Uma vida pela Engenharia

persona Graduado pela EEP, o entrevistado desta semana fala sobre seu amor e da importância da profissão. (Foto: Claudinho Coradin)

O piracicabano Milton Rontani Júnior, 61, é engenheiro Civil, graduado pela EEP (Escola de Engenharia de Piracicaba), em 1979. Especialista em estruturas pela Escola de Engenharia de São Carlos (EESC- USP) e mestre em Habitação: Planejamento e Tecnologia pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT-SP), Rontani Júnior é também professor da EEP nas disciplinas Construção Civil, Gerenciamento e Qualidade e Teoria das Estruturas. Filho de Milton Rontani, professor de história e geografia e Elza Conceição Mariano Rontani, costureira de “mão cheia” e irmão de Marcos Rontani, violista da Sinfônica de Campinas e Mauro Rontani, advogado e ex-procurador geral de Piracicaba. Milton é casado há 35 anos com Regina Maria Puppin Rontani, professora titular da área de odontopediatria da FOP (Faculdade de Ondotologia de Piracicaba) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), a quem nutre profunda admiração e respeito, tendo-a como fonte de inspiração para a vida, com quem teve duas filhas: a arquiteta Sofia e a dentista Júlia. No último dia 11 deste mês, Rontani tornou-se avó de Martin, seu primeiro neto, filho de Sofia e Gustavo. O engenheiro não hesita ao afirmar que a família, sem sombra de dúvidas, sempre foi o seu amparo e a razão pela qual acredita que viver sempre vale a pena.

Como é a sua família?
Minha família é a típica família italiana, conhecida por estar sempre “brigando” na mesma proporção com que nos amamos, sempre querendo o bem um do outro. Minha esposa Regina e eu, sempre trabalhamos muito, incansavelmente, com o objetivo de produzir o melhor nas nossas áreas. Passamos pela vida tentando deixar algo importante na vida das pessoas a quem atendemos. Regina é uma mulher inteligente, forte, decidida e pragmática, além de ser meu suporte em todos os momentos, minha inspiração e modelo. Acredito que conseguimos transmitir o mesmo para nossas filhas. Sofia é mestre em Arquitetura pela Unicamp, professora universitária, membro do Codepac (Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Piracicaba), conselheira do CAU (Conselho de Arquitetura e Urbanismo) de São Paulo, além de trabalhar elaborando projetos de arquitetura, onde também desenvolve a área de restauro. Atualmente a Júlia é bolsista da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e está desenvolvendo parte de sua pesquisa de doutorado em materiais dentários pela FOP/Unicamp em Portland – Oregon Health and Science University (USA). Ela também pretende seguir carreira docente.

Quando começou a trabalhar?
Comecei a trabalhar aos 17 anos, quando entrei na faculdade de engenharia, como professor de flauta transversal na Escola de Música Ernst Mahle, maestro com quem tive a honra de estudar e por ele ser regido na Orquestra Sinfônica de Piracicaba, assim como meus pais e minha sogra, pessoa de coração do tamanho do mundo.

Em quais áreas você já atuou e qual delas você mais se identifica?
Após a conclusão da graduação em engenharia, enquanto fazia pós graduação em estruturas na USP (Universidade de São Paulo), em São Carlos, fui sócio do engenheiro Rudinei Bassete em um escritório de projetos com ênfase em cálculo estrutural por mais de 5 anos. Com as voltas que a vida dá, acabei aos poucos começando a tomar gosto pela execução de obras, a ponto de participar como sócio de uma empresa de construção por 25 anos, onde tive a oportunidade de realizar diversos edifícios residenciais, obras industriais, comerciais e institucionais. A partir de 2009, comecei carreira solo nessa mesma área através de um escritório de engenharia, gerenciando obras, onde continuo até hoje e, de 2015 para cá, com o reforço da arquiteta Sofia Rontani ao meu lado. Sem dúvida nenhuma, essa última fase da minha vida é a que mais me identifico e me realizo, pois além de trabalhar ao lado da filha, percebemos, com a experiência e o conhecimento acumulados, a importância do nosso trabalho, que é tornar realidade o sonho das pessoas.

Desde quando leciona na EEP? Como é ser um professor universitário?
Comecei a lecionar Teoria das Estruturas na Escola de Engenharia de Piracicaba em 1988, a convite do professor, e hoje meu amigo, Gerson Ribeiro de Mello. Com o passar dos anos e minha mudança para a área de construção, acabei sendo convidado a lecionar, também, as disciplinas Construção Civil e Gerenciamento e Qualidade, áreas em que acabei concluindo meu mestrado no IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas). Ser professor é poder transmitir o que sabe e sempre aprender o que ensina. É a emoção ímpar de estar cumprindo o seu dever.

Na atualidade, quais são os maiores desafios em lecionar? O que o incentiva na sua profissão?
Acredito que atualmente um dos maiores desafios da docência está em conseguir preparar as pessoas para além do imprescindível conhecimento técnico. Prepará-las para enfrentar o mercado cada vez mais competitivo onde liderança e relacionamento com as pessoas é fundamental, uma vez que deverá garantir a viabilidade dos projetos e obras, além de administrar os conflitos que surgirão para sua realização. Por essa razão, o fato de, trabalhar como professor e também exercer a profissão, enfrentando o mercado atual, é de suma importância. O incentivo para continuar a lecionar é poder transferir os conhecimentos adquiridos ao longo da vida profissional, buscando formar engenheiros éticos que saibam a responsabilidade e a importância que seu trabalho tem na vida das pessoas.

Como você avalia a evolução tecnológica ao longo do tempo? Como isso impactou a sua profissão? Ela tornou-se mais fácil ou mais difícil?
O setor da construção civil sempre foi muito conservador, com processos construtivos ainda muito artesanais, onde as mudanças costumam ser lentas. Porém, com o mercado concorrido e o pequeno poder de compra que a maioria da população brasileira tem, os profissionais estão sendo forçados a buscarem alternativas que reduzam os custos e, principalmente os desperdícios, que costumam ser grandes nesse setor. Aí entra a informática que através dos softwares, melhorou muito a qualidade e a antecipação visual dos projetos. Os softwares refinaram os cálculos estruturais e o planejamento da execução das obras, isso sem contar com os novos equipamentos que, como nas indústrias tradicionais, começa a reduzir a necessidade de funcionários para serviços pesados e que costumam ter pouca precisão. Isso obrigará, cada vez mais, os profissionais a serem polivalentes e manterem-se sempre atualizados. Facilita muito pela rapidez dos resultados, porém obriga os profissionais a trabalharem mais, como exemplo, antigamente um orçamento de uma obra de porte levava mais de 20 dias para ser concluído. Hoje, com toda informação online disponível e a rapidez no processamento dessas informações, a conclusão deverá ocorrer em um terço desse prazo com uma quantidade bem menor de profissionais envolvidos.

Quanto ao perfil dos jovens estudantes: o que mudou no decorrer do tempo?
Atualmente os estudantes são muito ágeis no uso das tecnologias e acreditam que isso irá sempre resolver os problemas. O fato é que, para poder utilizá-las, alguém tem que desenvolver essas tecnologias, e esse é o papel fundamental do engenheiro. Para isso, precisam entender que há necessidade constante de muita leitura, tanto da parte técnica quanto de conhecimentos gerais, e, isso envolve economia, política e artes também. Os profissionais hoje são valorizados pelo poder de decisão, e para isso é preciso que o nosso HD (cérebro) esteja cheio para formatar as soluções.

Como você avalia a educação no Brasil?
Infelizmente a educação só tem melhorado na quantidade e não na qualidade. Esses números melhoraram o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do país mas, não estão trazendo os resultados que a nação precisa, bastando verificar o número de patentes que o Brasil produz. Uma escola que não enfatiza a importância da matemática na vida de qualquer pessoa, está fadada ao fracasso. Também tem-se discutido bastante nas universidades a forma de preparo dos estudantes para a vida. A maioria delas prepara seus alunos para buscarem emprego no mercado de trabalho, quando a tendência mundial é a prestação de serviços, ou seja, o profissional terá que saber “se vender” o tempo todo. O sistema tradicional de emprego rotineiro, onde acaba ocorrendo uma certa acomodação está em extinção.

Desenvolve algum projeto dentro da escola de engenharia?
Atualmente, participo como membro da comissão de preparação das Semanas da Engenharia, que são anuais. Esse projeto visa trazer aos estudantes, durante uma semana, o contato com profissionais de destaque em suas áreas dentro da engenharia, através de palestras, seminários e visitas técnicas. A ideia é abrir o campo de visão dos alunos das inúmeras possibilidades futuras de trabalho.

Como você ministra as aulas dentro da faculdade? Qual é a sua metodologia?
Procuro ministrar minhas aulas instigando a participação dos alunos, desde o desenvolvimento teórico até na aplicação prática com exercícios. Acredito muito no desenvolvimento de seminários, onde os estudantes apresentam, aos demais, os resultados das suas pesquisas, além de, evidentemente, realizar provas para avaliar o aprendizado do conteúdo aplicado.

Como você observa a dedicação dos alunos aos estudos? O que os motiva? Na sua opinião, qual é a maior qualidade dos jovens dessa geração? E o pior defeito?
Na EEP, a maioria dos alunos é constituída por pessoas que enfrentam jornada diária de trabalho para custear seus estudos, portanto, posso considerá-los muito dedicados. Acredito que a maior motivação deva ser o crescimento profissional e, esforço-me para que entendam também a necessidade de serem úteis aos outros como profissionais. As pessoas quando procuram o engenheiro para construir suas casas, estão, na maioria das vezes, colocando tudo o que conseguiram para realizar esse sonho e temos a obrigação de realizá-lo com o melhor que podemos. Acredito que a maior qualidade dessa geração é saber onde quer chegar e o pior defeito seja reclamar quando as fases que enfrentam exigem bastante sacrifícios.

Quais são seus planos na carreira?
Meus planos são continuar melhorando como professor e como profissional da área de construção, sem acomodação. Atender todos com o melhor que posso oferecer. As incertezas e dúvidas dos desafios que enfrentamos na vida profissional nos ajudam a entender que temos sempre o que aprender e nos preparam para encarar a vida de uma maneira mais tranquila. Trabalhando com empenho e correção, o resultado virá no tempo certo e sempre positivo.

Quais são suas atividades fora do trabalho?
As atividades “extras” que aprecio, tão necessárias para manter o espírito jovem, estão ligadas às artes e esporte. Pratico tênis com um grupo de amigos, que prezo muito, aos finais de semana e sempre que possível, gosto de ir ao cinema, teatro, exposições e as apresentações desse patrimônio que é nossa Orquestra Sinfônica de Piracicaba, cada vez melhor sob o comando do maestro Jamil Maluf. Como leitor, além dos artigos técnicos da minha área, tenho bastante apreço por publicações das áreas de economia, política e artes.

Quem são suas principais referências pessoais?
Posso citar meus pais pelos exemplos de retidão e fibra para enfrentar a vida e Regina, minha mulher, pelo exemplo de coragem e dedicação à família. Dentro da família, da área profissional e amigos, tenho muitos em quem espelhar e seria injusto se citasse somente alguns. A referência como profissional renomado é Frank Lloyd Wright, arquiteto americano que também estudou engenharia. Sabendo o que queria, penhorou livros aos 20 anos para poder estudar e revolucionou a arquitetura. Seu efetivo reconhecimento em vida ocorreu após os sessenta anos e nem por isso ele deixou de acreditar em suas ideias. Trabalhou até sua morte aos 92 anos.

O que é o projeto Declaração da Cidade?
A Declaração de Piracicaba foi um documento lançado por iniciativa do professor Francisco Carlos Lahóz durante a abertura da Semana das Engenharias Civil e Ambiental no dia 08 de outubro, no auditório da Fumep (Fundação Municipal de Ensino de Piracicaba). Aproveitando o tema e os palestrantes dos diversos segmentos envolvidos na área de recursos hídricos, realizou-se também um debate entre os presentes, além de contribuições que puderam ser enviadas via internet, resultando nesse documento que engloba aspectos tanto nacionais quanto de toda a América Latina.

Qual é a importância do projeto?
O objetivo é manifestar-se através desse documento a importância de realizar-se o correto planejamento e fomento de ações sustentáveis de infra-estrutura verde na Gestão de Bacias Hidrográficas e regiões metropolitanas. Esse documento é de suma importância em função dos eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes e o crescimento desordenado das cidades que podem resultar na tão famigerada escassez de água.

(Raquel Soares)