Um teatro para ópera e a dádiva do fosso

No domingo passado, dia 19, os piracicabanos que quiseram conferir pessoalmente a reforma do Teatro Municipal Dr. Losso Netto e puderam estar presentes na singela cerimônia de abertura viram com seus próprios olhos o novo e resplandecente palco. Singela porque foi sem pompa, sem comício e sem falatório político. Além de uma exposição de alguns cartoons de talentosos chargistas e ilustradores piracicabanos, também podia se ver as páginas de edições passadas (e algumas até históricas) do Jornal de Piracicaba trazendo uma retrospectiva das notícias sobre o Teatro desde sua inauguração, em 19 de agosto de 1978.

Quarenta anos se passaram desde sua fundação e cinco anos desde que precisou ser fechado para reformas. Na época, elas foram motivadas por necessidades mais urgentes: reforma de banheiros, camarins e adequação da segurança contra incêndio. Mas havia um senão muito importante: aquele teatro possuía uma acústica deficiente e não possui fosso operístico. E Piracicaba mais do que precisava, desejava um teatro com maiores possibilidades. O Teatro Municipal Dr. Losso Netto era ótimo para apresentações de peças de teatro, faladas. Mas quando se tratava de música ao vivo, principalmente de grandes conjuntos: orquestras, bandas, conjuntos camerísticos, coros etc., ficava um tanto a desejar pela sua acústica. E quanto à ópera: impossível de se apresentar, pois não havia fosso.

Foi nessa ocasião que insisti pessoalmente junto aos responsáveis por essa reforma para que a olhassem como uma oportunidade de expandir as possibilidades do teatro. A cidade já possuía uma alternativa muito boa, o Teatro do Engenho, muito embora menor em capacidade de público, sua beleza arquitetônica externa já valia por si só. Porém, estava na hora da Prefeitura olhar o futuro da cultura: Piracicaba não podia ficar atrás de Campinas, Jundiaí, Paulínia, Tatuí, Ribeirão Preto e outras cidades do interior, era preciso que a cidade tivesse um teatro com capacidade para se montar e encenar óperas. E para isso, um fosso era imprescindível.

Mas qual é a utilidade real e prática do fosso de ópera? Bem, é muito grande: sem ele é praticamente impossível montar uma ópera. Já assisti diversas óperas apresentadas sem fosso, porém, o resultado é precário (para não dizer terrível), pois os músicos da orquestra têm que se amontoar no exíguo espaço entre a primeira fileira de público e o degrau do palco, ou no fundo do palco, de modo a prejudicar completamente a encenação da obra e a audibilidade da música. Somente o fosso permite que uma ópera, um ballet ou mesmo um musical, seja adequadamente apresentado. Enquanto o palco é utilizado pelos cantores e para dispor o cenário numa ópera (ou pelos dançarinos, num ballet), a orquestra ocupa, por assim dizer, “o andar de baixo”, de modo que não atrapalhe a plena visibilidade do público e nem a acústica (no fosso, o som é projetado para cima). Sem fosso, não há ópera. Sem ópera, não há verdadeira expressão artística.

A ópera, antes de mais nada, é o supra-sumo da arte. Nada existe de tão belo ou tão grandioso quanto uma ópera. Criada em Florença, no ano de 1597, esse gênero artístico veio com o objetivo de “unir todas as artes”: o canto, a música instrumental, a fala, as artes visuais (que seriam o cenário, todo ele manualmente pintado ou esculpido), as artes cênicas (a interpretação no palco dos cantores). A ópera perpassou quatro séculos apenas modificando o estilo, mas se mantendo exatamente o mesmo espírito desde sua criação.

Só para se ter um exemplo, o compositor americano Philip Glass criou uma ópera (La Belle et la Bête) cujo cenário é o filme do cineasta Jean Cocteau, que é exibido, mudo, ao fundo. Em montagens modernas da ópera Madame Butterfly (de Puccini) feitas no Teatro La Fenice, em Veneza, se utilizou de cenas do cosmos, filmadas pela NASA. Nico Muhly, compositor inglês, escreveu uma ópera (Two Boys) há cerca de 4 anos, narrando a história de um assassinato fomentado pelo anonimato permitido pela internet. A ópera está em contínuo movimento de criação. A cidade de Huston, nos Estados Unidos, construiu um teatro exclusivamente para se fazer lançamento de óperas novas.

Longe de estar decadente ou de ter sua morte anunciada, a ópera tem ganho os palcos dos lugares mais longínquos do planeta. Não são apenas as grandes óperas dos séculos XVIII e XIX tem lugar nos palcos, mas também as novas óperas compostas no fim do século XX e no século XXI, bem como, as recém descobertas óperas do período barroco (de 1600 a 1750), dadas por muito tempo como perdidas ou desinteressantes. O número de teatros de ópera no mundo aumentou exponencialmente, sejam estes novos (recém construídos) ou antigos, mas reformados.

Em 1970, por conta de uma precária apresentação da ópera O Guarani, de Carlos Gomes, o povo campineiro se viu na necessidade (para não dizer na vergonha) de construir ou adequar um teatro que fosse devidamente apropriado para ópera (ou seja, no mínimo, com um fosso para orquestra). E assim começaram as reformas do antigo Cine Casablanca que veio a dar origem ao atual Teatro Castro Mendes. É curioso (para não se dizer vergonhoso) que Campinas, cidade do nascimento do maior compositor brasileiro de óperas, Antônio Carlos Gomes (1836-1896), só viu a necessidade (ou o desejo) de ter um teatro de ópera em 1970!

Em Piracicaba, o Teatro Dr. Losso Netto foi entregue à população em agosto de 1978 e, por incrível que pareça, já tendo um fosso para ópera. Mas onde estava esse fosso? No mesmo lugar de sempre: lá embaixo, no subsolo, logo abaixo das primeiras fileiras de cadeira para o público. Por motivos que jamais saberemos, muito provavelmente ligados às questões orçamentárias restritivas, João Hermann Netto, então prefeito da cidade, resolveu abandonar o fosso. Ele sempre existiu, inclusive seu acesso a ele, porém, jamais fora finalizada sua construção e tampouco instalado o elevador que permitiria que este fizesse parte do palco, subindo e descendo quando necessário.

Só agora, aos 40 anos de existência, o Teatro Dr. Losso Netto pode transformar a maldição do seu fosso fantasma, em uma dádiva, em verdadeiro presente para a Cultura da cidade. Parece absurdo, mas sim, um mero e simples “fosso”, pode lançar a cidade nos mais altos circuitos culturais do país. A ópera, o ballet e o musical, ao gênero da Broadway (que não é mais do que uma opereta moderna), poderão finalmente pensar em Piracicaba como opção de turnê.

E vale um adendo para aqueles que acham que Piracicaba não possui tradição em música ou em ópera. Podemos lembrar quatro antecedentes nessa área: (1) a criação, em 1900, de uma Orquestra Sinfônica em Piracicaba, a mais antiga orquestra hoje em funcionamento; (2) a criação da escola do canto orfeônico, por Fabiano Lozano, nos idos das décadas de 1920 e 1930 (elogiada pelo escritor Mário de Andrade); (3) a fundação da Sociedade de Cultura Artística de Piracicaba, em 1925, por um grupo de piracicabanos (dentre eles, Fortunato Losso Netto); (4) a criação em 1953, da Escola de Música de Piracicaba por dois imigrantes alemães (H. J. Köllreuter e Ernst Mahle) e um grupo de piracicabanos.

Se tudo isso não for suficiente para chancelar a tradição de Piracicaba nesta área cultural, aí vai mais um um bom motivo: o compositor Ernst Mahle, naturalizado piracicabano, aqui escreveu todas as suas 3 óperas. Nem mesmo Carlos Gomes fez isso em Campinas (três de suas óperas foram compostas no Rio de Janeiro e o restante na Itália). Sou grato até hoje pelas palavras inspiradoras do meu professor de Educação Artística, Nelson Norberto Vieira Sobrinho, quando eu tinha treze anos de idade: “a ópera é o maior espetáculo da Terra, não importa se você gosta ou não do gênero, você deve assistir a uma, ao menos uma vez na vida”.

 

(Marcelo Batuíra Losso Pedroso)