Velho, pobre e doente, a desgraça contemporânea

Alessandra Morgado

Pasmem, cuidar da saúde é fundamental para ter uma terceira idade digna, agradável e desfrutável

Ninguém quer envelhecer, ficar doente e precisar de remédios e apoio familiar ou pago, como clínicas e/ou casas de repouso, entre outros serviços. Não quer, mas vai, porque essa é nossa única verdade incontestável. O Brasil todo está em franco processo de envelhecimento, com grande chance de chegar em 2050 com o mesmo problema já enfrentado pela Europa, ou seja, mais gente velha do que em idade economicamente ativa.

Só esse panorama seria preocupante, mas uma pesquisa da pós-graduação produzida na Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) acrescentou outros itens nada promissores à questão. O trabalho analisou o fenômeno do envelhecimento populacional cruzando-o com os gastos com a saúde e, infelizmente, constatou o óbvio: quem é mais pobre gasta menos com saúde, o que significa que também cuida menos da saúde. E, pasmem, cuidar da saúde é fundamental para ter uma terceira idade digna, agradável e desfrutável.

Além disso, a mesma pesquisa demonstra que o aumento da renda familiar reflete em maior gasto/investimento em saúde, seja com planos, tratamentos dentários, remédios, consultas e exames, entre outros. No entando, para nós, brasileiros, a saúde é item de luxo, o que tem obviamente algumas outras variáveis, como a falta de educação para a saúde, o que basicamente pode ser traduzido em inserir atividades físicas na rotina, acompanhamento preventivo para doenças crônicas e alimentação adequada na vida do brasileiro. Além disso, ter políticas públicas que garantam o atendimento para essa população no futuro, especialmente, para os que não têm condições de arcar com os custos de tratamentos e remédios.

Fora isso, ainda temos que vencer os preconceitos impostos a essa população, que nem sempre encontra apoio na família e sociedade. Alguns são explorados e mal-tratados dentro de casa, além de ter suas mínguas pensões e/ou aposentadorias utilizadas para manter famílias inteiras. É fato que envelhecer já é difícil numa sociedade de idolatra a beleza, a juventude e a novidade, na qual as pessoas mais velhas são tratadas como produto vencido, usado e descartável. Aplicamos às pessoas as mesmas métricas que usamos com os objetos, como roupas, sapatos, móveis e utensílios, quando precisam de conserto ou falham são descartados sem dó.

A pesquisa só confirma nossa desgraça contemporânea, que a saúde não entra nos itens básicos do orçamento familiar, seja por falta de recursos ou de cultura mesmo, já que celulares, veículos e outros bens de consumo podem ser encontrados nas diversas faixas sociais. Isso parece uma espécie de buraco sem fundo, que apenas ações governamentais podem efetivamente reverter ao longo de décadas. Talvez, no futuro, os remédios e a saúde tenham um peso diferente no orçamento doméstico, mas é fato que isso é coisa para se almejar para o futuro, porque agora o que temos é prognóstico que esclarece, mas não resolve a questão.