Um monarquista na defesa da Cultura

Foto: Amanda Vieira/JP

Armando Alexandre dos Santos, paulistano de 64 anos, reside desde 2006 em Piracicaba. É jornalista profissional e professor universitário, lecionando nos cursos de graduação em História e pós-graduação em História Militar da Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL. Trabalhou em órgãos de imprensa no Brasil e em Portugal, graduou-se em História e em Filosofia, fez pós-graduações em Docência do Ensino Superior e em História Militar e tem doutorado na área de Filosofia e Letras. Seu currículo Lattes impressiona; impresso em corpo 12 e espaço 1.0, ocupa nada menos de 87 páginas, elencando 43 livros, 17 capítulos de livros de autoria coletiva, 65 artigos científicos e 520 artigos em jornais e revistas, afora traduções e adaptações de livros. Seus livros tratam de temas variados: História, Ciência Política, Psicologia, Religião. Na semana passada, recebeu da Câmara Municipal de São Paulo o prêmio Colar Guilherme de Almeida, como reconhecimento por seu trabalho em prol da Cultura paulista. Reside num apartamento com uma biblioteca de 10.500 volumes e numerosas obras de arte que coleciona e cataloga. É ali que grava suas aulas e escreve seus artigos semanais, publicados jornais e em blogs brasileiros e portugueses.

 

Professor, jornalista e escritor, como começou e como concilia as três carreiras? 

Comecei como jornalista e evoluí naturalmente para a escrita de livros e o magistério superior em História. Não há nessas atividades contradição, mas complementação. O jornalista é o historiador do presente, o historiador é o jornalista do passado.

 

Quando e por que escolheu Piracicaba para morar e trabalhar?

Algo que me motivou a me transferir para cá foi o hino “Piracicaba, que eu adoro tanto”, que ouvi há muitos anos e se gravou na minha memória. Em 2006, estava cansado de viver em São Paulo. Vivia num apartamento barulhento, com tráfego intenso de dia e de noite, junto a uma estação do Metrô em construção, com máquinas ruidosas trabalhando a noite inteira. Já não aguentava mais. Precisava urgentemente mudar para uma cidade mais tranquila. Foi então que surgiu a oportunidade de vir para cá e lembrei-me do velho hino…

 

Em seu discurso na Câmara de Vereadores, ao receber o ‘Colar Guilherme de Almeida’, o senhor falou que em Piracicaba sua produção intelectual se desenvolveu muito. Houve algum fato em especial que tenha contribuído para isso?

A tranquilidade e o silêncio, sem dúvida. Minha produção intelectual aumentou e se intensificou enormemente. Resido bem no centro da cidade, no 19o. andar de um prédio, com vista para o Salto e possibilidade de assistir todas as tardes ao espetáculo do pôr do Sol. Que mais desejar?

 

O senhor escreveu muitos livros sobre temas diversos. Por curiosidade, qual foi o primeiro e qual o mais recente?

O primeiro livro que publiquei foi “A Legitimidade Monárquica no Brasil”, uma análise histórica e jurídica sobre a descendência de D. Pedro II; continha sete quadros genealógicos sobre as origens da Família Imperial, os primeiros elaborados no Brasil por computador; teve duas edições em 1989 e agora, 30 anos depois, foi lançada a 3ª. O mais recente foi “História e Memória Oral”, livro didático para o curso de graduação em História, escrito por encomenda da UNISUL, onde leciono.

 

De modo geral e em nível nacional, como o senhor avalia a produção e o consumo cultural?

Quando se fala em produção cultural, geralmente se pensa em artistas e escritores famosos. Prefiro pensar numa cultura mais de raiz, numa cultura popular que a mídia não vê nem considera, mas que existe, é autêntica e tem uma criatividade incrível. Conversei em Minas, no Nordeste e no Sul com gente analfabeta, mas com uma sabedoria e uma experiência de vida fantásticas, muitas vezes se expressando de forma poética e elaborando pensamentos de conteúdo tão rico que poderiam servir de tema a tratados de Filosofia. Comi, certa vez, à beira do Rio S. Francisco, uma moqueca de surubim deliciosa, digna de receber medalha de ouro em qualquer concurso internacional de alta gastronomia. Eu estava com um amigo, e lembro que quisemos cumprimentar o cozinheiro. Para nosso espanto, soubemos que quem havia produzido aquela verdadeira obra de arte culinária era uma menina negrinha, de 14 para15 anos de idade! Isso é alta cultura, embora não receba o reconhecimento público que mereceria receber.

 

A tecnologia, em sua opinião, contribui com a cultura? De que maneira?

Pode contribuir, porque facilita a pesquisa e evita muitos procedimentos repetitivos e cansativos, mas pode também limitar, na medida em que favorece a produção em série, menos personalizada e, portanto, menos criativa.

 

Como avalia o tratamento do Governo Federal às questões culturais do País? O que o fim do MinC representa para a sociedade brasileira? Nesta semana, ex-ministros da Cultura assinaram uma carta com críticas ao Governo Federal; o senhor assinaria este documento?

Não assinaria, porque ele exagera as consequências da extinção do MinC, como se a cultura brasileira dependesse da existência formal de um ministério próprio. De fato, o Presidente Bolsonaro apenas reduziu o status do MinC, que passou a ser uma Secretaria do Ministério da Cidadania. Nas últimas décadas, multiplicaram-se excessivamente os ministérios, com estruturas gigantescas e milhares de empregos desnecessários. O resultado foi uma gigantesca, caríssima e inoperante máquina estatal, que o atual presidente procura reduzir a proporções mais razoáveis e adequadas à realidade. É normal que enfrente críticas, tanto de pessoas prejudicadas pelo “enxugamento”, como de setores políticos ou ideológicos não afinados com ele.

 

Há alguma função ou atividade que o senhor ainda pretenda exercer?

Ainda gostaria de fazer o curso de Direito. Gosto muito do Direito, sou praticamente o único não-advogado da minha família e tenho “cabeça jurídica”, segundo me dizem amigos advogados. E gostaria de organizar um curso universitário de especialização em Genealogia. Na Argentina e em vários países da Europa há cursos universitários regulares de Genealogia, mas no Brasil não existe nenhum. Acredito que uma pós-graduação em Genealogia, por EAD, teria grande número de interessados. Já tenho o projeto feito, falta apenas uma universidade decidida a investir.

 

Como avalia o tratamento dado à Cultura em Piracicaba?

Penso que o que deveríamos visar é que Piracicaba volte a ser plenamente a “Atenas Paulista” que foi no passado. Ainda hoje, apesar da decadência geral, Piracicaba se destaca, em termos de cultura, quando comparada com outras cidades. Infelizmente, prevalece no Brasil a ideia de que cultura é algo supérfluo e em qualquer corte de gastos, o primeiro item que se corta é o da cultura. Em Portugal, a Constituição determina a porcentagem fixa dos impostos destinada à Cultura, sem depender de vontade política e sem poder ser desviada para outros fins. É um exemplo a ser seguido.

 

Já pensou em seguir a carreira política? Politicamente, como se define? 

Não tenho habilidade nem interesse em seguir carreira política. Minha área de trabalho é a cultural. Quanto à minha posição pessoal, posso dizer que sou politicamente bem incorreto… Sou conservador e francamente de direita. Economicamente, a favor da propriedade privada, da livre iniciativa e da função meramente subsidiária do Estado. Nunca me filiei a nenhum partido político, embora no plebiscito de 1993, no âmbito de uma Política extrapartidária e com “P” maiúsculo, me tenha empenhado na campanha monarquista. Até escrevi, naquele contexto, alguns livros que se tornaram obras de referência para os simpatizantes de uma solução monárquica para o Brasil.

 

Há muitos monarquistas em Piracicaba? O senhor considera a monarquia uma opção viável para o Brasil?

Em Piracicaba, o Círculo Monárquico Barão de Rezende reúne grande número de jovens idealistas e trabalhadores que dão muita esperança. No próximo dia 13 será aqui realizado o 1º. Encontro Monárquico-Cultural de Piracicaba, com a presença do Príncipe D. Bertrand de Orleans e Bragança. Deverei falar nesse encontro. Na verdade, a monarquia, longe de ser uma forma de governo arcaica e ultrapassada é moderníssima e de grande maleabilidade. Muitos a criticam por puro preconceito ou por desconhecimento, mas ela é, a meu ver, um caminho viável para o Brasil atual. Pode parecer um sonho, mas, como escreveu Fernando Pessoa, “Deus quer, o homem sonha e a obra nasce”. Por outro lado, se a monarquia parece um sonho, a república que temos, sem dúvida, é um pesadelo.

 

Beto Silva