Vinho à mesa. Liturgia.

Salvador, Marlene e Lucas Cambiaghi me convidam para almoço em família, reunião que celebra a vida de amiga comum, ao lado de outros tantos e bons amigos que fazem o sábado parecer dia bom, como o domingo que o Senhor fez, tanta alegria, tanta bem-aventurança, tanto prazer.

Salvador e Marlene recebem como poucos. Para quem esteve anos a fio servindo o governo brasileiro no exterior e obrigou-se a acostumar-se a recepções e jantares em diferentes lugares com distintas pessoas, é fácil saber onde o coração lateja cordial e francamente, em discreta alegria e bem-estar.

Bem-estar é, na verdade, o que se espera sentir quando corpo e espírito têm satisfação plena. Assim foi na bela residência dos Cambiaghi, em Rio Claro.

Era final de julho. A data já permitia que os ipês amarelos se antecipassem em alguns pontos da cidade, juntando-se à beleza do ipê rosa e roxo, ampliando com isso a beleza do dia, feito na medida da estação. Conforto, tranquilidade e alegria combinavam com os leoninos ares e os melhores sentimentos e características do signo. O zodíaco, a caminho da constelação de Leão, se afasta do Caranguejo para encontrar-se com o caçador de estrelas. O clima ameno não permite esquecer que o inverno ainda é senhor absoluto do calendário e sugere vinho como bebida para degustar.

Foi o que fez o anfitrião. Ofereceu, já à chegada, rótulos brasileiríssimos da região sul do país. Enófilo, gosto de saborear a bebida em ambientes como este, gentil, simplicidade e elegância misturadas com rara naturalidade.

Para mim, a bebida exige este comportamento. Incomoda-me quando, ao servi-la, me obrigam à sofisticada necessidade de exibir estudados conhecimentos. Em geral, acreditam ser enólogos de alta estirpe, valendo-se de retórica cuidadosamente treinada. Quando isso acontece, me lembro da experiência em vinícolas francesas onde, aí sim, os profissionais apresentavam diferentes tipos de vinho dando aos apreciadores a feliz oportunidade de conhecer, numa linguagem direta, bem direcionada e com pouca ou nenhuma sofisticação. Era prazer redobrado: bebericar e comer.
Diferentemente dos connaisseurs, sempre me entreguei à bebida com devoção e respeito, permitindo-me pôr em prática todos os sentidos que permitem confirmar ser o vinho uma bebida viva. Cumprir o ritual em reuniões como esta é, portanto, fundamental e, neste quesito, Salvador soube, pari passu, cumprir o ritual, obedecida à liturgia. Apresentou-nos, a cada vinho servido, a uva que lhe dava nome e sabor, o solo da região vinífera que trouxera à luz e a gente que recolheu para seu grupo enólogos, enófilos e sommeliers.

Comigo, trouxe os sabores dos últimos vinhos degustados. A Casa Randon, de quem ouvira falar até mesmo em outros países onde estive, provou ter alcançado qualidade extraordinária em muitos rótulos de sua produção, em especial, espumantes.

Tarde e noite para não esquecer. Procurar agora pelos revendedores destes vinhos de tão boa qualidade e oferecer a bons amigos de outras terras como presente, gesto comum entre produtores de iguarias como estas, nem sempre conhecidas por toda gente, esperando sempre que agrade ao olhar, ao olfato e ao gosto do provador, como agradou a mim.

Em cenário, onde o grande ator é o vinho, nada pode brilhar mais. Nem mesmo as estrelas de grandeza inigualável da constelação de Leão que dominaram o céu mal quando, naquela tarde, a noite chegou.