Vítimas da violência no Rio se reinventam na canoa e miram a Paralimpíada de 2020

Os gêmeos Jeferson e Jackson andavam de moto em São Gonçalo, região metropolitana do Rio, sem compromisso. O dia tinha sido bom na peixaria em Niterói: eles atenderam a atriz Sophie Charlotte, aquela da Globo, que comprou um monte de camarão. Tiraram até selfie. Jeferson estava tão feliz que não entendeu direito quando os ladrões falaram que era um assalto. Era 25 de junho de 2016. Bairro Vermelho. Os irmãos correram. Vários tiros foram disparados.

Não tinha sangue na rua, mas Jeferson não conseguia se mexer. Foi um disparo pelas costas, que acertou a coluna vertebral. Quando sua mãe chegou, ele pediu uma oração e se desculpou por não ter sido obediente. E então ficou tudo escuro.

Vinte e três anos atrás, Luciano reagiu a um assalto na Pavuna. Eram dois assaltantes. Pensou que dava para escapar. Não deu. Também foi atingido nas costas. Thaiany Tavares é uma das sobreviventes do massacre do Realengo, aquele em que Wellington Oliveira invadiu uma escola municipal e matou 12 alunos e deixou 13 feridos em 2011.

Unidas pelo cotidiano de violência que atingiu uma escala sem precedentes nos últimos anos na Cidade Maravilhosa e a região metropolitana e alcançou ponto estarrecedor nesta semana com o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL/RJ), as vidas de Luciano, Thaiany e Jeferson têm outro ponto em comum: tentam encontrar na canoagem uma forma de recomeço e de superação. O esporte fornece a eles o caminho de uma vida nova.

Os três são paratletas e integram o clube de canoagem Rio Vaa, aberto para todos, deficientes e não deficientes. O nome se refere ao tipo de canoa que eles utilizam: a polinésia, que tem estrutura diferente das tradicionais e dos caiaques também. Normalmente, tem seis lugares.

Nos Jogos Paralímpicos de Tóquio, será utilizada pela primeira vez, mas em provas individuais. Entre os paratletas do clube estão não só as vítimas da violência, assaltos e balas perdidas, mas também pessoas com problemas congênitos ou vítimas de acidentes de trânsito. Para eles, o treinamento é gratuito.

O esporte no mar projeta futuros variados. Uns sonham com Tóquio; outros estão felizes porque recuperaram a autoestima e parte da mobilidade perdidas com o tiro certeiro.
Luciano é o que está mais perto da Olimpíada. Ele é Luciano Meirelles, atleta consagrado que já conquistou 62 medalhas, entre elas a de campeão mundial de velocidade na Polônia em 2012. É atleta de ponta. Por divergências com a Confederação Brasileira de Canoagem, ficou um período sem receber os recursos da Bolsa Pódio e interrompeu os treinos. “Quero recomeçar”, planeja. Luciano é falante e bem-humorado, mas trava na hora de falar sobre a tragédia. “Só falo quando sou obrigado”, diz, diante da pergunta incômoda da reportagem do Estado.

Após 23 anos desde que foi atingido na Pavuna, Luciano voltou ao prumo dentro da água. “Quando estou na água, esqueço do meu problema físico. Eu vou embora. Sou igual a todo mundo”, diz o pai de três filhos que mora em Nova Iguaçu, distante 70 km do local dos treinos.

Nicolas Bourlon, presidente do clube, explica que a polinésia facilita a rápida adaptação dos atletas porque ela é mais estável. “Somos iguais dentro da água”, diz Jeferson.

Ele está tão satisfeito que aposta na canoagem como projeto de vida. Começou a treinar no fim do ano passado, já ganhou uma medalha estadual, mas ainda está na fase de fortalecimento muscular. Um entrave é a situação financeira. Hoje, ele vive com o benefício do INSS; sua mãe, dona Carmem, está desempregada; o irmão Jackson foi atingido no braço naquele dia, trabalha e faz curso técnico em enfermagem.

Em janeiro, Jeferson lançou campanha para arrecadação de fundos na internet. O objetivo é comprar uma cadeira de rodas nova, mais leve, de alumínio e sob medida. Precisa de R$ 8 mil. Arrecadou R$ 1.650. “Meu sonho é ser atleta paralímpico da canoagem”, diz o rapaz de 21 anos.

Aos 17 anos, Thaiany não está treinando com frequência. Bourlon explica que ela começou bem no ano passado, mas perdeu a motivação e tem faltado às treinamentos. Ela não foi treinar na terça-feira, e a canoagem caminha para ser apenas o seu hobby. “Cada pessoa reage de um jeito após tragédias. Alguns não saem da cama quando ficam deficientes. A canoagem foi o remédio para minha cabeça”, diz Luciano.