Suicídio – Não é uma escolha

Luiz Xavier

Por definição o suicídio é um “caso de morte que resulta de uma atitude realizada pela própria vítima. A tentativa é um ato que falhou em levar à morte” (Durkheim).

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o suicídio é a segunda causa de morte entre jovens e crianças no planeta. No mundo estima-se que mais de 800 mil pessoas se matam por ano. Algo próximo de um suicídio a cada 40 segundos (no Brasil acontece um suicídio a cada 45 minutos – o número de tentativas chega a ser de 10 a 20 vezes maior).

As mortes por suicídio no mundo superam todos os homicídios, todos os acidentes automobilísticos e todas as guerras e conflitos civis. O Brasil está entre os 10 países com maior número de mortes por suicídio (seis por cada cem mil habitantes).

A seguir trago algumas reflexões da psiquiatra Dra. Fabiana Nery sobre o tema.

“Não podemos pensar só em morte por suicídio. É preciso entender que existe na verdade todo um comportamento suicida e que não vai acontecer do dia para noite. Apesar da morte por suicídio ser trágica, ela é impulsiva. Em relação ao comportamento suicida, a pessoa apresenta inicialmente pensamentos de morte que podem evoluir para ideias suicidas, para o desejo de morte e pode ter uma motivação como gatilho. Esse gatilho pode ser uma situação que ocasiona na verdade a ação. Ou seja, vai evoluir de uma intenção para um planejamento propriamente dito, com uma metodologia para que aquilo aconteça”.

Segundo ela, nós temos um “folclore” muito ruim quando se ouve dizer que alguém quer tirar a própria vida. É comum algumas pessoas afirmarem o seguinte: “quem quer se matar se mata, não fica tentando”. Isso é um erro, é ignorar um sinal de alerta de que alguma coisa está muito ruim, ignorar um possível sofrimento atroz. Pode estar envolvida uma possível ideação suicida que muitas vezes não é percebida. A ideação suicida envolve pensar cogitar ou planejar um suicídio. É muito mais comum que o suicídio de fato. Existe uma relação íntima entre as duas coisas, mas a maior parte das pessoas que exibe ideação suicida não realiza.

Sabe-se, a partir de relatos de pessoas que conviveram com alguém que se matou, que geralmente elas comentam sobre intenções de suicídio em algum momento, mas muitas vezes esses comentários não são levados a sério. Qualquer intenção ou tentativa de suicídio ou simplesmente um comentário sobre suicídio pode ser apenas um desabafo, uma brincadeira, um grito por ajuda, um aviso mesmo. Não dá para saber isso na hora. Então, a melhor coisa a fazer é levar a sério esse tipo de comentário.

Percebe-se, então, que o suicídio não é escolha, mas na verdade, é sintoma de gravidade de uma doença mental/emocional ou pode estar relacionado a questões associadas a uma vulnerabilidade que já está instalada.

Omitir falar sobre esse tema desagradável não evitará que as pessoas cometam o atentado contra a própria vida. Na verdade falar sobre o assunto é uma das poucas formas de preveni-lo.
Se já pensou ou está pensando em cometer um suicídio você pode ligar para o número 188 do CVV Centro de Valorização da Vida, uma ONG que funciona 24 horas por dia todos os dias.