Servir e proteger cruzando o céu

Major e comandante do Grupamento Aéreo atua no policiamento, mas sua paixão é ‘salvar vidas’. (Foto: Claudinho Coradini/ JP)

Edgard Marcos Gaspar, nasceu no dia 14 de julho de 1974, na cidade de Marília (SP). Filho de Jesuino Gaspar e Eunice Siqueira Gaspar, o major da Polícia Militar e atual comandante do Grupamento Aéreo, o Águia é casado com Francine Mazziero Rigitano Gaspar e pai de Yasmin Rigitano Gaspar, 11, e Diego Rigitano Gaspar, 4. Apaixonado por salvar vidas, ajudou na implantação da base, em Piracicaba tendo como lema: fazer seu trabalho cada vez melhor. Tanta dedicação rendeu ao grupo o reconhecimento na atuação na Polícia Militar que, atualmente, sedia o curso estadual de tripulantes.

Piracicaba foi a primeira equipe a receber a “missão” de ajudar nas buscas no rompimento da barragem de Brumadinho/MG, no dia 25 de janeiro de 2019, que vitimou 252 pessoas já identificadas, além das 18 que continuam desaparecidas. Foram momentos muito difíceis, mas assim como seus tripulantes, ele conseguiu manter a firmeza necessária nos trabalhos, de acordo com os protocolos, que favoreceram na atuação com equipes de várias partes do país, e que apesar de não terem nenhum tipo de interação anterior, todas agiam da mesma forma, obedecendo as normas.

Gaspar ingressou na corporação como temporário, aos 17 anos e desde então, adotou a Polícia Militar como parte integrante da sua família. Ele chegou em Piracicaba em 1987, e foi aqui que construiu sua família.

Na última sexta (8), o major recebeu o título de Cidadão Piracicabano, propositura de autoria do vereador Ronaldo Moschini (Cidadania) e entre um voo e outro ele concedeu entrevista ao Persona do Jornal de Piracicaba e ainda deixou um recado para quem pretende ingressar na corporação: “jamais parar de estudar!” Confira a entrevista do comandante Gaspar, na edição deste domingo.

Como foi a sua criação? Qual recordação que tem de seus pais? Fale sobre eles

Nasci em Marília (SP), porém, logo com um ano, minha família mudou-se para Bauru, onde permaneceram até o final de 1987. Foi nesse ano que nos mudamos para Piracicaba. Quando penso em meu pai, Jesuino Gaspar, ainda vem à lembrança dele me acordando, fazendo o café, ou ainda quando íamos comprar pão e eu pedia um pudim. Ele me levava na escola Cisne Real, em Bauru. Meu pai sempre foi um homem muito correto. Nunca parou de estudar, concluiu o curso de Direito, em Bauru, já casado e com cinco filhos, ainda fez Teologia na PUC Campinas, não conseguia ficar parado e foi diácono da igreja. Quanto à sua honestidade, marcou um dia em que fui no supermercado Santo Antônio (em Bauru), meu pai havia dado 50 cruzeiros para comprar pão; cheguei em casa, todo contente com o pão e falei: – pai, o senhor me deu 50 cruzeiros para comprar o pão, está aqui os 50 e mais uma outra quantia. Lembro dele parar o que estava fazendo e retornarmos ao supermercado para devolver o troco errado para a atendente do caixa.

Minha mãe, Eunice Siqueira Gaspar, sempre cuidava dos filhos e das contas da casa, fazia milagre mesmo. Nos meus aniversários tinha o “direito” de escolher um tênis e uma roupa como presente. Ela conseguiu retomar os estudos e concluir o magistério no Colégio Sud Menucci, com os filhos já formados.

Qual foi a sua formação?

Quando mudamos para Piracicaba em 1988, conclui a 8ª série do ensino fundamental e cursei o ensino médio (1989 a 1991), na Escola Estadual “Professor Elias de Mello Ayres”. Ingressei na Academia de Polícia Militar do Barro Branco, em 15 de janeiro de 1992, concluindo em 19 de dezembro de 1994, o Curso de Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública. Em 2014, frequentei e concluiu o mestrado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública, Centro de Altos Estudos de Segurança “Cel PM Nelson Freire Terra”.

Qual é a sua identidade com Piracicaba?

Hoje, o meu vínculo com Piracicaba é muito mais forte. São 32 anos morando aqui e toda a família da minha esposa é piracicabana. Meu sogro Ary Rigitano, nasceu no Monte Alegre, minha sogra Wanda Mazziero Rigitano, conta histórias do pai dela trabalhando na fábrica Boyes, e meus filhos são piracicabanos.

Em qual momento de sua vida decidiu ser PM?

Acredito que a disciplina que meu pai passava em casa. mas a ideia de ser policial militar surgiu aos 8 anos de idade, em 1983, e posso dizer que foi por “culpa” do meu irmão mais velho, quando ele passou no vestibular para a Academia do Barro Branco, onde passei a ter mais contato com a Polícia Militar. Já na corporação atuei no 3º Batalhão de Policiamento de Trânsito em São Paulo, em 1995 a 1996, 5º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano, na Zona Norte da Capital, Centro de Formação de Soldados “Coronel PM Eduardo Assumpção”, atualmente, Escola Superior de Soldados “Cel PM Eduardo Assumpção”, de 1998 a 2001; Grupamento de Radiopatrulha Aérea – “João Negrão”, atualmente, Comando de Aviação da Polícia Militar – “João Negrão”, onde fui aprovado no concurso de seleção em 2001 para piloto policial de helicóptero, passando pela Base de Aviação de Campinas e, em 2010, participei da implantação da Base de Aviação em Piracicaba, unidade aérea da Polícia Militar, onde permaneço na função de comandante, sendo responsável pelo patrulhamento aérea nos 52 municípios da região do Comando de Policiamento do Interior – 9, desempenhando as atividades em apoio policiamento urbano, policiamento de choque, policiamento rodoviário, policiamento ambiental, Corpo de Bombeiros (no combate a incêndio e salvamentos) e Defesa Civil.

Por que decidiu abrir o quartel para visita das crianças?

Em 2010, implementamos na Base de Aviação, com a ajuda de empresários, o QAP – Quartel Aberto ao Público – evento filantrópico destinado às crianças carentes e com necessidades especiais de diversas entidades da região de Piracicaba. Todos os nossos policiais ficam empenhados para proporcionarem um dia diferente para as crianças. Não fazemos a recolha de dinheiro.

O que representa ser PM para o senhor?

Prender pessoas faz parte de nossa atuação como policial, mas salvar vidas considero que é o mais satisfatório. No entanto, nem sempre isso é possível, principalmente em ocorrências envolvendo acidentes, pois nem sempre as vítimas sobrevivem.

Como recebe a homenagem na Câmara de Piracicaba? Já recebeu outras homenagens?

Participava de uma solenidade na Câmara de Vereadores de Piracicaba, e o vereador Ronaldo Moschini me fez a proposta. Foi muito gratificante o reconhecimento do nosso esforço e trabalho realizado em Piracicaba e por Piracicaba (digo, pela população);

Desde o ingresso na Polícia Militar tinha vontade era trabalhar em Piracicaba, mas, sempre imaginei que tinha que ser algo especial, que fizesse a diferença para a região de Piracicaba, então, desde a implantação da Base, no Aeroporto Estadual “Comendador Pedro Morganti”, criamos o interesse em ser referência para os demais, na parte operacional, administrativa e no relacionamento com a comunidade. Também possuo as medalhas de Valor Militar em graus bronze e prata, Centenário do 7º Grupamento de Bombeiros, de Campinas, Centenário da Aviação – pelo Comando de Aviação da Polícia Militar; Defesa Civil do Estado de São Paulo; Cinquentenário das Forças de Paz da ONU e láurea de mérito Pessoal de 5º a 2º Grau.

Como foi a sua atuação em Brumadinho? Já tinha visto algo parecido?

Acho que nunca mais veremos algo dessa natureza, de novo, assim espero. Diferente de Mariana, as pessoas não tiveram chance, pois o rompimento de Brumadinho foi em um vale. Sabíamos que a chance de encontrar um sobrevivente era muito difícil. Encontramos vários membros de corpos. Tivemos que transportar o corpo de uma criança dentro da nossa aeronave, como era muito leve não tinha condições de ser transportada em um cesto fixada no helicóptero. Na época achamos que era uma criança de uns três ou quatro anos, depois descobrimos que na verdade era o corpo de uma criança de um ano e oito meses. A mãe sobreviveu, mas também perdeu o marido e uma irmã.

Como conseguiram atuar com pessoas diferentes nos resgates?

A corporação de Minas Gerais até tinha equipamentos melhores que os nossos, mas os nossos protocolos e atuação serviram como base para futuras atuações.

Qual a sua relação para a sua equipe de trabalho? Qual a sua mensagem para eles?

Tenho o costume de escolher quem vai trabalhar comigo e, sempre que possível, proporcionar o aperfeiçoamento de todos os integrantes da equipe; se alguém não está bem, buscamos resgatá-lo e superar o momento de dificuldade.

Quais os conselhos que o senhor deixa para os jovens que têm o sonho em ser PM?

Siga o seu sonho, lembrando que Polícia Militar está para servir e proteger toda a população.

Cristiani Azanha

[email protected]