Tempos iluminados, tempos sombrios…

Nos estertores do século vinte, mais precisamente no final de 1996, um grupo de quarentões, alguns já beirando o meio século, resolveu vestir de luzes a quase centenária Sapucaia, última remanescente do bosque Barão da Serra Negra, onde hoje se encontra o estádio municipal que leva o mesmo nome.
 
A beleza do voluntariado em harmonia com a aura de paz e um certo devaneio, que permeava o projeto, resultou na mais linda e tradicional iluminação de uma árvore, que o Natal piracicabano já havia visto. Nesse acontecimento, está a gênese de uma agitação cultural que tomou conta da comunidade bairro altense e acabou se estendendo por toda cidade.
 
Num passe de mágica, como pirilampos, as luzes desceram da majestosa sapucaia e se transformaram em foliões(ãs), desfilando pela imponente Moraes Barros, na contramão da tristeza, no Carnaval de 1997. No início, lembrando o enredo da antológica música do grande Chico, “Vai Passar”, não mais de cem foliões desceram a Moraes numa alegria fugaz, como diz a letra da canção. O amigo e artista Tito Vitti me presenteou com um vídeo de um dos primeiros desfiles da mambembe banda, o qual guardo a sete chaves como preciosa lembrança. Depois, com um crescimento exponencial, transformando-se numa procissão de alegria, chegou a dezenas de milhares de participantes e, ao unir nessa multidão pessoas de todas as classes sociais, raças e ideologias, nos fez lembrar a sociedade alternativa do inesquecível Raul Seixas. Vivemos momentos mágicos de confraternização, de alegria coletiva, de encontros e reencontros. Leigos no samba, criadores de ilusão, como diz a letra de um dos sambas enredos da banda, haviam conseguido uma espécie de congraçamento entre as pessoas, que só acontecem no Brasil, nas festas de fim de ano e durante a Copa do Mundo de futebol.
 
Foram momentos iluminados que nos passavam a ilusão, ainda que passageira, de que um mundo melhor era possível. Esse sonhador — como me chamou um dia meu velho camarada e fanático sapucaiense, Zé Beto — tinha planos audaciosos para dar continuidade a esse nosso exitoso projeto, que passava pela criação de uma Associação Cultural, abarcando criadores e seus simpatizantes mas, infelizmente, tudo não passou de um sonho. Consta que foi criada burocraticamente uma associação, a qual não guarda qualquer identidade com a história e a tradição do projeto original.
 
Porém, a falta de apoio à altura do crescimento da banda, gerando problemas de segurança e de logística e, como num prenúncio do que estamos vivendo nos dias de hoje, o preconceito, as vaidades, a busca pelo poder, o oportunismo e a deslealdade foram minando esse verdadeiro fenômeno, que um dia chamamos de Movimento Cultural Sapucaia, transformando-o em um mero evento carnavalesco, desses tempos sombrios.
 
Por uma questão de reconhecimento e registro histórico, o Movimento Cultural Sapucaia teve a sua gestação no jornal Gazeta da Cidade Alta (que hoje só existe on-line), do nosso amigo e jornalista Kerko Tomaziello, e a Banda da Sapucaia foi inspirada na tradicional Banda do Candinho, que desfila até hoje na capital paulista.
 
Rubens Santana de Arruda Leme foi um dos fundadores do Movimento Cultural Sapucaia