Vaidade

O que nos torna a vaidade dos outros, insuportável, é que ela fere a nossa” (La Rochefoucauld)

Saadi, em “Jardim de Rosas” conta que um rato esfaimado girava em torno de uma noz cobiçando-a. Do interior da noz um verme disse:

Não me leve! Eu comi toda a polpa deste fruto, e tu te arrependerias de tocar nele”.

O rato interrogou:

És gordo ou magro?”

E o verme, vaidoso:

Sou gordo, e nada mais quero da vida”.

Muito bem”, disse o rato. “Espero que tua gordura tenha sabor de noz”.

Roeu a casca, tirou o verme e o devorou.

Imita o sábio, que mesmo na opulência, permanece modesto, aconselha Saadi.

A vaidade é uma exacerbação de nosso amor-próprio. E o homem, vivendo em sociedade, está em constante disputa. Como há poucos e verdadeiros sábios, a modéstia não prevalece no meio social. Como a mediocridade valoriza aquilo que não possui real valor, aquilo que o vaidoso estima e engrandece, geralmente é fútil e vão. Os efeitos da vaidade são múltiplos; a vaidade de adquirir preparo físico infunde, em muitos, uma energia incansável, fazendo-os não olharem para os custos nem para o esforço a ser exigido. A vaidade de serem amados torna-os galantes e pacientes, a vaidade de reputação, consegue fazer, de muitos, virtuosos. Os vaidosos mais invejados são aqueles que, de fato, possuem motivos para sua vaidade.

Se não tivéssemos vaidade e não desejássemos aparecer mais do que os outros, não nos importaríamos com a ostentação alheia.

Há aqueles que usam de pessoas ou objetos para se engrandecer. Cornélia ficou na história romana como uma admirável matrona. Em uma época, em que a elite de Roma primava pelos desregramentos e as mulheres contavam não os anos de vida, mas os maridos e amantes que colecionavam, ela destacava-se pela retidão de caráter e pela dignidade. Filha de Cipião, o Africano, vencedor de Anibal, foi casada com Tibério Semprônio Graco, pretor na Espanha, censor e por fim, cônsul. Morrendo o marido aos 41 anos de idade, ficou com dois filhos pequenos. Renunciou, então, a todas as vaidades e conforto pessoal, para educá-los para a vida pública.

Cornélia não foi imune à vaidade. As outras romanas amantes da ostentação andavam cobertas de joias; ao perguntar-lhe, onde estão suas joias? Chamou os dois filhos (Tibério e Caio Graco) abraçando-os, vaidosamente afirmou: “Aqui estão elas”. Seus dois filhos foram tribunos que abraçaram defenderem os plebeus (pobres). Foram mortos.

De lá para cá, a ostentação exibida por aqueles que valorizam as coisas materiais continuou, ou melhor, teve oportunidade de manifestar-se de maneira mais visível e abrangente. Magníficos carros, colunas sociais, aparecimento constante na mídia eletrônica massageiam o ego dos vaidosos. Eles, no entanto, não se acanham de suas vaidades e costumam justificá-las dizendo: “O que me faz vaidoso, não faz vaidoso qualquer um” …

O grande problema do vaidoso é que a sociedade costuma ser impiedosa com as pessoas – se fracassam recebem o menosprezo; se vencem inveja e ódio.

Aqueles que sentem volúpia pela evidência, não admitem que um homem cheio de si seja sempre vazio.

Um exemplo de vaidade São os julgamentos televisionados, com sua demora e repetição do que já foi falado. Se o anterior argumentou como ele vai endossar, basta dizer estou de acordo, não ficarem horas na tela.