A elegantíssima Dona Fedúncia

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Armando Alexandre dos Santos
(*) Doutor na área de Filosofia e Letras, membro do Círculo Monárquico de Piracicaba e do IHGP.

No século XIX e em princípios do século XX, era frequente o recurso à poesia na propaganda comercial. Os modernos jingles eleitorais ou comerciais não dão sequer ideia do que era a penetração dos versinhos antigos! Esse poderoso recurso, que o moderno Marketing desprezou completamente, tinha, entretanto, grandíssima valia.
Para ouvidos habituados à rima, à métrica e ao ritmo, como eram habitualmente os de nossos avós, uns versinhos bem torneados se gravavam na memória de modo assombroso.
Infelizmente, hoje nem versejadores que se autoatribuem o título de poetas são capazes de pegar, de ouvido, o ritmo de uma composição poética digna desse nome, com os acentos tônicos devidamente marcados. Quando muito conseguem produzir versinhos de pé quebrado com algumas rimas forçadas de permeio… e já acreditam estar produzindo poemas clássicos!
Aconteceu com a poesia o que aconteceu com muitas outras manifestações artísticas que, facilitadas pelos recursos tecnológicos modernos, vulgarizaram-se em demasia e, por isso mesmo, perderam a qualidade. Tal se deu com a pintura, a escultura, a fotografia,
Os leitores brasileiros que tenham mais de 60 anos com certeza se lembrarão dos velhos e saudosos bondes, nos quais, indefectivelmente, a par do anúncio da Pomada São Sebastião, vinha a figura de um rapaz forte e bem apessoado, com os seguintes versinhos: “ Veja, ilustre passageiro, / O belo tipo faceiro / Que o Sr. tem ao seu lado; / E no entanto, acredite, / Quase morreu de bronquite, / Salvou-o o Rum Creosotado.”
Graças a Deus, não sofro de bronquite… Mas se algum dia tiver a infelicidade de apanhar essa doença, com toda a certeza imediatamente procurarei saber, em alguma farmácia, se ainda existe esse miraculoso “Rum Creosotado”, de tal maneira me ficou ele na memória desde a primeira infância.
Lembrei-me mais uma vez do Rum Creosotado em minha penúltima viagem a Portugal, quando tive ocasião de rever ─ e quantas saudades tinha disso! ─ o tradicional bar A GINJINHA, bem no centro lisboeta. Fica ele na Travessa de São Domingos, n° 8, a dois passos do Rossio, em direção a quem vai à Rua das Portas de Santo Antão, ou à Igreja de São Domingos (igreja que há mais de 40 anos incendiou-se e até hoje conserva as terríveis marcas do incêndio).
Minúsculo, terá, no máximo, uns 10 ou 12 metros quadrados, e está quase sempre cheio. Nele se consome exclusivamente a ginjinha, aquele delicioso licor popular tipicamente luso, obtido por maceração das ginjas – espécie de cereja muito comum na Extremadura portuguesa -em bagaceira e açúcar. Atribuem-se (ignoro se com razão)─ excepcionais qualidades reconfortantes à ginjinha. Ela é servida, habitualmente, num copo pequeno, no fundo do qual se deposita uma das frutinhas, que é comida após o último trago.
A propaganda dessa taberna é feita exclusivamente por meio de versinhos, sem falar, é claro, da difusão de boca a ouvido dos incontáveis apreciadores. Na parede externa, figura uma imensa estampa, com o desenho de um velho saboreando aprazivelmente a bebida, e o seguinte sexteto: “É mais fácil com uma mão / Dez estrelas agarrar / Fazer o sol esfriar / Reduzir o mundo a grude / Mas ginja com tal virtude / É difícil de encontrar.”
Nas duas folhas da porta de vidro, vêm outros desenhos e mais versinhos. Do lado esquerdo, dois homens, um deles magro, feio, doentio, faz o gesto de quem recusa uma bebida; o outro, forte, vendendo saúde, está precisamente tomando a bebida. Os versos explicam as imagens: “O Matheus é um chochinha / Mais feio que um camafeu / Magro, tísico, um fuinha / Nunca na vida bebeu / Nem um copo de ginjinha. / O irmão, que sabe a virtude / Desta divina ambrosia / É gordo como um almude / Bebe seis copos por dia / Por isso goza saúde.”
Bons tempos aqueles em que não havia a mania dos regimes de emagrecimento, nem a ditadura da dietética!
Na folha direita da porta, figuram duas mulheres, igualmente de aspectos bem diversos. A da esquerda é magra, feia, com ares pouco sadios, a da direita é gorda, forte, saudável, vistosa. Por baixo, os seguintes versos: “Dona Fedúncia da Costa / Delambida e magrizela / Fez de ser tola uma aposta / Diz que ginjinha, nem vê-la, / Porque, coitada, não gosta. / E a ama de um reverendo / Que é das bandas da barquinha / Tem um aspecto tremendo / Bebe aos litros de ginjinha / E é isto que se está vendo.”
A pobre Dona Fedúncia da Costa, assim ridicularizada, por certo nasceu em época errada. Em nossos dias, talvez sua magreza lhe valesse o título tão ambicionado de top-model. Seria considerada maravilhosamente elegante…

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