‘A cultura está em estado de coma’

Foto: Alessandro Maschio/JP

O piracicabano Rocco Antonio Caputo tem a cidade no coração e genética de artista. Seu pai, o italiano Antonio Caputo (1923-1978) – figura colocada pelo artista plástico como seu primeiro professor – fazia maravilhas com a dureza da técnica do ferro forjado, como o portão do batistério da Catedral de Santo Antônio. Seguiu as origens do pai e foi estudar artes no país da bota, no Velho Mundo. Até chegar a Europa, no trecho da rua Vergueiro até as margens do Piracicaba, Caputo viveu sua infância. Recorda com grande carinho ter participado do Grupo dos Cêis, formado por Manoel Guglielmo, Chico Crócomo, Jean Goldenbaum, Alê Bragion, Adelino de Oliveira e Oliver Mann.

Nascido em 11 de agosto de 1962, ele mora atualmente em Quatis (RJ). Casado com Lilian Cristina Teixeira, Caputo tem dois filhos, Antonio, de 30 anos, e Ana Carolina, de 28. Aos 59 anos, o artista pretende voltar para sua cidade natal em um futuro próximo. Ele esteve recentemente na cidade para ministrar um curso sobre História da Arte – foi um retorno à ‘terrinha’ para onde ele não voltava desde 2019 por conta de aguardar a vacinação contra o novo coronavírus.

Sobre a cena cultural local e brasileira, ele lamenta o iminente fechamento de espaços culturais na cidade e o desmonte do setor em nível nacional. Entre seus desejos de fim de ano estão o fim da era do medo juntamente com a pandemia.

Pontualmente, como a história do seu pai aparece na sua vida? E a Itália?
Sou filho de Antônio Caputo e de Márcia Maria de Lima Caputo, meu pai foi um artista de ferro forjado, italiano e veio para o Brasil em meados dos anos 50, ex-combatente da Segunda Guerra Mundial, era um exímio desenhista e amante das artes, posso dizer que foi meu primeiro professor de desenho e grande entusiasta pelo meu precoce interesse pela pintura. Infelizmente, faleceu aos 55 anos e eu era um adolescente de 16 anos. Estudar Belas artes na Itália foi um sonho que consegui realizar, fui pra lá em 1986 e fiz o curso de pintura na academia de Belas Artes de Foggia nos anos 1987 a 1991.

Fale sobre seu passado em Piracicaba, lembranças, cheiros, cenários e histórias que te marcaram. Pretende voltar pra “terrinha”?
Estive ausente de Piracicaba entre os anos de 1986 a 2004 e, agora, desde 2019. Nasci na esquina da rua do Vergueiro com a Rua XV de novembro, vivi minha infância perto do Rio Piracicaba, frequentei muito o Clube de Regatas e lamentei muito o seu fim, me identifico muito com a cidade em que nasci, a sua beleza me encanta. Sempre procurei participar de movimento artísticos e culturais, participei de salões oficiais de Piracicaba, mas, o que mais me marcou foi ser membro do “grupo dos cêis”, formado por Manoel Guglielmo, Chico Crócomo, Jean Goldenbaum, Alê Bragion, Adelino de Oliveira e Oliver Mann. Pretendo voltar pra terrinha, ainda não sei quando, mas voltarei.

Você retornou à cidade recentemente. O que ainda lhe é prazeroso em Piracicaba? E o que te entristece e incomoda, incluindo a área cultural?
Desde março de 2020 eu e minha esposa optamos pelo isolamento radical por causa da pandemia de covid-19, somente em novembro, após vacinados, rompemos o isolamento e estivemos em Piracicaba por 10 dias. Voltar a caminhar pelas ruas e reencontrar os amigos não tem preço. Mas, infelizmente, Piracicaba é uma cidade que morre aos poucos, já perdeu muito de seu patrimônio histórico, artístico e cultural. Perdeu o Teatro Santo Estevão, Hotel Central e tantos outros, agora está por perder sua Pinacoteca [Municipal Miguel Dutra] e Biblioteca [Pública Municipal “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto]. Participei, em novembro, do ato pela defesa de ambas no Largo dos Pescadores. A situação atual me entristece muito, só me resta a esperança que em 2024 Piracicaba volte ao seu normal, e que recuperem o que foi perdido na cultura da cidade.

A história da arte é tema de cursos proferidos por você. O que ela ensina de mais relevante para estudiosos da área? O que a população em geral poderia aprender sobre o tema?
Nos dias em que fiquei em Piracicaba, ministrei uma palestra sobre a História da Arte com o tema “De Giotto a Caravaggio”, na Escola Bauhaus. Trata-se de uma palestra sob o ponto de vista do artista, já que não sou historiador e nem crítico de arte, penso que a palestra possa indicar, para quem estuda História da Arte, algumas informações novas que sirvam como fonte de pesquisa. Para a população em geral, um despertar para o interesse em conhecer a História da Arte, para entender que a Arte caminha paralelamente com a história da civilização, daí a importância vital de preservarmos o patrimônio histórico artístico e cultural das cidades.

No ano que vem, o Brasil completa o centenário da Semana de Arte Moderna. Qual sua avaliação desta vertente e suas preferências?
Minha avaliação sobre a Semana da Arte Moderna que, em 2022 completa 100 anos, é de que foi um movimento de artistas e intelectuais brasileiros que trouxeram para o Brasil o que já vinha acontecendo na Europa desde o final do século XIX. Confesso que deste movimento tem um artista de quem sou devoto, o mestre Portinari.

Profissionalmente, o que tem feito na sua carreira e o que projeta para o futuro? Como acompanhar seus trabalhos?
Sigo minha vida desenhando e pintando e, com o fim da pandemia, talvez volte a dar aulas de desenho e pintura. Para conhecer meus trabalhos, basta visitar minhas obras nas páginas do Facebook @Atelier Rocco Caputo, no Instagram @rocco.a.caputo e no meu site atelieroccocaputo.com.

Como avalia a cultura hoje no Brasil? O que você espera minimamente do Executivo e do Legislativo para abraçar dignamente a classe artística e disseminar a cultura de fato?
A situação da cultura no Brasil é a de uma pessoa que está em coma, respirando por aparelhos. Desde o governo Temer, ela perdeu seu próprio ministério para virar uma secretaria e o seu atual responsável trabalha com um revólver na cintura. O que esperar de tudo isso? A única alternativa para salvar a cultura, tirá-la do coma, é a renovação radical do Executivo e Legislativo. E a oportunidade está posta em 2022, no centenário da Semana da Arte moderna.

Qual seu desejo de Natal e Ano-Novo?
Desejo que este Natal seja o último da pandemia, e que no novo ano a esperança vença o medo.

Cristiane Bonin
[email protected]

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