Vivendo em um país liberal

Há quase dois anos eu estou vivendo em um país conhecido por ser governado por meio de uma democracia liberal. A Irlanda, assim como Austrália, Canadá, Alemanha e Reino Unido, é uma democracia liberal dentro sistema parlamentarista. Outros países também são liberais, como Estados Unidos, mas presidencialistas igual ao Brasil. Mas o Brasil ainda não é liberal, apesar de alguns partidos e eleitores desejarem que assim o seja.

Basicamente ser uma democracia liberal significa um governo onde o Estado não interfere na Economia e nos direitos dos cidadãos. Por exemplo, na Irlanda, os trabalhadores têm um mínimo de direitos regulamentados pelo governo. Um trabalhador que atue quatro horas por dia tem direito a 15 minutos de intervalo. Se trabalhar mais que seis horas, são 30 minutos. Tempo este que não é pago. O salário-mínimo também existe. Hoje um funcionário não pode receber menos que 9,80 euros por hora. E as férias anuais são de 20 dias úteis de folga paga.

Não existe obrigação de 13º salário, cesta básica, vale-transporte, vale-alimentação, convênio médico, adicional de férias, e se um funcionário adoecer, ele não tem direito a ser pago enquanto estiver de licença médica. Levar atestado dizendo que foi ao médico e perdeu quatro horas do seu dia de trabalho não vai te ajudar em nada.

Por outro lado, são as empresas que, por meio de contrato, oferecem benefícios adicionais para atrair funcionários e segurá-los no emprego. E elas fazem isso de três formas: bônus, benefits (benefícios) e perks (regalias).

Os bônus são recompensas para um empregado que atinge uma meta ou faz um trabalho exemplar. É uma porcentagem paga a mais no salário. Os benefícios entram em contrato e a empresa se propõe a te oferecer seguros-saúde, odontológico, de vida, licença médica, etc. Basicamente coisas que no Brasil recebemos por direito ou por convenções feitas com sindicatos.

Os perks, ou regalias, são um chamariz para encher os olhos do funcionário e fazer ele realmente querer começar um emprego naquele lugar. Muitas empresas têm restaurantes com almoço, jantar e café da manhã, tudo de graça. A empresa também pode oferecer mais tempo de intervalo e intervalo pago, auxílio-transporte, gastos com celular, academia, aula de yoga, etc. O problema dessas regalias é que se a empresa decide tirar isso do funcionário, ele não pode reclamar.

E aí você pode perguntar: mas vale a pena? Depende! Existem empresas que oferecem realmente um contrato mínimo. Dependendo do cargo e o desejo de manter uma pessoa mais tempo nele, ela vai investir em benefícios, regalias e bônus.

No contexto Irlanda, temos que pensar que o desemprego atinge a casa dos 4%, considerado bem baixo. A oferta de empregos é grande. Para isso, uma empresa precisa mesmo rebolar para conseguir manter seu funcionário e não ter ele “roubado” por outra que ofereça mais vantagens. O liberalismo irlandês também é integral, ou seja, tenta não interferir na vida das pessoas. Recentemente, o país aprovou o casamento entre pessoas do mesmo sexo e o aborto.

O discurso do novo presidente Jair Bolsonaro e seu guru econômico Paulo Guedes é de transformar o Brasil em um país liberal na economia. Obviamente, ele é apoiado pelo mercado, mas também por alguns trabalhadores. Quem defende o liberalismo no Brasil precisa entender que são “outros 500”. A taxa de desemprego chegou a 12,5% e o salário-mínimo R$ 998 mensais (R$ 6 ou 1,3 euro por hora). Pessoas estão desesperadas em busca de um emprego. Será que as empresas vão aumentar salários ou oferecer muitos benefícios em um sistema liberal brasileiro?

Mas o liberalismo econômico defendido por Bolsonaro é conservador nos costumes. É como se ele abstivesse de querer resolver os problemas com seu chefe, mas ficasse de olho em quem você leva para a cama ou no que deseja fazer com seu corpo.