Trump dirige força militar para Síria após cancelar ida a cúpula regional

Diante de uma crise doméstica e outra internacional, Donald Trump cancelou sua participação na Cúpula das Américas, no Peru, e será o primeiro presidente americano a faltar ao evento desde sua criação, em 1994, destaca o jornal O Estado de S. Paulo. A Casa Branca disse que Trump ficará nos EUA para supervisionar a resposta ao ataque com armas químicas que, segundo seu governo, ocorreu sábado na Síria.

Enquanto discutem cenários para um ataque, os chefes militares americanos deslocaram o destróier lançador de mísseis USS Donald Cook para o Leste do Mar Mediterrâneo, nas proximidades da costa da Síria. O bombardeio ordenado por Trump há um ano em retaliação a outro ataque com armas químicas foi feito a partir de navios de guerra semelhantes.

Na segunda-feira, 9, Trump indicou que tomaria uma decisão até esta quarta-feira, 11. A ação se torna mais provável porque uma das principais críticas do presidente a seu antecessor, Barack Obama, foi não ter agido militarmente contra Assad depois de traçar o uso de armas químicas como “linha vermelha”.

Ayham Kamel, diretor para o Oriente Médio e Norte da África da consultoria de risco Eurasia, afirmou que a resposta americana deverá ter por alvo instalações militares do regime de Bashar Assad, apesar da retórica agressiva de Trump em direção ao presidente russo, Vladimir Putin, o principal aliado do governo sírio. Ele ressaltou que a possibilidade de erro de cálculo que leve a um confronto direto entre os ex-rivais da Guerra Fria é maior hoje do que há um ano. “Os russos expandiram sua presença na Síria e estão mais inseridos nas Forças Armadas do país”, ressaltou. Além disso, o grau de tensão entre Moscou e Washington se elevou com a recente imposição de sanções contra oligarcas, empresas e autoridades russas.

O ex-presidente soviético Mikhail Gorbachev se disse “alarmado” com o risco real de confronto entre os EUA e a Rússia. “Ninguém quer uma guerra. Mas incidentes podem resultar em grande desastre no atual ambiente”, declarou à agência Interfax.

No dia anterior ao anúncio de Trump de que não iria mais à cúpula no Peru, o FBI realizou buscas em Nova York no escritório do advogado pessoal do presidente, Michael Cohen, em um desdobramento da investigação sobre a interferência da Rússia na eleição de 2016 (mais informações na página A11).

Apesar da gravidade de um eventual ataque à Síria, analistas avaliaram que a decisão de Trump de não ir à Cúpula das Américas é uma demonstração de que a região não está no topo de suas preocupações. “Isso mostra que a América Latina é uma prioridade de segunda ou terceira linha, se é que é uma prioridade”, observou Peter Hakim, presidente emérito do Inter-American Dialogue.

Em sua avaliação, as expectativas em relação à cúpula se reduziram. “O ponto central desse encontro era ‘América Latina encontra Mister Trump em pessoa'”, afirmou. Hakim respondeu com um número quando questionado o que espera do encontro agora: “zero”. Jason Marczak, diretor para América Latina do Atlantic Council, disse que a ausência de Trump será “uma perda” para os EUA e a América Latina. “Há muita preocupação na região em relação ao rumo da política América em Primeiro Lugar”, afirmou.

Na semana passada, Trump, retomou a retórica agressiva de sua campanha contra imigrantes e anunciou o envio de tropas para a fronteira com o México. O presidente também adotou medidas protecionistas que têm o potencial de afetar vários países da região, entre os quais o Brasil. Marczak ressaltou que em seus 15 meses de governo Trump teve “interações mínimas” com líderes latino-americanos e até agora não se encontrou com Enrique Peña Nieto, o presidente do México.