Vieira, a PF e o sermão aos peixes

David Chagas

Tenho pela Polícia Federal especial apreço. Há erros, estou certo. Onde está o homem, o erro, a injustiça e a maldade frequentam, por conta dos vícios de muitos e dos nascidos já predestinados ao mal. Desde a meninice, sei disso. Naqueles sítios, uma senhora espantava demônios de quem o trazia incorporado. Um gole d’água benta no carvão, bendição com arruda e alecrim, reza demorada e pronto! Interessante saber que sua filha jamais conseguira exorcizar. Espírito infernal, aquele! Não havia persignação que botasse fora o bicho! Sei lá como seria com os outros. O fato é que, em seu portão, havia fila, tanta gente com o diabo no corpo.

Mas há bem entre humanos. E como! O miosótis brota entre erva daninha. Além disso, há o sal, o óleo, a água. Um dos embaixadores com quem trabalhei dizia não ser cargo, função, estudos que fazem o homem. Tudo isso é de somenos importância. Importante, o berço, o acalanto nas noites insones e febris, a primeira infância, a descoberta do mundo no instante em que explode a boa semente, o feitio moral bem traçado.

Volto a Polícia Federal e a bendição do bem no seu esquadrão. Trabalham e, sem medo de críticas, publicam o resultado, com transparência. Não havendo sigilo na causa, dão nome aos bois. Os culpados os chamam atrevidos e truculentos. Nada. São cumpridores. Por vezes, um ou outro agente se destaca pelo físico apropriado à função, pela cara bonita, pelos óculos escuros mais ousados, pelo jeitão ao acompanhar preso famoso. Nada, no entanto, fere o respeito que a maioria do povo brasileiro tem pelo organismo, em especial pela discrição com que age.

Toda vez que instala uma operação nova me pergunto quem lhe daria nome, tão adequadas as denominações. Pouco importa quem batize. Importante é dizer que são oportunos, inteligentes, hilários muitas vezes os nomes dados. Soube que o delegado que comanda a ação é quem sacramenta o batismo dela. Nisso, já se tem a medida da perspicácia destes senhores.
Na quinta-feira, para citar um último exemplo, a PF do Maranhão chamou de Sermão aos Peixes a operação que levou à prisão ex-secretário de Saúde daquele Estado, cunhado da governadora Sarney. A partir do momento que soube do fato nada me chamou mais a atenção em meio a tanta corrupção e mentira que o nome dado. Dediquei-me com afinco a este Sermão, escrito por Vieira e por ele pregado em São Luís do Maranhão, em 1654. Agora vejo seu título na operação. Concordo.

Dentre todos os familiares do ex-presidente, peixe grande, com certeza, entendeu a metáfora. O delegado, por certo, utilizando-se das figuras de que se vale o Padre, “sempre com doutrina muito clara, muito sólida, muito verdadeira, e, mais necessária e importante para emendar-se esta terra, reformar-se dos vícios que a corrompem” pespegou o nome.

O sacerdote, mestre da Língua, se vale das características de estilo e não poupa crítica à corrupção, à mentira, aos engodos que rondavam e rondam o poder. Muitos dirão: por que imita Antônio, o Santo, e prega aos peixes? Por iguais motivos, cansado de falar aos homens e não ser escutado.

Passados mais de trezentos anos, diante da crise vivida por este país com metástases esparramadas por Estados e cidades, só nos resta esperar que não nos falte a costumeira graça para sermos salvos de tanta vergonha. Ave Maria!