‘A fé não pode ser alienada. Tem que ser capaz de ver a vida como ela é’

Foto: Divulgação

Ele é padre da Paróquia São Miguel Arcanjo, na Mooca, em São Paulo. Tem nada menos que 1,1 milhão de seguidores no Instagram. Defende cristãos, não católicos, ateus e até mesmo a comunidade LGBTQIA+. Passa madrugadas de frio intenso na capital paulista acolhendo homens e mulheres em situação de rua. É alvo de ataques de ódio por ser visto como um religioso de esquerda. Será um rebelde? “Não me vejo como um rebelde. Eu me vejo como alguém que procura ler a mensagem de Jesus. Ler o texto dentro do contexto da realidade que vivemos”, diz padre Julio Renato Lancelotti, de 73 anos, em entrevista ao JP. O pároco das minorias é pura inspiração. Não é à toa que, por onde passa, sua mensagem aquece corações.

Como foi seu encontro com a fé?

Foi por meio da própria educação que tive, já que as escolas que eu estudei foram religiosas. A decisão de ser padre foi sendo construída existencialmente, não teve um momento específico que me decidi.

O senhor é considerado um fenômeno nas redes sociais. Como vê o uso dessas ferramentas?

As plataformas digitais ajudam a comunicar, mas também são instrumentos com bastante contradição e dificuldade. São usadas para ataques. Recebemos muitos insultos. As redes sociais são como facas: servem para tirar a casca, picar o legume e também para ferir. Vivemos um fator de opressão, de beligerância na linguagem, o que os autores chamam de retórica do ódio. Essa retorica também deteriora as relações humanas. Estamos vivendo no Brasil um momento de polarização, mas também de desconstrução da humanidade, desconstrução da compaixão, da misericórdia.

O senhor costuma denunciar casos de aporofobia, inclusive, apontando cidades que possuem a chamada arquitetura “antipobre” – quando são colocados ferros pontiagudos embaixo de viadutos, por exemplo, para evitar que esses locais virem moradia. Fale sobre isso.

A aporofobia é rejeição e ódio ao pobre. Ela é uma doença epidêmica que precisa ser combatida. A população que mora na rua aumentou, em São Paulo, mais de 30%. É visível. A população de rua cresce mais que o crescimento demográfico. E as providências do poder público são sempre institucionais, burocráticas e extremamente lentas. Não pode ser assim. A pandemia aumentou a pobreza, mas a pobreza não é só econômica, ela traz impacto psicológico. As pessoas perderam a renda, a casa, perderam a possibilidade de pagar aluguel. E a relação entre as pessoas nos grupos familiares também se deteriorou. Na casa que falta o pão, todo mundo briga e ninguém tem razão, já diziam nossas avós. Então, os grupos familiares foram se desfazendo. Muitos jovens foram para rua, não tinham como trabalhar ou sobreviver e foram para rua para procurar caminhos. Sucessão de perdas. E essas pessoas são amparadas como quando estão nas ruas? Quais as alternativas que damos a elas?

O que mais te chama a atenção quando acolhe pessoas que moram na rua?

Elas mostram um semblante carregado pela tristeza, pelo abandono, pela falta de comunicação, pela solidão. Eu sinto demais a tristeza delas. São homens e mulheres que carregam muitas dores, a perda, o abandono dos parentes. A miséria tem muita interferência nas nossas relações, na autoestima, na autoimagem. Essas pessoas pensam: ‘eu sou um lixo’. Como elas vão sobreviver em uma sociedade totalmente meritocrática, que valoriza a competição, o empreendedorismo? Como uma pessoa em situação de rua vai trabalhar, arrumar um emprego dentro desses conceitos? Por isso temos estudado muito os efeitos a aporofobia na vida dos que estão na miséria. Veja esse trabalho de reinserir pessoas na sociedade. Como isso é feito? Essas pessoas são descartadas justamente pelo sistema que vivemos e é esse mesmo sistema que diz querer reinseri-las na sociedade.

Se as políticas públicas não atendem essas pessoas tidas como invisíveis, qual é o papel do cidadão que, em maior ou menor grau, tem condição de ajudar?

Jesus nos ensina a nos assemelharmos a ele. O que é ter um coração semelhante ao de Jesus. Que lado Jesus está? Dos que discriminam ou dos discriminados? Dos poderosos ou dos fracos? Ele está do lado dos que abandonam ou dos abandonados? Nós todos sabemos: Jesus está do lado dos que sofrem, dos esquecidos. Isso aconteceu com Jesus também. Vemos no Evangelho de São Mateus: Jesus se identifica com os famintos, os sedentos, com os encarcerados, com o despido, com o forasteiro, com o abandonado. São nesses grupos que encontramos o Senhor vivo, crucificado e ressuscitado. Temos que ter um critério de não ser do lado A ou do lado B. O importante é ser discípulo de Jesus. Veja essa questão do frio. Quem passa a noite na calçada corre risco de morrer. Temos encontrado muitas pessoas em hipotermia e é trabalhoso aquecer e reverter o quadro, a pessoa enrijece, temos que dar bebida quente, precisamos de um socorro imediato. E quem sofre esse risco de hipotermia é quem está sozinho e não em grupo. Por isso, o trabalho que temos que fazer junto a essas pessoas é intenso.

Já que estamos em um ano eleitoral, o que o senhor pediria ao próximo presidente da República?

Eu pediria ao próximo presidente, seja ele quem for, que fique próximo do povo. Que ame os pobres. Quer defenda os fracos e os pequenos. Que implante a renda básica no Brasil, que erradique o analfabetismo, que acabe que a fome, supere a desigualdade, e que faça do nosso país um país multicultural, como ele é, respeitando as diferentes culturas, as diferentes nações, as diferentes etnias, especialmente, os povos indígenas e quilombolas. Que o futuro presidente não seja preconceituoso e discriminatório, nem racista e nem machista. Que seja um irmão de todos.

Nani Camargo
Especial para o JP

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