A estação, o trem, o menino

Na infância, jamais imaginei estar onde pude chegar em trens de diferentes modelos e velocidades, rompendo fronteiras, invadindo túneis, aportando em países, conhecendo cidades, algumas carregadas de fantasia, outras de História, todas elas me permitindo reconhecer nelas o que os livros me trouxeram um dia.

A raiz disto se perde na distância do tempo quando, pequenos, vínhamos a Rio Claro para estudar, ora em trens de passageiro, luxuosos para a época, outras tantas em vagões do guarda, ao sabor do vento e dos sacolejos que a locomotiva impunha. Nas férias, as viagens em companhia dos pais a distintos rincões. Nada me diz mais à saudade que a Companhia Paulista de Estradas de Ferro.

Não sabia por estes anos o que tudo aquilo representava. Com direito à passagem de primeira classe, pouco entendia que as ferrovias haviam sido “instrumento de poder político das oligarquias paulistas, fator de acumulação de capital na medida em que podia conquistar o espaço físico integrando o litoral às regiões produtoras do noroeste paulista”. Lembro-me, isto sim, de observar a elegância do traje exibido pelos guardas-trem, a beleza dos serviços de restaurante e o desejo de invadir o carro pullmann reservado para o que restava de ricos fazendeiros de café e à nascente burguesia industrial urbana.

Nesta época, minhas irmãs e eu fizemos da estação de Rio Claro, extensão de nossa casa. Vivíamos num distrito rural do município e fizemos do trem o veículo para nossas primeiras aventuras escolares. Enquanto a grande maioria dos companheiros de escola saíam para suas casas ao fim do período, nós seguíamos para a estação na expectativa da volta. Não havia horário definido para o embarque e, muitas vezes, isso durava toda a tarde. O calor do lar só nos acolheria quando a noite chegasse. Tarefa feita, preparo para provas do dia seguinte, tudo isso, ali, num cenário inóspito para crianças. Nada, no entanto, foi mais forte que a formação recebida.

O percurso, vencido em menos de trinta minutos por paisagem sobejamente conhecida, se revelava sempre novo. Este ir e vir daqui para lá e de lá para cá só fora possível porque havia o trem e as tantas gentes que, a serviço da companhia férrea, faziam parte desta aventura, cada qual a seu modo. O embalo do trem acendia em nós a esperança. Parecíamos viver, a cada dia, façanha inédita. O verde, separando Rio Claro daquele singelo cantão de terra, era a perder de vista.

À volta, tão logo terminava declive vencido com incrível velocidade pela locomotiva elétrica, a planície revelava o rio que se estendia em busca de outro rio e de outro mais e mais outro para alcançar o mar. Demorei a saber quantos seriam, um desaguando no outro, sem permitir que água alguma se reservasse para o pedaço de chão onde vivíamos. Esta, a lição do rio. Presente sempre fazendo, a cada segundo, com suas águas, a renovação de tudo.

Na cidade, pequena ainda, mais gentil e humana que a de hoje, com sua estação de 1911, esplanada vencendo quarteirões, escondia dentro dela sequência de trilhos, para manobras intermináveis que davam vida àquele ambiente de máquinas, vagões e operários. Em meio a tudo isso, na sala de espera, fazíamos deveres escolares como se tudo aquilo ajudasse a entender o mundo.

Por vezes, no meio da tarde, dona Olinda Garcia. Bendita aparição! Anjo em forma de gente. Personagem emblemática, trazia no andar e na voz a grandeza de caráter, sua força de trabalho, seu coração e alma à mostra. Fez-se querida de todos, imensamente querida. Escrevo dela, porque de experiência sua, pude entender, pequeno ainda, a brevidade da vida. Tinha nove ou dez anos, quando perdeu, em espaço de dias, genro e filha, permitindo saber na expressão do rosto, a marca da dor.

Apesar da ferida exposta, trouxe para perto, a última de suas filhas, a que enviuvara, com seus três pequeninos, fazendo valer a extremada coragem que a vida exige. Agora, neste difícil momento que assinala o mundo, Taicy Garcia Mariano, a filha, por quem tinha igual carinho, transpôs o Portal da Esperança, deixando um vazio profundo no coração das filhas, dos netos, dos amigos.