“The five o’clock tea” (Chá das cinco)

Nesta semana, a imprensa publicou com destaque fotografias da Rainha Elizabeth II recebendo Boris Johnson, seu novo primeiro-ministro. Foi a 14ª vez que, em seu longo reinado, Elizabeth repetiu esse ritual. A Inglaterra preza seus rituais. O ritual do famoso chá das 5 horas da tarde é, sem dúvida, uma instituição britânica, tão tradicional quanto a Torre de Londres, o Big Ben ou a Câmara dos Lordes.

Todo mundo sabe disso. Mas o que muita gente desconhece é como os ingleses aprenderam a tomar chá. Foi uma portuguesa que lhes ensinou essa arte.

Em 1662, o rei Carlos II, da dinastia Stuart, casou com a princesa D. Catarina de Bragança, filha do rei D. João IV, de Portugal. Como dote, D. Catarina levou importantes possessões indianas que foram a base do domínio inglês na Índia. Levou também, como relatam antigas crônicas, uma arca de chá chinês, pois a nova rainha da Inglaterra era aficionada ao consumo de chá, que os portugueses haviam trazido do Oriente na época das Navegações.

Na Inglaterra a bebida era uma novidade praticamente desconhecida, e logo fez sucesso. Já no século XVIII o chá se tinha transformado na bebida nacional, muito mais do que a cerveja ou o gim.

Não foi essa a única contribuição portuguesa para a culinária britânica. D. Catarina também levou para Londres o hábito de comer marmelades, geleias que na Inglaterra não são feitas somente de marmelos, mas podem ser feitas com qualquer fruta.

Quando D. Catarina foi para Londres, levou consigo duas damas de honra, D. Maria de Portugal (Condessa de Penalva) e D. Elvira Maria de Vilhena (Condessa de Pontével). Na Corte inglesa, ferrenhamente adepta do anglicanismo, as duas condessas foram muito perseguidas por serem católicas e tiveram que voltar logo a Portugal. A própria D. Catarina, apesar de rainha, também sofreu incontáveis perseguições, chegando a ser acusada formalmente, no Parlamento inglês, por crime de alta traição. Deixou, entretanto, ótima recordação na Inglaterra. Até hoje funciona em Londres um clube fundado por D. Catarina, dedicado à prática esportiva do tiro com arco e flecha.

As duas damas de companhia retornaram a Portugal, mas deixaram em Londres a receita de uns bolos maravilhosos, que tinham aprendido no Convento das religiosas dominicanas de Montemor-o-Novo, na província lusa do Alentejo.

O Conde de Sabugosa, em 1912, no seu livro “Donas de Tempos Idos”, alude ao fato: “As pobres senhoras só deixaram em Inglaterra uma recordação doce: uns bolos, que ainda se vendem em Richmond, chamados ‘maids of honour’, e que a tradição diz serem feitos com a receita trazida pelas damas portuguesas”.

Curiosamente, esses mesmos bolos mais tarde retornariam a Portugal rebatizados como “bolos londrinos”…

Aramando Alexandre dos Santos