Vamos celebrar os mortos; os vivos que morram

Alessandra Morgado

 

 Afinal, o vivo ainda faz, surpreende positiva ou negativamente, erra, se desculpa ou não e erra de novo

Os mortos não falam, não reclamam, não estão, foram e, com isso, ganham uma grande vantagem sobre os vivos. São lembrados como se fossem as melhores pessoas do mundo, sem defeitos, maus hábitos, inconveniências que um vivo pode causar. Afinal, o vivo ainda faz, surpreende positiva ou negativamente, erra, se desculpa ou não e erra de novo. O vivo nos agride com sua existência inconveniente e teimosa, porque nem sempre faz o que achamos que deve fazer, pensa como achamos que deve pensar e, pior, confronta nas nossas verdades. O vivo dá trabalho para gente!

Nesta sexta-feira, Dia de Finados, aproximadamente 40 mil visitantes devem encher nossos três cemitérios municipais, além da unidade privada que também existe na cidade. Serão flores, lamentos, vasos velhos trocados por novos e aquela sensação de dever cumprido com os mortos, com nossa ascendência, nossas raízes e história. Cultuar os mortos é uma forma de dizer que foram importantes, alguns mais importantes mortos que vivos.

Para os católicos, o Dia de Finados é momento de celebração da vida eterna, de considerar que a vida cristã é estar em comunhão com Deus. Mas, várias denominações religiosas aproveitam a data para ir aos cemitérios orar pelos seus. Acho até que tem gente que recebeu mais visita depois que morreu do que antes disso, porque outrora tinha novamente o inconveniente de ter que conviver com a pessoa. E, já no cemitério, é só visita rápida mesmo, nem um cafezinho.

Minha avó Aurora adorava ir ao cemitério, já começa a excursão uma semana antes do Dia de Finados: comprava velas, lavava ou mandava lavar o túmulo do meu avô, João, e dizia os vasos de flores que eu tinha que achar. Fui junto muitas e muitas vezes. Meu avô sempre lá estático numa foto amarelada e bem ruim, quietinho e bom.

Ah, já deve ter gente irritada dizendo que não tenho respeito, mas tenho, tenho muito mesmo. E digo com todo meu respeito: devemos saldar os vivos, fazer festa, carinho, amizade, acolhimento e tudo o que for possível. Depois que o jogo acabou, sinto muito…

Levar flores (desde que não sejam criadouros de mosquito da dengue) e fazer um lindo túmulo são formas bonitas de reverenciarmos nossos entes. Porém, o amor, amor de verdade tem que ser dado antes disso, quando a pessoa ainda tem defeitos, manias, doenças, verdade absolutamente idiotas ou não, surtos, problemas, enfim todas as características que tornam o ser humano um animal unicamente chato. E, digo mais, quanto mais chato, mais inesquecível.

“Acho até que tem gente que recebeu mais visita depois que morreu do que antes disso.”