Uma Educação que busque a Divindade

Um movimento crescente no mundo todo, as “faculdades de divindade” existentes em importantes universidades, vêm evoluindo de estudos teológicos ligados exclusivamente a uma ou outra religião para pesquisas interdisciplinares em torno da substância do que seja o divino em diversas tradições e culturas através dos tempos.

Com o exercício de diálogos inter-religiosos e filosóficos de espiritualidade laica, refletem uma tendência acadêmica que visa maior integridade do ser humano, ao buscar incidência em políticas públicas para o bem comum. Parece haver um consenso entre mentes brilhantes da atualidade em diferentes áreas do conhecimento, que aproximam Ciência e Religião: sejamos nós macacos evoluídos ou divindades caídas, ambos ou ainda qualquer outra coisa no universo de possibilidades, neste momento da História precisamos convergir valores para a coexistência numa vida harmoniosa com perspectivas de futuro com qualidade para as próximas gerações.

Faz-se necessário começar a ler e a interpretar o mundo sob diversas lentes e perspectivas, e não de forma simplista como vimos fazendo até agora, com atitudes reducionistas e preocupantes, refletidas muitas vezes em escolhas que afetam negativamente a sociedade e o ambiente. Mesmo que não sejam as nossas escolhas pessoais as que prevaleçam, somos afetados pelos arbítrios da maioria ao nosso redor, o que nos demanda uma responsabilidade pelo coletivo.

Angústia e indignação diante dos fatos, mesmo que legítimas, somente irão afetar nossa saúde e drenar nossa energia para agir no bem; o primeiro passo é exercer humildade e aceitação. Ao contrário do que pode-se pensar, aceitação não é conformismo, mas a base da verdadeira transformação. Entender o que não pode ser mudado de imediato, aceitando os fatos que nos são impostos mesmo que sem razão aparente, convida-nos a retomar o início: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver, e sobretudo, aprender a ser.

Estes são princípios da Unesco, órgão da ONU para Educação e Cultura, que necessitamos aplicar na vida, para além das escolas e universidades, onde deveriam vigorar no fazer pedagógico cotidiano. Não desanimemos diante dos retrocessos. Tomemos o exemplo da jovem ativista paquistanesa Malala que foi abusivamente violentada, mas pela sua resiliência, capacidade de perdoar, com sua incrível força de superação e ações proativas ganhou o Prêmio Nobel da Paz, cuja singela frase tudo diz: “A minha vingança será educar a todos”.

Ela diagnosticou que a semente que está por trás dos males da humanidade é a ignorância. É fundamental cultivar as sementes de uma nova consciência e semear em todos os terrenos, pois naqueles que são férteis haverá boas colheitas. Se ainda não estamos no momento de boas colheitas, seguramente nos encontramos em tempos de ampla semeadura, por uma educação pública de qualidade para todas as crianças, adolescentes e adultos, que busquem integridade e cultivem os princípios da Unesco.

E que as “faculdades de divindade” espalhadas pelo mundo formem seres humanos que disseminem sementes divinas como as de Malala, de onde brotem princípios universais que colaborem com a construção de valores compartilhados para uma nova cultura que priorize a vida em todas suas manifestações.