O fato ainda não acabou de acontecer/e já a mão nervosa do repórter/ o transforma em notícia./ O marido está matando a mulher./ A mulher ensanguentada grita./

Mais um uxoricida. Aos desavisados, o palavrão que uso para aclarar o verso do poeta, revela mais um marido desalmado matando sua mulher. Há, no século em que vivemos, palavra em voga nestes tempos de pandemia, nova para designar o crime repulsivo: feminicídio! Triste realidade a enlamear bem formados.

Cruel, fato cada vez mais comum nos dias atuais, assume proporções inimagináveis e, na maioria das vezes, o algoz desrespeita a presença dos filhos fazendo-os, não importa a idade, espectadores para tamanha barbárie.

Não teve mãe, o assassino? Não supõe ferir o coração de Deus por levar fora de hora, por desejo seu, as mães? Não leu o poeta ensinando: “Morrer acontece/ com o que é breve e passa/ sem deixar vestígio./ Mãe, na sua graça,/ é eternidade”.

Quem conheceu a despedida precoce de sua mãe, de modo natural, antes de entender a vida, sabe a razão do poeta ao perguntar “por que Deus permite/ que as mães vão-se embora?”

Mal sabia o poeta que me enriquece o texto chegar um tempo em que no país se mataria num semestre quase uma centena de mulheres, muitas delas, diante de seus filhos, impedindo-os de saber do “veludo escondido na pele enrugada,/ água pura, ar puro,/ puro pensamento.”

O leitor, por certo, imagina ter pedido o senso ao comentar aqui, nesta manhã de domingo, estes trágicos sucessos, depois de sugerir, no título, saudação festiva aos 120 anos deste Jornal. Explico-me: quando cheguei aqui para editar o JP, chamou-me a atenção alguns princípios éticos que fizeram melhor este velho jornalista, nascido em família que também havia alimentado, por anos a fio, um jornal igualmente centenário, catorze anos mais velho que este. Uma destas normas, dissera-me o jovem diretor, era recomendação de seu avô, dr. Losso Neto: evitar manchetes dantescas, em especial, envolvendo suicidas. Notável atitude. Ética e humana. Seus sucessores seguiram iguais recomendações, porque reconhecem, igualmente, ser o jornal o meio mais confiável de informações e, por isso mesmo, formador de opinião e de caráter.

Agosto, por seu quarto dia, me obriga a celebrar o tempo de vida centenária desse diário que colige a história da cidade e da região, com seriedade e respeito. Piracicaba, estou certo, tem por seu jornal, estima sem limites. Leoninos ambos, mesmo decanato, diferença de dois ou três dias na sua origem, ambos sabem compartilhar alegria, paz e esperança. Repito outro verso de Drummond, de quem abuso, ele que foi meu especial amigo, e peço, como ele, à pena que escreva.

Nos apontamentos, em casa, registrados no dia primeiro, celebrei a cidade, graças à sua feição antonina, nascida de seu padroeiro, a seu batismo no consagrado Rio Bonito, a seus prados e horizontes esticando limites por sobre a roça que a deixou assim, cordial e bondadosa.

A cidade tem o rio que, sem repetir-se, ao passar pela cidade, redescobre a cada dia o seu amor. Com as rendas de seu véu desfiado pela colina e esparramado por todo seu percurso pela zona urbana, encanta os que nascem e os que passam por aqui.

Sem que se perceba, projeta-se sobre ele e com ele segue o curso traçando caminhos, descobrindo paisagens, rompendo barreira, alcançando horizontes. Onde cabe contar tudo isso? No Jornal de Piracicaba.

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