A criança: público consumidor da vez!

Foto: Freepik

Na esteira da crescente participação dos pequenos no ambiente digital, nota-se que a oferta de entretenimento para este público também vem registrando aumento progressivo nos últimos anos. Ao meu ver, ambos os fatores colaboram para a instituição de uma estratégia publicitária bastante intrigante e, até mesmo, questionável: a inserção de marcas e produtos em meio ao entretenimento de crianças nos meandros digitais.

Não é difícil constatar que muitas empresas, sobretudo de produtos infantis, vislumbram nesse universo digital um importante e, talvez, indispensável canal para interpelar, entreter e, ao mesmo tempo, cativar o público infantil. Esse interesse em idealizar a criança como um público consumidor caminha na mesma direção do já observado com os adolescentes em outros tempos. Se durante a expansão econômica no pós-guerra os adolescentes foram aparentemente descobertos como um grupo consumidor, agora são as crianças que se tornaram um dos nichos mais procurados pelo marketing segmentado, tendo em vista que estas não apenas se revelam importantes como um público em si, mas também como um dos motivadores do consumo familiar.

Concomitantemente a isso, é preciso considerar que a apreensão da criança enquanto consumidor fomenta outros tipos de negócios cuja finalidade é observar de modo próximo esse público. Valendo-se até mesmo de métodos etnográficos, pesquisadores de mercado acompanham os rituais diários das crianças no intuito de gerar informação e conhecer, de modo minucioso, seus gostos e preferências. Logo, geram dados que podem e geralmente são utilizados comercialmente, como no caso bastante conhecido de uma embalagem de shampoo que foi transformada em brinquedo após pesquisadores perceberem que algumas crianças poderiam brincar com os frascos enquanto se banhavam.

Hoje, as pesquisas que se dedicam em conhecer o consumidor se dão de modo menos evidentes aos nossos olhos, porém não menos eficientes e, até mesmo, questionáveis. Alavancadas pela inserção massiva da internet nos lares brasileiros, as pesquisas acontecem incessantemente por meio de técnicas de observação, rastreamentos e categorização dos indivíduos à medida que navegam e consumem conteúdo na rede, inclusive as crianças. Na maioria das vezes, sem ter a real percepção dessa sistemática observação.

Embora a internet tenha nos brindado com grandes possibilidades, há de se questionar se algumas práticas são salutares, como no caso das apropriações
mercadológicas que se entrelaçam às práticas de entretenimento do público infantil. Esta me parece uma questão importante, visto que se desenha uma linha demasiadamente tênue entre publicidade e diversão, tornando difícil a distinção sobretudo para a criança.

Portanto, em uma conjuntura em que vigoram regulamentações a fim de restringir o endereçamento publicitário à criança, torna-se fundamental questionarmos a forma com que muitas empresas estão interpelando esse público para o consumo. Fato é que, no momento atual, os apelos mercadológicos que encontram diálogo com a criança se revelam majoritariamente transvestido de diversão, porém, sem deixar de carregar sua função primeira: a persuasão e sedução ao consumo.

Marcelo de Andrade Doutorando em Ciências da Comunicação – USP. Mestre em Comunicação e Práticas de Consumo – ESPM/SP Publicitário pela Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP

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