Suicídio: um problema de saúde pública também

Pedro Antonio de Mello

Suicídio é um assunto complexo, que a sociedade evita por envolver aspectos morais, religiosos, problemas psíquicos e uma boa dose de desencantamento pela vida. É um tema que toca na ruptura absoluta da ordem do ser e, pela sua força desagregadora, tem se restringido às famílias que tiveram que enfrentá-lo devido à relação direta com pessoas próximas que tomaram a decisão derradeira de colocar fim à própria existência ou aos profissionais de saúde mental que trabalham essa temática. O argelino Albert Camus já dizia, nos anos 50, que o suicídio é o único tema filosófico verdadeiramente sério, mas que, acrescento eu, tem ficado restrito aos especialistas e às pessoas que conviveram com o trágica decisão.

O mês de setembro foi escolhido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para tratar publicamente do tema e a Secretaria de Saúde se prontificou em organizar eventos e reunir pessoas dispostas a tratar do assunto, no sentido de organizar políticas públicas que possam contribuir para a prevenção do suicídio. Ficamos impressionado com a adesão de entidades e pessoas não só para colaborar na realização das ações como também para acompanhar as conversas e palestras. Ao todo, cerca de 1.500 participaram diretamente das atividades, entre outras tantas que acompanharam as discussões pela imprensa escrita, rádio e TV, que deram total cobertura. Foram, ao todo, mais de 20 encontros oficiais no período.

A parceria envolveu CVV, Rotary Clube Povoador, Associação Paulista de Medicina (APM), Unimed, Escola de Medicina Anhembi Morumbi, Acipi, Klabin, Via Ágil, Sindicato dos Metalúrgicos, Conselho Municipal de Saúde, além dos setores públicos da saúde relacionados ao Centro de Vigilância em Saúde (Cerest, VE, Cedic), os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e o Departamento de Atenção Básica (DAB), entre outros. Só no encontro dos Cipeiros, organizado pelo Cerest e pelo Sindicato dos Metalúrgicos, cerca de 500 pessoas ouviram a palestra da coordenadora da RAPS, Vandrea Novello, e a representante da CVV, Eliane Soares.

O tema suicídio começa a sair do campo restrito do tabu para ganhar espaço em toda a sociedade, com discussões abertas e aprofundadas, inclusive com depoimentos de pessoas que passaram pelo drama de ver a própria vida por um fio. Vale destacar nesta campanha o papel fundamental da CVV, que disponibilizou conteúdo para a divulgação do assunto, visto ser uma entidade com expertise, pois há décadas se aprimora na função de conversar com as pessoas que a procuram nos momentos difíceis de suas vidas. A APM disponibilizou a psicóloga Sívia Scarassati e a psiquiatra Ana Lúcia Paterniani para palestras, que trouxeram esclarecimentos ao público presente.

O Rotary Clube Povoador ajudou tanto na organização da campanha como na organização de uma caminha, que deu um toque de leveza à questão. E o nosso agradecimento a todos os envolvidos que ajudaram de alguma forma. Neste ano, podemos dizer com segurança, foi dado um grande salto em relação ao tema. Precisamos agora fortalecer estratégias de ação junto à sociedade para que o suicídio deixe de ser um assunto a ser evitado e ganhe dimensão filosófica de interesse de todos, e as pessoas possam assim ser ouvidas em suas dimensões e angústias e encaminhadas adequadamente para tratamento preventivo de saúde.

Pedro Antonio de Mello é secretário de Saúde de Piracicaba.