A crença do não merecimento

“Nós, seres humanos, temos uma tendência de precisar encontrar motivos que justifiquem as coisas que temos ou ganhamos: só me sinto confortável em ter muito se eu trabalhar muito; só consigo me sentir bem em ter uma vida boa se eu disser que passei muitos anos estudando e trabalhando para conquistar esse resultado; se eu não me sacrifico, não me sinto no direito às melhores coisas”. Essa reflexão que segue é baseada na fala do terapeuta holístico André Lima:

“Quando a criança nasce, ela não questiona se merece ou não o que recebe. No entanto, quando o pensamento vai se desenvolvendo a mente começa a comparar, julgar e vão surgindo os pensamentos de não merecimento e culpa. Irá começar a observar o sofrimento dos pais. E conforme for a situação familiar, quanto maior for o sofrimento, maior a tendência de se desenvolver sentimentos de culpa em ser feliz, culpa em ter, culpa em receber. Ao crescer um pouco mais, a criança irá também começar a ter contato com as pessoas do mundo exterior e seus sofrimentos, o que poderá alimentar ainda mais a sensação de culpa e não merecimento em ter uma vida melhor do que a média.

Uma infância onde a criança ouve com frequência ‘não pode; não temos; não dá; não é pra você’; ‘quem você pensa que é pra querer isso ou aquilo?’ vai internalizando cada vez mais que ela não pode e não merece acesso a certas coisas.

Uma vez, havia uma mulher com um problema de saúde que exigia um gasto considerável foi entregue para ser criada, muito pequena, para uma tia que tinha melhores condições. Recebeu os cuidados materiais necessários, mas a parte emocional ficou muito prejudicada. Ouvia sempre a tia falar sobre os gastos necessários para mantê-la. Assim ela foi desenvolvendo a sensação de se sentir um peso. Desenvolveu o sentimento de culpa e uma sensação de ter uma dívida impagável com a tia.

Ela começou a sentir que receber algo era é o mesmo que ficar devendo. Sempre que recebia algo, tinha que retribuir na hora para aliviar o desconforto. Imagine os prejuízos que esse padrão pode causar nos relacionamentos e na vida profissional de alguém.

Avalie a si próprio: consegue receber elogios de forma natural ou precisa minimizá-los ou retribuí-los na mesma hora? Se você conquista uma situação melhor, precisa justificar pra você mesmo ou para os outros o tanto que você trabalhou para conquistar aquilo? Quando adquire algum bem (carro, casa, roupas) você precisa justificar para você mesmo ou para os outros que se esforçou bastante para se sentir bem com o que adquiriu?

Existe ainda a crença do merecimento ligada a questões espiritualistas e religiosas: ‘fulano não teve o merecimento para se curar de tal doença’; ‘eu não tive o merecimento para sair da situação financeira difícil que vem desde a infância’; ‘se você não saiu ainda dessa situação é porque não é do seu merecimento’. Fica simples e conformista demais uma justificativa dessa forma. Desenvolve-se um sentimento de que, se tem algo negativo, é porque essa pessoa ‘merece’ passar por aquilo (até quando???).

Por vezes, essa crença do não-merecimento acaba em passividade e perpetuação do sofrimento por culpa e autopunição e as pessoas perdem a chance transformar tal crença. Todos nós, de forma consciente ou inconsciente demos causa ao nosso sofrimento, ou atraímos ou pelo menos contribuímos para ele. Ainda assim, todos merecemos nos libertar do sofrimento”.

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