Uma vida entre ilustrações e quadrinhos

Prestes a completar 30 anos de carreira, Érico San Juan fala sobre sua carreira e criações. (foto: Amanda Vieira/ JP)

Érico San Juan é caricaturista e ilustrador. Nascido em 1976, em Piracicaba, o profissional é graduado em design gráfico, além de radialista locutor. Iniciou sua carreira nas artes em 1991, no Jornal de Piracicaba. Aqui, atuou como ilustrador do ‘Jornalzinho’, direcionado ao público infantil, além de ser criador da tira diária ‘Dito, o Bendito’.

Reconhecido em todo o país, San Juan publicou caricaturas, textos de humor e quadrinhos em diversas revistas e livros brasileiros, além de integrou 60 exposições dentro e fora de nossas fronteiras.

Érico San Juan é o Persona desta edição, na qual fala sobre o trabalho artístico no país, sua carreira e valores.

Érico, conte um pouco sobre seu início de carreira. Foi difícil se estabelecer com um trabalho gráfico no Brasil, onde não há grandes incentivos para a arte?

Importante falar do caminho que levou ao início no humor gráfico. Dos seis aos treze anos, de 1982 a 1989, criei uma infinidade de revistas em quadrinhos, ‘consumidas’ por colegas e professores na escola Honorato Faustino, onde fiz o ensino fundamental. Nessa época, acompanhava as charges do personagem Nhô Quim, de Edson Rontani, e os quadrinhos de Carla Vogelsanger no ‘Jornalzinho’, suplemento infantil do JP. Visitei o Salão Internacional de Humor pela primeira vez em 1985, com nove anos, ainda no Teatro Municipal “Dr. Losso Netto”. Com dez anos, em 1986, ganhei um prêmio num concurso de desenho da Secretaria de Educação, com um gibi sobre a história do nosso XV de Piracicaba. As informações foram pesquisadas numa meia página semanal do historiador Rocha Netto sobre o time, que saiu no Jornal de Piracicaba por alguns anos. Em 1987 e 1990, o JP publicou meus quadrinhos no Jornalzinho, do qual fui leitor desde seu nascimento, em 1982. Em 1991, fui contratado para ser seu ilustrador. Como visto, sempre desenhei e sempre busquei divulgar meus desenhos nos veículos existentes, mesmo na fase amadora, com os recursos que dispunha. Nunca parei pra pensar nos obstáculos, que realmente existem, mas que jamais me paralisaram.

Seu trabalho alcançou diversas exposições, inclusive fora do país. Ao que você atribui a possibilidade de nacionalizar suas criações?

Quando a internet se popularizou, nos anos 2000, pude exportar meus trabalhos para grandes centros e até para o exterior. No começo do ano, fiz um balanço da minha produção de humor gráfico, para uma palestra que tem circulado por faculdades da região. Como artista selecionado, premiado ou convidado, participei de mais de 50 exposições. Individualmente, realizei mais de uma dezena delas. E meus quadrinhos, caricaturas e ilustrações fizeram parte de 25 livros. Esses números não seriam possíveis sem a enorme ajuda da internet, que realmente aboliu todas as fronteiras.

Fale sobre o ‘Dito, o Bendito’, seu personagem que conquistou os piracicabanos nas páginas do Jornal de Piracicaba. Como surgiu a ideia de criá-lo?

Em fins de 1993, trabalhava como ilustrador do ‘Jornalzinho’, surgiu a possibilidade de criar um personagem “adulto” para o Jornal de Domingo. A partir de um desenho meu com a figura clássica do malandro carioca, surgiu o personagem Dito, publicado por 12 anos no Jornal, até 2005, em fases semanais e diárias. Na minha versão do malandro, dei ao Dito um melhor amigo, um filho, uma consciência sobre seu país e um envelhecimento do protagonista, fato relativamente raro nos quadrinhos. Dito permanece vivo em seu livro homônimo, da editora Marca de Fantasia, e no documentário “Dito, 25 Anos de Tiras Benditas”, disponível no YouTube.

Após sua saída do JP, as caricaturas se tornaram as protagonistas de sua produção. Como é o processo para criar uma caricatura de alguém?

Trabalhei no JP de 1991 a 1997, mas me mantive como colaborador free-lancer até 2010, fazendo quadrinhos e ilustrando o Jornal nas férias do chargista Erasmo Spadotto, atual diretor do Salão Internacional de Humor de Piracicaba. A passagem dos quadrinhos para a caricatura foi natural. Nos meus quadrinhos, sempre fui o criador dos personagens. Na caricatura, passei a dar forma cômica a personagens já existentes, sejam eles celebridades ou anônimos, em eventos onde faço caricaturas ao vivo, nas exposições, em livros e em CDs. A caricatura é o retrato bem-humorado de qualquer pessoa, ressaltando o que há de marcante na essência de cada um. É uma grande brincadeira com quem as pessoas mais gostam neste mundo: delas mesmas.

O que você pode definir como os principais valores que você carrega, o seu código de ética, principalmente para criar seus trabalhos?

Meus trabalhos principais, em 28 anos de carreira, são os quadrinhos e as caricaturas. Atendo a demandas existentes, vez por outra crio as minhas, para plateias ora diversificadas, ora direcionadas. Criar fazendo o melhor humor possível, numa interação de qualidade com o público, são meus objetivos.

Hoje, onde estão suas maiores inspirações para criar? Por quê elas são importantes para um artista?

Nunca fui tocado por essa suposta inspiração. Desde o começo, quando fazia minhas revistas em quadrinhos para o pessoal da escola, desenhava para mostrar para alguém. E sempre inseri meus trabalhos em projetos, em mídias físicas, depois digitais. O trabalho do caricaturista, do ilustrador, do artista gráfico em geral, acontece por empreitada, a pedido de alguém: de um cliente, do respeitável público, enfim.

Para você, qual é o papel da arte, principalmente as charges e as caricaturas, em momentos de crise política como o que o país vive hoje?

O papel da arte é o que cada artista pretende com sua arte, individualmente. Uns querem denunciar as mazelas da sociedade, alguns desejam aprimorar sua técnica, outros almejam a fama em trabalhos de alcance mais popular. Não existe um padrão de conduta para o artista, apenas a integridade que transparece principalmente no que ele tem de melhor a oferecer: sua arte.

Como você avalia o acesso à arte no Brasil? Ele é amplo e valorizado por quem o possui?

No meu caso, quando não havia os veículos ou espaços para meu trabalho, eu os inventei. O artista é um trabalhador como qualquer outro, sem uma boa dose de espírito empreendedor, não consegue permanecer no mercado. Mas reconheço que num país onde a educação tem suas deficiências, é um desafio sobreviver como artista. Mas cabe aos próprios artistas educar seu público, mostrar o valor de sua produção, com projetos consistentes, que também tenham significado a quem ele os dirige, e não apenas a ele próprio.

Falando de vida pessoal, quais são seus hobbies preferidos quando não está trabalhando?

Sou ouvinte dedicado da música popular brasileira do século passado, pesquisador informal desse cancioneiro que passa por Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth, os cantores da Era do Rádio, a Bossa Nova e o pop rock dos anos 80. Essa predileção tem reflexos nas minhas caricaturas. Já fiz trabalhos do gênero para CDs de Sá, Rodrix e Guarabyra, livros sobre Noel Rosa e Johnny Alf, além de ter minhas caricaturas reconhecidas por nomes como Ivan Lins e Zeca Baleiro.

Nas exposições das quais participou, existiu alguma que lhe marcou por conta de algum fato ou conquista específica?

A minha caricatura selecionada para um livro dedicado ao centenário de Noel Rosa foi uma espécie de passaporte para a participação na ‘Bienal Internacional da Caricatura’, no Rio de Janeiro. Fui convidado para as três edições do evento, para exposições temáticas ao lado de amigos queridos como Eduardo Baptistão, premiado diversas vezes no Salão Internacional de Humor de Piracicaba.

Você já expôs suas produções também no Salão Internacional de Humor de Piracicaba, reconhecido como um dos mais relevantes do mundo neste segmento. Como você avalia a importância do Salão para a cidade e para os artistas gráficos em geral?

Tenho uma relação de longa data com o Salão, sendo artista selecionado em 2004, 2005, 2006, 2009 e 2010, jurado de seleção em 2008 e 2016, curador de mostras paralelas em 2002 e 2008. Em 2011, o Salão me deu a honra de realizar uma mostra individual em celebração aos meus 20 anos de carreira. O evento continua fundamental para estimular o surgimento e a permanência de artistas gráficos do mundo todo. O trabalho desenvolvido no Salãozinho de Humor, com a participação de crianças e adolescentes expondo seus trabalhos, me traz imensa felicidade e muita saudades dos meus primeiros anos de desenho.

Qual é o seu maior sonho para o futuro de sua produção e para arte brasileira em geral?

Em 2021, completarei três décadas de atividades no humor gráfico, na ilustração, nas caricaturas e quadrinhos. O sonho já é uma realidade alimentada no meu dia a dia: continuar oferecendo ao respeitável público o melhor em arte e humor.

 

Mariana Requena
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