A pandemia nos faz enfrentar a verdade e reorienta nossas vidas

Foto: Alessandro Maschio/JP

O médico americanense Rafael Angelo Tineli, 43 anos (completados ontem), é coordenador das unidades de covid-19 da Santa Casa de Piracicaba. Filho do casal Olinda Torricelli e Mauro Roberto Tineli, ele é casado com Luciana Fabris Camargo Tineli e pai de Luisa, de 11, e Marina, de 7 anos.

Ele contou que os parentes por parte do pai são de Piracicaba e que a família é de Santa Barbara d’Oeste. Rafael cursou o colegial no Colégio Anglo de Piracicaba e conheceu a esposa na faculdade. Após o casamento se mudaram para São Paulo, onde Luciana atuava como coordenadora em uma escola e ele fazia especialização no InCor. Assim que a primeira filha nasceu o pai de Rafael começou a luta contra um câncer. Foi quando surgiu a possibilidade de trabalhar em Piracicaba, o que possibilitou ficar mais próximo do pai, que faleceu antes de o médico iniciar as atividades na cidade. Ele conta que foi difícil, porém, o encantamento que a cidade despertou desde o início e o carinho com que foi recebido na Santa Casa o fizeram ficar na cidade até hoje.

Rafael é formado em medicina pela Faculdade de Medicina Universidade de São Paulo – Ribeirão Preto. É especialista em cirurgia vascular e em terapia intensiva e atua, principalmente, em cardiologia, cirurgia cardiovascular, pós-operatório e manejo de pacientes críticos.

Nas horas vagas, o médico gosta de assistir automobilismo, ler, ouvir música e ficar com a família. Nessa entrevista ao Persona, ele fala da experiência de enfrentar a pandemia no local de trabalho e em sua casa, e da mudança que a pandemia tem causado.

Como médico coordenador das unidades de covid-19 da Santa Casa de Piracicaba, o que essa experiência tem acrescentado à sua vida pessoal e profissional?

Acredito que a pandemia não tenha apenas acrescentado algo, mas sim que tenha mudado o rumo de minha vida num sentido mais amplo. Há tempos me sentia um barco à deriva, perdido “no meio do caminho da minha vida”. É como se a pandemia tivesse desempenhado para mim o que Virgílio foi para Dante, uma vez que tudo o que aconteceu pôde me aproximar mais de Deus, sendo conduzido para fora do labirinto, deixando para trás os desejos e medos aos quais estava atrelado e me deixando sem propósito. Hoje, após ter sido lançado nessa jornada cujo fim ainda parece distante, pude perceber que o verdadeiro fim é o percurso.

O senhor e sua família foram infectados pelo coronavírus?

Mesmo tomando todas as precauções não fui capaz de impedir a contaminação deles. Lembro quando numa quinta-feira à noite apresentei 39,2ºC de temperatura e me senti muito fadigado. Não sabia o que estava por vir, no dia seguinte fui até o hospital coletar exame diagnóstico. Primeiro a ansiedade a respeito do resultado. Depois, o receio pela imprevisibilidade da evolução da doença. E mais que tudo, o sentimento de culpa por ter transmitido a eles a doença. Foram 15 dias em que nunca fomos tão cúmplices uns dos outros. Há muitos anos não ficava tempo assim juntos deles. Hoje, vendo as diversas evoluções apresentadas pelos pacientes, das mais simples as mais complexas, posso dizer que tivemos o privilégio de passar por isso sem grandes atribulações.

Em algum momento o senhor pensou em desistir?

Já que citei uma frase dele novamente volto a Nietzsche e em seu “amorfati” que trata da própria vida. Segundo o filósofo, ao dizer “não” a um só aspecto de sua vida, você desencadeia todo um processo. Não seríamos meramente afetados pelos eventos e acontecimentos, mas exatamente pela visão que temos deles. Isto é, quanto mais desafiadora ou ameaçadora for a situação ou contexto a ser assimilado e afirmado, maior será a estatura da pessoa capaz de realizá-lo. Assim penso que devemos tirar o melhor proveito de tudo que nos acontece. Não nos cabe desistir, não importa quão desafiador seja o momento ou a situação. Quanto maior a dor da vida, maior deve ser a resposta à ela, sem que nos escondamos do destino ou desejemos que seja diferente.

A impossibilidade de ‘dizer adeus’ é um dos fatores de maior sofrimento das famílias que perdem alguém para a covid-19, o senhor tem vivenciado essas situações? Qual o papel do médico nesse momento?

O isolamento dos doentes e a impossibilidade de realizar os rituais pós-morte específicos de cada cultura causam um tremendo impacto negativo no processo de luto. Ainda não temos estudos robustos sobre o real efeito do novo coronavírus nesse quesito. Mas a verdade é que não dizemos adeus da mesma forma que antes. Não podemos sequer oferecer o amparo presencialmente e a sensação de impotência é devastadora tanto para os familiares como para ae quipe multidisciplinar. A nós, profissionais de saúde, cabe o desafio de viabilizar a manutenção da saúde mental e a dignidade dos pacientes e familiares ao criar estratégias para o contato remoto, seja por meio de chamadas de vídeo, por áudios, mensagens o que se faça necessário. O processo de luto em si, assim como toda sua repercussão, ganhou matizes ainda mais sombrias em nosso contexto de isolamento social e impossibilidade de despedidas. Precisamos envolver tanto os pacientes quanto os familiares de cuidado por meio de estratagemas diversos. Fazer-se presente. Envolver-se. É nosso dever prover a melhor forma o cuidar de alguém e permitir que essa pessoa expresse a sua saudade e tenha a certeza de que não está sozinha nesse momento.

Em sua opinião, o que a experiência da pandemia de covid-19 deixa para a comunidade médica?

Não tenho aqui a pretensão de uma análise dessa envergadura. Ainda estamos vivendo essa crise. O que posso descrever é que a pandemia pôde nos levar a enfrentar o desafio de uma verdade e reorientar nossas vidas numa nova direção, pois em nossa atualidade, nossa sociedade vive pela busca de recompensas sem esforços, e parece que esquecemos, inclusive, que as provações são parte significativa da vida, e que não há recompensa sem renúncia. Devemos, portanto, estarmos aptos a nos colocar em situações que despertem o mais elevado de nós. Reside no interior de cada um a capacidade de reconhecer os valores da vida, para além da preservação do corpo e das ocupações materiais do dia a dia. Eu pude, por meio das experiências intensas que passei, descobrir onde está minha bem aventurança. E a agarrei.

Beto Silva
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