/Foto: Freepik.

É notório que nos últimos anos houve um aumento contínuo no número de crianças experimentando novas formas de interação, sociabilidade e entretenimento por meio da internet. Segundo dados da pesquisa TIC Kids Online (2019), realizada desde 2012 pelo Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), 79% das crianças com idade entre 9 e 10 acessam à internet no Brasil. Número superior ao apresentado nas edições de 2018 (77%) e 2017 (74%).

Por se tratar de um ator social que está em pleno processo de desenvolvimento, não é incomum nos deparamos com narrativas que tomam a criança como um espectador demasiadamente indefeso e incapaz de interpretar os conteúdos que estão em circulação. Esta me parece uma noção um tanto simplista, pois acredito que as crianças possuem capacidades que são resultados tanto do seu desenvolvimento cognitivo quanto da sua experiência com o mundo, inclusive com o mundo da mídia. Isto é, elas reconhecem suas experiências nos seus próprios termos e não necessariamente nos termos dos adultos.

No entanto, isso não significa que as crianças são capazes de identificar todas as intenções e discursos que estão presentes no ecossistema midiático, pois, frequentemente, tampouco os adultos são detentores de tamanha capacidade. Tomemos, como exemplo, as mensagens publicitárias que perpassam nossa rotina diária. Em um contexto digital cujo apelo publicitário se imbrica fortemente às produções de entretenimento, transvestido de diversão, mas carregando ainda sua função persuasiva, torna-se altamente complexa e opaca, não apenas para as crianças, mas para qualquer indivíduo, a identificação daquilo que é publicidade ou não.

Isso acontece devido a mudanças no modelo publicitário. Na publicidade dita tradicional (televisão, rádio etc.) há majoritariamente uma clara sinalização, por meio dos intervalos comerciais, que o apelo mercadológico existe, o qual é aceito pelos espectadores por subsidiar o acesso aos conteúdos de modo gratuito. Por outro lado, na mídia digital, essa distinção nem sempre se revela de modo evidente e, por sua vez, publicidade e entretenimento se entrelaçam.

De fato, a presença de crianças navegando pela internet deve ser percebida de maneira positiva, pois, afinal, torna-se possível descortinar novas formas de interação, aprendizagem, socialização e expressão de culturas e identidades. Entretanto, ainda é longo o caminho para que as crianças reconheçam de maneira mais consciente as intenções mercadológicas e industrias que estão postas neste cenário.
Por essa perspectiva, não basta somente considerar que o acesso à internet é o suficiente para que as crianças possam se servir das possibilidades oferecidas pelas tecnologias. Concomitantemente com o acesso, faz-se necessário investir na educação para o uso das plataformas digitais, de modo a propiciar conhecimentos mínimos para que elas sejam capazes de reconhecer as oportunidades bem como os riscos que estão espalhados pela rede.

Em um cenário de múltiplas plataformas cujas narrativas publicitárias e de entretenimento se entrecruzam, torna-se substancial incentivarmos as crianças em direção ao desenvolvimento de capacidades de leitura, análise e avaliação crítica dos conteúdos, inclusive o publicitário. Para isso, a leitura crítica da publicidade se revela um debate com notável relevância, pois, só assim conseguiremos que as futuras gerações estejam mais preparadas do que nós para reconhecer o que de fato está em jogo neste cambiante mundo digital.

Marcelo de Andrade | É publicitário formado pela UNIMEP (Universidade Metodista de Piracicaba), mestre em Comunicação e Práticas de Consumo pela ESPM/SP e doutorando em Ciências da Comunicação pela ECA/USP (Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo).

LEIA MAIS:

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

12 + 4 =