A gravidade da covid-19 e a deterioração da saúde em Piracicaba

Os piracicabanos se depararam esta semana com notícias de possível colapso do sistema de saúde do município em meio à pandemia do coronavírus. A situação gravíssima não deixa de ser constrangedora para município com o capital humano e a relevância de Piracicaba.

Há profissionais de saúde muito capacitados e bem formados atuando em todos os hospitais da cidade, mas não é de hoje que se percebe a deficiência da infraestrutura aqui existente para a prestação dos serviços básicos de saúde.

Mesmo antes da crise da covid-19, tem sido constante a transferência de pacientes para tratamentos básicos em São Paulo. Na área de serviços oftalmológicos, por exemplo, a lista de espera para atendimento é de quase 13 mil pessoas no SUS de Piracicaba, segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde. Os pacientes ficam mais de um ano na fila para atendimento essencial para a sua saúde ocular!

A prestação de contas da prefeitura sobre os serviços de saúde do SUS é inadequada e ineficiente, carecendo dos devidos demonstrativos sobre os serviços realizados, o que faz com que Piracicaba receba do governo federal menos da metade dos recursos a que poderia fazer jus se apresentasse melhores indicadores. Segundo dados do SIOPS do Ministério da Saúde, enquanto Maringá, cidade do Paraná de porte equivalente ao de nossa cidade, foi agraciada com R$ 328,5 milhões de recursos do SUS no ano de 2018, Piracicaba recebeu apenas R$ 134,9 milhões. Assim, Maringá, em razão de gestão mais transparente e eficiente do sistema municipal de saúde, obteve mais do que o dobro dos recursos do SUS quando comparada à nossa cidade.

Além de não prestar contas de forma apropriada sobre os serviços do SUS no município, as decisões da prefeitura prejudicaram também a rede de saúde privada da cidade por anos a fio. Desde 2016, a prefeitura protela o pagamento de dívidas milionárias por serviços de saúde já prestados pelos hospitais dos Fornecedores de Cana e Santa Casa, gerando-lhes pesado ônus financeiro. É evidente que, não lhes pagando o que devia, a prefeitura contribuiu significativamente para a deterioração dos melhores centros de saúde piracicabanos, que deixaram de realizar investimentos, gastos de manutenção, aparelhagem e expansão de sua infraestrutura e capacidade de atendimento. Tal postura da prefeitura com certeza impactou negativamente a capacidade do sistema privado de saúde da cidade para o enfrentamento da crise da covid-19.

Após anos consecutivos de sucateamento do sistema municipal de saúde público e privado, a gestão do município elegeu como o maior bode expiatório da crise do coronavírus os comerciantes piracicabanos, que, apesar de pagarem tributos municipais em dia, são impedidos de abrir estabelecimentos por meses a fio, mesmo seguindo regras estritas de higienização e distanciamento interpessoal. Tudo em função das deficiências do sistema de saúde, apesar dos milhões recebidos do governo federal para o combate da pandemia, cuja alocação específica carece da devida transparência até o momento presente.

Tal deterioração do sistema de saúde dos últimos anos tende a se retroalimentar com as decisões endossadas pela gestão atual. Com os estabelecimentos comerciais fechados e as atividades econômicas paralisadas por tempo maior do que o necessário (desde março), a arrecadação do município despencará, com efeitos perversos para a continuidade da prestação de serviços de saúde, que depende, na maior parte, de recursos arrecadados pela prefeitura, devido ao baixo valor do repasse do governo federal, como mencionado. Atualmente a gestão municipal de saúde pública em Piracicaba não condiz com a grandeza do capital humano de sua classe médica nem com os justos anseios dos cidadãos piracicabanos.

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