Síndrome de Otelo; o ciúme patológico

O ciúme pode ser considerado emoção que surge como resultado de um desejo exacerbado de possuir algo ou alguém de forma exclusiva, principalmente tratando-se da pessoa amada, que se estende para além da relação com o parceiro, podendo estar relacionado com pais, filhos, amigos, inclusive de objetos, negando-se a emprestá-los aos demais por necessidade de usufruir deles sozinhos, como algo intimo ou pessoal.

O ciúme pode surgir logo na primeira infância, na relação entre irmãos, como a tentativa de conservar todo afeto dos pais dirigidos à criança com exclusividade. Se essas situações forem trabalhadas de forma adequadas pelos genitores ou demais adultos de confiança da criança, ficará mais fácil reviver essas experiências na adolescência e idade adulta, que não podem ser evitadas e ocorrem em diversas circunstancias na vida, mas podem ser lidadas de forma saudável, principalmente se bem direcionadas.

No entanto, quando se trata de ciúme que foge do contexto saudável nas relações, com desejo de posse e de exigência egocêntrica, próprios de todas as formas de ciúme, esse sentimento assume certa gravidade, tornando-se patológico.

Podemos fazer referência a síndrome de Otelo, também conhecida como delírio monossintomático, referenciada à peça de Willian Shakespeare, “Otelo, o mouro de Veneza”. Otelo, o personagem principal, fantasia uma série de suspeitas sobre a infidelidade de sua amada, matando-a e suicidando-se.

Quem sofre dessa síndrome fica obcecado, tece suspeitas e desconfiança de seu parceiro por criatividade da sua imaginação, sem motivos comprovados. Se torna irracional, enxerga somente o que quer, independente de haver provas concretas que confirmem as suspeitas. Se comporta no relacionamento de maneira obcecada a buscar evidências de que o parceiro esteja o traindo. Rastreia computador, celular, contrata detetives, e chega muitas vezes ao delírio. Essa síndrome pode gerar consequências dramáticas a ambos envolvidos.

As causas estimuladoras dessa síndrome estão relacionadas ao alcoolismo, substâncias químicas, esquizofrenia, patologias degenerativas como Alzheimer, Parkinson ou lesões cerebrais.  Mas também pode ter um componente emocional associado à autoestima, ter vivido o processo de desenvolvimento em um ambiente familiar hostil, insegurança, compulsão.

O tratamento dos ciúmes patológico é possível com ajuda profissional especializada para que o indivíduo aprenda a controlar seus impulsos, recupere a serenidade e harmonia para o bem estar emocional e qualidade de vida e em seu relacionamento. É importante a realização de uma avaliação minuciosa do indivíduo com a síndrome de Otelo para identificar a origem que causa o ciúme patológico. Procurar a ajuda de um psicólogo é imprescindível, também pode ocorrer à necessidade de tratamento médico com uso medicamentoso.

Diante de emoções tão intensas, a psicanálise propõe a transformação de uma forma de amar desmedida e sem limites para uma demanda de amor pleno, absoluto que precisa ser domado, conhecido, atravessado, de forma não sufocada, pois ai reside toda a criatividade. Talvez essa seja a tarefa mais exigente e difícil proposta: aprender a elaborar o sentimento de exclusão e transfigurar o ciúme, a possessividade e a onipotência. Tarefa nada fácil, que pode levar uma vida inteira, porém necessário o desafio.