The National, quebrados e maduros

Matt Berninger, aos 29 anos, chorava após, numa discussão, perceber que Carin Besser havia partido e poderia não voltar mais. O vocalista de uma banda fundada um ano antes, o The National, iniciada em 1999, embriagado de vinho, fechou-se no banheiro do apartamento onde morava e compôs, e gravou, ali mesmo, versos assim, desesperadamente românticos e devastados: “Sabe, eu sonhei com você, 29 anos antes de ver você / sabe, eu sonhei com você, eu sinto sua falta há 29 anos”.

Treze anos e quatro discos depois, em 2013, Berninger ria da própria bebedeira naquela noite durante uma entrevista com a reportagem. No fim das contas, havia reatado com Carin, tinha duas filhas e sua banda formada por amigos de Cincinnati que se mudaram para o Brooklyn, em Nova York, era considerada um foco de resistência do indie, que se mantinha inventiva, sem esquecer as raízes – enquanto todo o resto daquele movimento de efervescência musical do bairro nova-iorquino se perdia musicalmente falando. “Todas as mulheres sobre as quais canto são diferentes versões da minha esposa”, declarava-se ele, no lançamento do disco Trouble Will Find Me, daquele ano.

Início de maio de 2018. Berninger, aos 47 anos, não sofria exageradamente por um amor que, afinal, não havia de fato perdido. Também não está no outro oposto, numa felicidade ilusória. Está satisfeito com o que vive hoje. Seu grupo, formado ao lado do par de irmãos Dessner (Aaron e Bryce) Devendorf (Bryan e Scott), lançou um novo disco no ano passado, Sleep Well Beast, um álbum no qual ele coloca sua voz de barítono em canções sobre viver a beirada dos 50 anos, num amor maduro, com seus altos e baixos.

Também se preparava para voltar ao Brasil depois de sete anos. O grupo se apresenta nesta quinta-feira, 22, no Circo Voador, em uma noite na qual divide as atenções com a banda Spoon – liderado por Britt Daniel, o grupo é de uma geração anterior ao The National, de 1994, mas também considerado um “herói da resistência”, mesmo após uma música deles, The Way We Get By, ter sido incluída no drama teen televisivo The O.C., bastante popular na época. As duas bandas também se apresentam no Lollapalooza, em São Paulo: Spoon na sexta, 23, às 16h20, e The National, no sábado, às 18h20.

Berninger fala de Los Angeles, cidade que se tornou sua nova morada há cinco anos, desde que deixou Nova York. “Levo uma vida definitivamente saudável, tomando sol, comendo melhor”, conta. A banda tem decidido por ter um período maior de tempo em casa, distante da estrada e da rotina das turnês, um dia a dia que, segundo o vocalista, os deixa “completamente malucos”. “Percebemos aos poucos a importância de nos distanciarmos. Era importante não nos enlouquecermos. Estamos constantemente nos reunindo, é claro, mas estamos constantemente quase nos separando”, ele diz. “É importante que a gente tenha um equilíbrio mental em todas as partes da sua vida. Se você começar a afundar, não vai ter sobre o que escrever. Quando você começa a compor e percebe que são um monte de bobagens, é porque você está um bagaço.”

Carin Besser, aquela que protagonizou a música 29 Years, citada no início do texto, e é todas as outras personagens femininas cantadas por Berninger, também está na ficha técnica de Sleep Well Beast. Ela assina as composições da faixa-título e de Empire Line. Em ambas, o casal Berninger-Besser canta sobre entendimento, silêncios, distâncias e relacionamentos longos e persistentes, mesmo diante da implacável ação do tempo. “Não conversamos muito sobre o que estamos escrevendo”, explica ele. “Embora existam canções tristes ou sobre relacionamentos que estão funcionando, nós sabemos que em um casamento as coisas estão sempre mudando.” E completa: “Ela é mais preocupada com a minha escrita do que eu. Ela prefere que seja dolorido e que machuque do que eu seja um artista ruim. É isso que nos mantém juntos.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.