Viajar, verbo intransitivo

Viajar não é nada mais que viajar. Mesmo em seus sentidos metafóricos, o verbo tem um significado de “não estar no lugar original; estar em trânsito”, ou “em transe”. O mundo está de portas abertas para quem quer conjugar este verbo intransitivo. Sonho de uns, realidade para outros, viajar é sempre um patamar a ser alcançado. Todo mundo deve gostar de estar em um lugar onde nunca esteve antes. Mas por que você viaja?

No mundo das instantaneidades, o viajar parece ter se tornado apenas mais um “check” na lista do que fazer na vida. Parece que basta estar lá que já é suficiente. É só pular do avião e você está dentro do rol das pessoas que conheceram aquele país, cidade, monumento, ponto turístico. Vai a Paris? Capricha na foto em frente a Torre Eiffel ou “segurando” a pontinha da pirâmide do Louvre. Foi à Roma e encontrou um Caravaggio? Selfie nele.

Mas quando a Torre Eiffel foi construída? Quantos metros ela tem? E o Louvre? Quais as artes mais importantes que ele resguarda? Quanto tempo você ficou admirando o quadro de Caravaggio? Observou as pinceladas, percebeu elas ainda nítidas, como se o artista as tivesse feito ontem?

Não estou aqui desmerecendo as redes sociais, seria hipócrita dizendo isso, mas que importância damos à nossa viagem? O que conhecemos ou absorvemos de verdade daquele lugar?

Em minha estadia recente em Coimbra, Portugal, deparei-me com uma propaganda de uma agência de viagens que mostrava uma foto de uma moça em uma linda praia. O corpo dela era “enquadrado”, como se estivesse em uma tela de celular. Só aparecia ela com seu background deslumbrante do mar azulzinho. Uma típica foto no Instagram. No slogan: “Fazer inveja nunca foi tão fácil”. Mas ora, pois, seria este então o significado de viajar? Fazer inveja?

Despertar o tal pecado capital é muitas vezes o objetivo de certos viajantes. Em minhas próprias viagens, quantas vezes já pensei em divulgar o mais rápido possível o que está acontecendo para que mais e mais pessoas me vissem em determinado local quase que “ao vivo”. A ânsia de estar na internet mesmo quando eu ainda nem tinha admirado direito o espaço, respirado seu ar, sentido seu cheiro e entendido o significado de estar ali.

Não que seja algo explícito nas pessoas, mas talvez subliminar. Dos colegas, tenho visto que observar é menos importante que encontrar o ponto perfeito para uma foto deslumbrante. O que é ótimo. Mas muitas vezes o foco é tanto na própria imagem que a gente só sabe que a foto foi feita em Lisboa e não em Águas de São Pedro por causa da legenda. São 90% perfil, 10% cenário.

E lá se vão cinco, dez, quinze, quarenta países conhecidos, todos representados no perfil do Instagram com uma bandeirinha como quem diz: “sou o viajante das galáxias”. Mas e aí? Além das fotos, qual é o registro dessa viagem na sua alma?

Eu tenho me perguntado cada vez mais: será que estou aproveitando a viagem? Será que experimentei a comida local? Será que entendi o que aquele lugar significa? E o que ele marcou em mim? Será que viajei de verdade, como quem muda a si depois de uma grande viagem, ou repeti a programação exaustiva de um turista faminto?

Há um ano, caminhando sob um pôr-do-sol de uma praia qualquer da Espanha, a areia por entre os dedos, sozinho, com os cabelos balançando pela brisa da maré que estourava em ondas ao meu lado, lembro de ter ouvido do meu pensamento: “como é bom estar aqui e sentir isso, tão longe de casa” quando caiu uma lágrima de agradecimento por estar vivo (talvez viajar seja isso, provar a si mesmo que se está vivo). Não fotografei, não filmei, não postei. É uma imagem que estará comigo para sempre, só comigo. Vai, agora pode sentir inveja!