Tardia Descoberta

David Chagas

Quatro domingos e o Natal. Nem mesmo um misantropo desconhece, nas canções, nas luzes, no céu de dezembro, estas sensações dezembrinas. A paz de agora, retórica repetida em ambientes onde o comércio se agita, tenta desfazer as sensações. Conseguirá? Tudo hoje parece distante do Menino dando-nos paz, a sua paz de que necessitamos tanto. As luzes em excesso, as pessoas, embaladas pelo barulho das ruas, tropeçando umas nas outras na rota das lojas e sorrindo felizes como se tudo, num passe de mágica, tivesse outro tom, outro som, outro sabor, não é o Natal do Menino, mas não destrói sua palavra de esperança.

Estranho tudo isso. Não quero debruçar-me no passado, mas nenhuma outra época do ano remete à infância, como esta. Não pelos presentes distribuídos na noite bendita. Tampouco pelas canções cantadas ao redor da árvore. Mas por ser tempo de Natal que faz nascer uma espécie de sentimento jovial, uma associação agradável de esperança e fé. Na lembrança, de volta, aquele período que antecedia a festa seguindo o ritual estabelecido todo ano por minha mãe, tanto na exagerada limpeza da casa como no preparo de doces. A ambiência, a atmosfera que tomava conta de tudo, com serena verdade. Bem sei que, menino, não dava à época a importância merecida. Bom seria recobrar o instante que não me passou desapercebido, sem que, à época, fizesse registro merecido.

A casa ganhava um movimento distinto. Os odores, os sabores, a falação e a cantoria, tudo era diferente e havia animação, contida, respeitosa, até mesmo na ornamentação da árvore e na arrumação do presépio. E quanta esperança depositávamos no bebê que chegava.

No instante da luz, silêncio. Hora de falar com Deus. Uma oração breve e a canção natalina que entoávamos, deixando em cada verso profundo sentimento. Sei lá se eu, só eu, ou se minhas irmãs também tinham iguais sensações, mas a noite parecia alongar-se sugerindo acolhimento e aconchego. Acostar-se para dormir, numa noite bendita como esta, era quase um castigo.
Ninguém que passasse pelo largo espaço à frente de nossa casa, todo aberto (não havia muros nem grades), emoldurado por buganvílias e dedais de ouro, deixaria de receber algo para alimentar-se com uma palavra de conforto e fé.

Os presentes não eram motivo de estardalhaço ou de exibição desnecessária e representavam, tão somente, lembrança boa do velhinho bom, sem que jamais se perguntasse a quem quer que fosse, se fora também agraciado.

Dia seguinte, manhã mal despertada, juntávamo-nos a alguns meninos da vizinhança e saíamos, em meio a algaravia, empunhando cofres, para desejar felizes festas a quem encontrássemos, vibrando com uma e outra moeda que tilintasse entre as já depositadas.

O Natal provoca a memória com estas imagens e permite sonhar. Era bom. Quem desfez este rastro da estrela? Nestes Natais importava o Menino que deveria ter despertado na maioria dos homens o bem e a boa vontade ainda adormecidos.

Não foi longe este tempo de beleza e paz. Tão logo vi recuar a ingenuidade da infância para ceder espaço à adolescência, o Natal foi o primeiro a desprender-se de seu verdadeiro sentido. Ficou apenas a pergunta insistente: “Mudaria o Natal ou mudei eu?”