“A amamentação deve ser feita com o uso de máscara”

O médico e vereador Ronaldo Moschini encara uma jornada dupla no combate à convid-19, entre leis e medidas de saúde pública. A Arraso conversou com Moschini principalmente sobre a relação da doença com gestantes, abordando questões de parto e cuidados com as mulheres e recém-nascidos.

Gestantes e puérperas estão dentro do chamado grupo de risco da covid-19. Quais as principais questões que as tornam mais frágeis ao contágio da covid-19?

É o contato direto com a mãe, por meio da amamentação, por meio dos cuidados da criança, estes são riscos de contagio pelo contato direto, e não contágio vertical mãe/filho, mãe/feto. É algo determinado por muitos estudos, com um da Unicamp, inclusive por biópsia em placenta. Nenhum caso agora foi evidenciado. Por ser uma doença nova, tudo está em estudo. Existem, sim, recém-nascidos com covid-19, mas por contato direto.

Quando um recém-nascido é diagnosticado com a covid-19, é estendida a permanência da mãe e do bebê no hospital?

Normalmente este diagnóstico é posterior. Geralmente, a mãe que já tem covid-19 e tem seu filho na maternidade, já é feito toda a orientação à mulher como cuidar dele, mas não tem como evitar a distância de um metro e meio. A amamentação deve ser feita com o uso de máscara e com todos os cuidados durante o banho. Mas, diferente do vírus do HIV, não existe a contraindicação destes procedimentos, assim como não ocorre em casos de hepatite B ou C, que as vias de transmissão são totalmente diferentes. A covid-19 é por meio de gotículas de saliva ou secreções poro nasais. Então a mãe sai da maternidade orientada e é feito um acompanhamento deste recém-nascido por uma equipe especializada.

E o procedimento obstétrico, teve mudanças bruscas no modo de realizar o parto por causa da covid-19?

O processo recai sob o cuidado de uso de máscara, uso de capacete, roupas especiais e esse cuidado tem sido tomado. E, de preferência, fazer o parto onde a paciente está sob cuidados do covid-19. Se está internada na UTI, tem que fazer lá, leva o aparato até o isolamento da paciente, porque não temos um isolamento dentro do centro cirúrgico. Caso tenha indicação de parto normal, por histórico, segue a rotina do protocolo do parto, não há necessidade de realizar cesariana se a mãe está positivada pela covid-19. E é um cuidado para todos, equipe, mãe e recém-nascido.

O senhor defende o uso constante de máscaras em locais público e o distanciamento?

O uso da máscara se faz obrigatório devido à importância, assim como o distanciamento de um metro e meio porque, acredita-se, as gotículas não chegam nesta distância até outra pessoa. Além disso, acredita-se que a transmissão é via contato, da pessoa colocar a mão na maçaneta da porta, e ali eventualmente estar depositado o vírus. O vírus fica em atividade, vivo, de 12 a 18 horas, então há sim a necessidade de lavar as mãos constantemente e o uso de álcool em gel 70 quando não é possível lavar com sabão. E é bom ressaltar que a aplicação do álcool em gel deve ser, no máximo, três vezes seguidas, e depois com sabão ou sabonete.

A proteção é a mesma em máscaras de qualquer material?

Sempre dou um exemplo: se assombrar uma vela que está a 20 centímetros da máscara e conseguir apagar, essa máscara não serve. Tem que exercer uma função de filtro e uma máscara que tenha uma quantidade de duas ou três camadas de TNT ou de tecido, que protege bem, se levada adequadamente. Não pode, então, ser tão fina ou muito porosa.

A pandemia demanda aos médicos obstétricos uma carga maior de pesquisas e estudos sobre este novo vírus?

Não tenho feito de equipes de pesquisa. São feitas pelo Alberto Einstein, universidades, como Unicamp, com pesquisas voltadas à transmissão vertical, por exemplo, e inclusive com parcerias com outros países. Hoje, estas pesquisas se concentram principalmente em torno de achar uma vacina em tempo recorde, no intuito de tê-la adequada para a proteção das pessoas. Masa a nível mundial tudo ocorre de modo acelerado para que, no próximo ano, já tenhamos uma vacina disponível. O Brasil faz parte deste grupo, em parceria com outros países.

E quanto ao acompanhante da gestante, antes, durante e após o parto, o senhor é favorável, levando em conta o período? E quais devem ser os cuidados do acompanhante?

Em Piracicaba existe um projeto aprovado, de minha autoria, em que toda gestante tem direito ao acompanhamento no pré-parto, no periparto e no pós-parto. Tem o direito de um acompanhante, o mais próximos da família, e mantemos neste período da pandemia. Somente no caso de mulher com sintomologia que não pode e permanece isolada.

A gestante passa por algum teste de covid-19 antes do parto?

Não testamos pacientes que dão entrada na maternidade se nenhuma sintomologia. Quando o paciente chega na maternidade e já tem sintomas, então ela é diagnosticada em uma sala e, se necessário, fará os estudos para saber se tem ou não a covid-19. E fica isolada até o resultado do exame, que sai em 24h.

Falta consciência da popular em entender a gravidade da doença?

Falta, sim. Tem que ser mais consciente porque a única coisa que pode fazer, como munícipe, e não contaminar-se e não contaminar outros. É um cuidado fundamental e infelizmente tem muitas que ainda andam pelas ruas sem máscara e participam de aglomerações. E existe muita campanha na cidade pedindo a colaboração. A flexibilização sempre abre o risco para mais contaminados e é a conscientização que vai ser determinante. Mas flexibilizar é, sim, importante, até pelas atividades econômicas. E que ganha? Ganha as famílias, que as vezes pode deixar de ter a morte de um ente querido. No Samu, nós médicos da linha de frente, exercemos uma função árdua e difícil, mas que cabe ao nosso juramento e a nossa vocação, que é cuidar dos pacientes com covid-19, na linha de frente, e estar transferindo pacientes com covid entubados dentro das ambulâncias. Sabemos que a cada paciente transferido, essa ambulância tem que voltar pra base, fazer toda a descontaminação para que possamos atender mais um. Então houve uma demora um pouco maior que nós mostramos a população que as vezes um paciente aguardava um pouco mais na unidade médica em uma UPA, porque cada transporte fazíamos em um paciente com covid, essa ambulância não poderia exercer perigo a outros.


A equipe do Samu foi aumentada durante a pandemia?

A equipe do Samu teve um aumento pequeno, mas trabalhamos com dificuldades, porque os próprios enfermeiros e técnicos. O motorista, que faz essa descontaminação com conhecimentos técnicos. É difícil você pegar uma higienizadora, responsável pela limpeza da unidade, para fazer a limpeza da ambulância. Tem técnicas para serem realizadas, produtos especializados e nós conseguimos, dentro do Samu, dar o suporte a todo esse tempo. Eu parabenizo a equipe do Samu porque em nenhum momento essa equipe se fragilizou e, com certeza, todos estão sobrecarregados pelo trabalho, sobrecarregados pela função, mas que a vocação falou mais alto e, com certeza, o amor pelas pessoas, pela enfermagem, pela medicina, pelos socorristas, por serem socorristas, fez essas pessoas saírem gloriosos. Tenho certeza que essas pessoas deveriam ser gratificadas no próprio sistema pelo que exerceram e o risco de correram, sabe-se que é opcional, uma obrigação. Vão dizer que não fizeram mais que a obrigação, porque nossa obrigação é essa, mas acho que você fazer uma moção de aplausos a essa equipe, criar algo para que você possa dar um muito obrigado a esses que não saíram da linha de frente, que não abandonaram a batalha, que não abandonaram o amor ao próximo e que fizeram valer a sua atividade e a sua vocação de estar na linha de frente da saúde, correndo sérios riscos sim e ainda corremos.

O risco do contágio na equipe médica na linha de frente é maior?

Lógico que a chance da pessoa contrair a covid-19 para a pessoa que está na saúde, na linha de frente, é muito maior. Chegamos a perder médicos, enfermeiros nesta guerra, e com certeza pode ter sido, sim, contaminação. Um deles era covid-19 positivo, um médico que morreu também era covid-19 positivo. Pode ter contraído na rua, dentro de uma viatura, dentro de um transporte, já que acho que pode ter ocorrido, pode ter siso e morreu em razão daquilo que vinha fazendo. Nós tivemos perdas, tivemos um abate, que sensibilizou muito a equipe, mas que não nos fragilizou, nos deu mais força para que pudéssemos dar conta disto e mostrar o amor que temos ao próximo.

O ineditismo da situação foi, claro, um baque à população mundial. Como o senhor, como médico, analisa o enfrentamento dos brasileiros diante desta doença?

O brasileiro tem uma facilidade muito grande, já que é um ser humano que é hospitaleiro já de nascença. Não conheço uma população ou um povo que tenha a capacidade de ser ajudar como o brasileiro. Temos esse caráter de um paletó servir para duas pessoas e isso foi mostrado agra, nessa época da covid-19. Quantas pessoas se ajudaram, com doações, alimentos, várias lives que ocorreram na televisão, os artistas ajudando, músicos sertanejos, entre outros. Foram milhões de toneladas de alimentos arrecadados e tudo isso veio a ajudar e facilitar. Passamos por dificuldade, ainda passamos, muitos estão sem empregos, aumentaram os números de desempregados no país, acordos trabalhistas tiveram que ser realizados e autorizados pela justiça para que muitas empresas não fechassem e conseguissem se segurar neste período de crise. Vivemos um período de crise financeira, crise por perder entes queridos. Ainda se morre muito da covid, já que foi uma doença que é uma verdadeira peste. Tivemos coisas muito piores no passado, mas que o ano de 2020 foi marcado a nível mundial pelas mortes do covid. Então, realmente é preocupante. Continua sendo preocupante apesar do índice de contágio estar diminuindo, mas, se não houver cuidados da população, esse índice pode aumentar. Nós devemos, por um compromisso do Legislativo, um compromisso do Executivo em exercer essa função de forma muito responsável amparando as pessoas com necessidades hospitalares, com vagas nas UTIs, não deixar faltando respiradores, não deixar pacientes morreram sem assistência e, além disso, exercer aquilo que é de função do legislativo e do executivo a orientação aos cuidados, aos programas de saúde, das secretarias municipais de saúde, fazendo a conscientização da população daquilo que ela deve exercer, porque a população é a responsável pela transmissibilidade e esses cuidados devem ser tomados.

Piracicaba passou por um período maior em fase vermelha, demorou um pouco mais a flexibilização, mas tenho certeza de ter sido uma atitude muito responsável do nosso chefe do Executivo em tentar segurar um pouco mais para que não tivéssemos problemas maiores e nem falta de vagas em UTIs na nossa cidade.


Na sua opinião, como está sendo a atuação do Executivo e do Legislativo de Piracicaba no combate a covid-19?

No que acompanho, o Executivo tem se mostrado bastante necessário, nosso prefeito, a Secretaria Municipal de Saúde, através da priorização das vagas e acordos com os hospitais filantrópicos. Acho que todos se uniram, todos se abraçaram e coube ao prefeito dar um suporte econômico, através de verbas que vieram por meio dos Governos Federal e Estadual e também daquilo que nosso prefeito pode fazer. Sabemos que foi uma perda financeira muito grande a todos. Não estávamos preparados para isso, não houve e perda apenas daqueles que tem uma porta de aço na frente e uma rua, que é o comércio, mas houve também um gasto muito grande que foi da Secretaria de Saúde do município, do estado, do Governo Federal, na qual esse último teve que fazer um aporte através daqueles 600 reais que vem sendo distribuídos mensalmente as pessoas, porque caso contrário muitas pessoas poderiam ser levadas a fome.

Erick Tedesco