (PSDB), Ivan Valente (PSOL). Esperamos que, em meados de novembro, a cidade possa contar com um trailer para castramóvel, com emenda parlamentar do deputado federal Ricardo Izar (PP). Além disso, continuaremos o trabalho de descentralização dos serviços da rede, para que as unidades de saúde se tornem cada vez mais independentes.
 
 
Como avalia a saúde do piracicabano? É possível dizer que os moradores da cidade têm se preocupado com o próprio bem-estar ou deixam a desejar?
 
O sistema público de Saúde tem melhorado ano a ano. Temos uma estrutura completa de atendimento e a Pasta conta com uma equipe técnica altamente qualificada. A falta da cultura da prevenção é um problema crônico no país. Em Piracicaba não é diferente. O fato de a maioria da população não se preocupar com a saúde, antes que o problema aconteça, acaba gerando distorções na rede. É importante destacar que a porta de entrada do SUS deve ser a Atenção Básica, onde estão os postos de saúde dos bairros. Mas com a doença agravada, as pessoas acabam procurando as UPAs e, em situação crítica, os hospitais. No entanto, o atendimento de urgência e emergência é muito mais caro para o município. A nossa luta é para que esse cenário se inverta e a população fortaleça sua relação com o postinho do bairro, onde estão as UBSs (Unidade Básica de Saúde), CRABs (Centro de Referência em Atenção Básica) e USFs, com suas equipes médica, de enfermagem, odontológica e de apoio. A Secretaria de Saúde também está desenvolvendo com a Secretaria de Esportes o programa Piracicaba Saudável, que leva aos postos de saúde atividades físicas e motoras abertas à comunidade, com a finalidade de incentivar a prevenção em saúde, visando a qualidade de vida. (Colaborou Sabrina Franzol)