Transplante: uma nova chance para viver com qualidade de vida

JP entrevista transplantados que relatam importância da doação de órgãos e da vida após a cirurgia. (Claudinho Coradini/JP )

Gratidão. Esta é a palavra que resume o sentimento de José Lúcio, Rafael e Astrid. Os três se submeteram a transplante de órgãos e são protagonistas de histórias com final feliz. No dia dedicado nacionalmente à doação de órgãos, eles contam a experiência de ter recebido de outra pessoa a chance de seguir com mais confiança e qualidade de vida. O trio também aproveita a data para chamar a atenção quanto a necessidade de o doador reforçar seu desejo junto à família, que tem a palavra decisiva no momento da doação.

Há 20 anos, o oftalmologista e médico transplantador Rafael Guena recebeu o diagnóstico de que seria preciso se submeter a um transplante de medula óssea. A partir daí, a família se mobilizou para buscar a compatibilidade. Em geral, a chance de achar um doador compatível entre irmãos do mesmo pai e da mesma mãe é de 25%. Ao final, coube à irmã a missão de doar o tecido que iria ser o remédio para a cura de Rafael.

O então estudante de medicina foi obrigado a trancar a matrícula na faculdade onde cursava o segundo ano e retornou 18 meses depois. Guena confessa que a experiência pessoal com o transplante teve influência direta na sua escolha profissional. Após concluir o curso de medicina ele escolheu a carreira de médico transplantador.

Hoje, ele atua na outra ponta do processo de doação e é um dos responsáveis por transplantes de córneas realizados na Santa Casa de Piracicaba e Hospital dos Fornecedores de Cana. Segundo o médico, o número de doações de córneas ainda é pequeno no Brasil. “Se compararmos com a Espanha, que tem uma população bem menor, as doações aqui ainda são muito poucas”, afirmou. Para ele, os problemas que contribuem para a resistência de potenciais doadores são a falta de informação e de estrutura.

O casal Eurides Cândido e José Lúcio Florentino está junto há 44 anos. Há sete anos, a união dos dois foi reforçada com um gesto que surpreendeu a família. Após um ano de hemodiálise, ele precisou de um transplante de rim e, para não aguardar na fila, foi decidido que buscariam um familiar compatível. Eurídes se dispôs a ser doadora e iniciou os exames. “Enquanto ele fazia as quatro horas de hemodiálise, três vezes por semana, eu comecei a fazer os exames para ver a compatibilidade”, lembou a aposentada.

“No Natal de 2011 ele estava muito desanimado achando que não iria conseguir”, lembrou Eurides. O ânimo de José Lúcio começou a mudar seis meses depois do tratamento quando – finalmente – os exames apontaram para a compatibilidade da esposa. “Depois desse diagnóstico, 15 dias depois já estávamos na sala de cirurgia da Santa Casa”, contou o comerciante. Mas o transplante não eliminaria os impactos da cirurgia vividos nos próximos nove meses. “ Foram nove meses terríveis”, classifica Eurídes, ao comentar o pós cirúrgico.

LIBERDADE — A identidade do doador e do transplantado é mantida em sigilo durante todo o processo do transplante. A nefrologista e médica socorrista do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), Astrid Giorgia Machibni Zanatta, sabe pouco da doadora que doou um rim há um ano e sete meses. “Sei apenas que era uma moça de 28 anos que morreu de aneurisma”, contou. Após quatro anos de hemodiálise e de espera por um doador, ela foi comunicada por uma colega que havia um rim compatível.

Após a cirurgia, ela permaneceu por dois meses internada devido a complicações que foram desde a rejeição até infecção. “Tiveram várias intercorrências e foram dois meses de pós operatório, é preciso entender que o transplante não é a cura, é um processo do tratamento”, afirmou. Informou que os transplantados de rim seguem com medicação durante toda a vida. “O transplante representa a liberdade de você não precisar mais da máquina de hemodiálise, isso já é muito bom”, relatou Astrid.

A Santa Casa de Piracicaba recebeu um prêmio de reconhecimento da Secretaria de Estado da Saúde devido a atuação da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes premiada como a comissão que mais registrou notificações para captação de córneas no Estado de São Paulo em 2017. O resultado garantiu à Santa Casa também o Título de Hospital Amigo do Transplante.

( Beto Silva)