Uma prece de amor

Temos de rezar todos os dias e fazer de cada momento uma oração. Não há outro modo de enfrentar um cotidiano marcado por tanta violência e por acontecimentos que nos assombram cada vez mais. Existe tanta tragédia em toda parte e nos sentimos impotentes diante da dor. A dor do próximo, às vezes, nos parece tão distante, porque a vemos pelas cenas da tevê.

Vidas devastadas para sempre, o medo, o infortúnio, o desamparo. A perda dos bens materiais, da casa, do lugar amado onde se viveu a vida toda. De repente, a pessoa está só, sem os seus entes queridos, apenas com a roupa do corpo. Como dar apoio a esta dor? Faço deste humilde texto uma prece diária para contrapor-se às amarguras destes tempos fatais. Juntar as mãos humildemente, em silêncio, e pedir paz para o mundo, transformando cada momento numa oração interior. Saber que as coisas mais belas da vida estão dentro do nosso próprio coração.

A sensação de morte superada pelo frêmito da vida, o anúncio secreto de uma alegria nascitura, de paz benfazeja que dá alívio a todas as dores. A oração também revigora e traz um novo ânimo ao espírito. Se a alma pede trégua, então é preciso orar com fé. Nestas horas, há algumas coisas de que ninguém deveria abrir mão: a bondade, a ternura, o gesto amoroso, a gentileza, o sorriso, o abraço. Receber e dar. Dizer ao outro as palavras de ouro, que contêm perfume do céu e ouvi-las também, vindas de quem as aprendeu na luta e na escola da vida. Dizer olhando nos olhos do outro: “Eu gosto de você!”. Há algumas coisas simples e essenciais que iluminam nossa existência pequenina: uma gaveta bem arrumada, a cama feita, o chão limpo, a água na torneira, o café coado, o pão fresco, uma fruta, um alimento que se come pensando n´Aquele que o criou. Uma roupa que se veste com alegria, uma brisa que passa deixando saudades, um banho perfumado – eis algumas maravilhas às quais nem sempre damos o devido valor. No momento da prece, um raio de luz penetra nossa alma, sobretudo se sabemos rezar pelos outros. Um pensamento para quem chega, na esperança de que o novo ser encontre um mundo mais justo e mais humano; réquiem para quem parte, desejando o descanso eterno. E aqui rendo uma homenagem aos que partiram recentemente para a Casa do Pai.

A eles, o meu adeus emocionado. Amada Dra. Rita, nossa dermatologista maravilhosa! Regina Perina, é para você também minha oração. Preces, lembranças, momentos tão vívidos do que passou, deixando um aperto no peito. Saudade da infância e do amor dos nossos pais. Saudade dos nossos professores e mestres, de quando a escola ainda era um lugar seguro e ninguém morria de bala perdida. Quando havia um sentido para as coisas. Busco este sentido todos os dias e acabo vislumbrando algo muito maior, no momento em que tudo se desvendará, na revelação mais bela. Mas existe um mistério pairando no ar, além dos sonhos: espadas de fogo, murmúrios de anjos, sinfonias inacabadas e uma sentença profética, prestes a se cumprir. Uma prece de amor. E o que mais o coração permitir. Ou suportar.