A pobreza, elemento essencial da espiritualidade franciscana

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Armando Alexandre dos Santos
(*) Doutor na área de Filosofia e Letras, membro do Círculo Monárquico de Piracicaba e do IHGP.

Na fase de transição da Antiguidade Tardia para a Alta Idade Média, e no estabelecimento das novas monarquias bárbaras que se estabeleceram após a queda do Império Romano do Ocidente e o desmoronar do gigantesco edifício administrativo imperial, a Igreja é que assegurou a manutenção, em toda a medida do possível, da ordem e da estabilidade. Por recomendação papal, os bispos e o clero em geral permaneceram nos seus postos, passando a dedicar aos novos senhores da situação a mesma atenção pastoral que até então haviam tido em relação aos antigos.

Numerosas cidades europeias têm origem em torno de velhos mosteiros e santuários. Quando todas as instituições do mundo antigo se dissolviam, a Igreja permaneceu, se adaptou às transformações e assegurou um elemento de continuidade e proteção paralelo e complementar ao elemento militar. O feudalismo, como salientou o historiador francês Alain Guerreau, é incompreensível sem o papel da Igreja. (O Feudalismo: um horizonte teórico. Lisboa: Edições 70, 1980, p. 244-257).

Os mosteiros beneditinos – masculinos ou femininos – exerceram, durante séculos, um papel de extrema importância.

Já no século XIII, foram fundadas, para fazer face às necessidades que as circunstâncias impunham, novas ordens religiosas, que diferiam muito das anteriores. Foram as chamadas Ordens Mendicantes, porque seus membros, em princípio, deveriam viver exclusivamente de esmolas, sem que as Ordens, institucionalmente, pudessem acumular bens. As principais ordens mendicantes foram a dos franciscanos, fundada por São Francisco de Assis (1182-1226) e a dos dominicanos, ou irmãos pregadores, fundada por São Domingos de Gusmão (1170-1221). Estes últimos dedicavam-se, por vocação, ao estudo, à pregação e à defesa da ortodoxia cristã contra as heresias. Os franciscanos, por sua vez, dedicavam-se à prática radical da virtude da pobreza.

Toda a visão do mundo franciscana se centrava no culto à virtude da Pobreza, prioritariamente pregado pelo fundador. Os franciscanos representavam uma espécie de contraponto ao espírito requintado e fruidor dos prazeres e riquezas da terra. Numa época em que o apego intemperante às riquezas minava profundamente a espiritualidade medieval, apareceu Francisco, dizendo-se enamorado da “Dama Pobreza”, para restaurar o equilíbrio necessário. Renunciou à herança de seu pai (o opulento burguês Pietro Bernardone, próspero comerciante da cidade de Assis) e decidiu viver sem nada, levando a prática da virtude da pobreza até um radicalismo difícil de conceber. Fundou a Ordem dos Frades Menores, que em poucos anos se transformou numa das maiores da Cristandade. Fundou, com Santa Clara de Assis (c. 1193-1253), o ramo feminino da mesma Ordem. Para os leigos que viviam no mundo, mas desejavam ser fiéis ao espírito de pobreza e participar das graças e privilégios da espiritualidade franciscana, instituiu a Ordem Terceira – atualmente conhecida como Ordem Franciscana Secular.

De acordo com a pregação e o exemplo de vida de São Francisco, a posse de bens (e sobretudo o apego a eles) era o maior mal a ser evitado, o maior escolho no caminho da perfeição. Bens, no caso, eram imediatamente aqueles materiais, os de raiz, as riquezas, o dinheiro. Mas também deviam ser evitados os bens imateriais, como a honra, o prestígio, a consideração, a vanglória, pois se opunham à perfeição da pobreza e igualmente podiam desviar do amor de Deus e do próximo. No seu entusiasmo pela pobreza, num momento inicial de radicalismo que depois compreendeu ser excessivo, Francisco chegou a desejar que seus frades fossem ignorantes, porque até o conhecimento e a cultura lhe pareciam formas de apropriação indevidas, contrárias à prática suprema da pobreza e do despojamento. Só mais tarde, compreendeu, em face das circunstâncias concretas, que esse ideal podia ser sublime, mas não era razoável e tampouco correspondia às necessidades da Igreja, que precisava de teólogos, de doutores, de pregadores da palavra de Deus. Mesmo depois da morte de São Francisco, durante algumas décadas ainda persistiu entre os franciscanos certa tendência a ver com maus olhos os estudos, por julgá-los contrários ao verdadeiro espírito do seu fundador. Em 1260, no Capítulo geral da Ordem realizado em Narbona, o então superior geral São Boaventura (1218-1274) precisou fazer uma defesa formal dos estudos, sustentando que eles eram um eficiente meio de amar a Deus e fazer Deus amado pelos outros (cfr. ULLMANN, Reinholdo Aloysio. A Universidade Medieval. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000, p. 227).

Toda a espiritualidade franciscana se centra na compreensão de que os bens materiais ou imateriais, quando desviados da sua reta finalidade, afastam os homens, e sobretudo os religiosos, da verdadeira caridade e, portanto, de Deus.
A espiritualidade franciscana marcou profundamente a Baixa Idade Média, desde inícios do século XIII até à passagem para os Tempos Modernos. E permanece viva até nossos dias.

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