Sol, a culpa deve ser do sol

Por vezes, sinto saudade do tempo já vivido. Faz-me falta, por exemplo, o final da sexta década do século passado quando nos juntávamos em torno da televisão, ainda em preto e branco, para assistir aos festivais de música popular brasileira, não só pelos cantores que neles desfilavam, mas por apreciar composições apresentadas naqueles espetáculos.

O alto nível dos jurados e o público que se aglomerava no teatro Record para apupos e gritarias sem fim, entre aplausos e vaias, apoiando seus ídolos, defenestrando rivais, fizeram a história daquelas noites. Sinto falta.

Hoje, vejo que pensar dominava este tempo, embora já começassem a aparecer as armadilhas do pensamento e, pior, a censura vedando conhecimento, suprimindo livros, discos, filmes, queimando outros tantos em fogueiras da ignorância, destruindo obras de valor que, lidas vistas e ouvidas, dariam qualidade de vida a tantos e melhores oportunidades a muitos mais.
Começava aí, entre os jovens, principalmente, prática de esgaravatar questões para marcá-las com xis, contando com a sorte muitas vezes, para garantir alguma vaga em concurso público que, numa avaliação bem-feita, poderia ser oferecida a quem de fato merecesse.

Nos festivais, não eram poucos os que, recém-saídos das universidades ou as frequentando, provocavam a censura e cutucavam quem, ouvindo, pouco entendia. Por sorte, nestes anos de que tenho saudade, venceram canções que se eternizaram, clássicos da MPB.

A drástica mudança pode ser melhor avaliada nos dias atuais observando, sob diferentes ângulos, o cenário que nos cerca. Por vezes, procuro, nos sucessos de agora, por algo que me faça bem, como me fizeram as canções daqueles anos. Valha-me Deus!

A culpa é do sol, sol de torrar os miolos, como fala Chico Buarque em Caravanas, aproveitando Camus. Nada contra os movimentos surgidos nos últimos anos, mas nem sempre é possível encontrar entre rappers e funkeiros algo para aplaudir demoradamente. Salvam-se alguns, não nego. Há letras que provocam. A maioria, no entanto, me obriga a recorrer à música do passado para senti-la pulsar em mim.

Por sorte aí estão os mesmos que enriqueceram a geração de que lhes falei no início, trazendo luz aos dias. Vivos muitos e outros, que se eternizaram nas canções! A época de ouro parece ter sido também enriquecedora. Bons semeadores. Por isso, faço aqui bom uso do Sermão da Sexagésima e arremedo, com o que me dita a memória, o genial padre Vieira: bom seria que quisesse Deus que meus bons e ilustres leitores não se sentissem desenganados do que lhes digo, como vêm sendo enganados com o que ouvem e leem!

Pois foi algo que me aconteceu esta semana o responsável por tamanha confusão de ideias. Terão visto o Prêmio da MPB? Assistiram a espetáculo notável, veiculado pelo Canal Brasil? Eles estavam lá, na sua maioria. Quem, senão eles, os notáveis de antes, para garantir a qualidade do que ainda se faz no Brasil.

Chico Buarque foi um dos que riscou com as unhas o céu, obrigando a muitos a debruçarem-se sobre a qualidade de Caravanas, sua última produção musical. Henrique Cartaxo, a quem não conheço, deixou registrado nas redes sociais “estar ouvindo há dois dias a música de Chico que retoma a ideia da canção brasileira como forma de pensar, escritura da história e crônica diária da nação. Três minutos apenas. E tive a impressão de ter lido um livro”. Eu também.

(David Chagas)