A serviço de Deus

A adolescência ia ao fim quando soube de Pedro Casaldáliga. Participava de um grupo de jovens católicos, bastante maduros para a pouca idade, bastante conscientes das diferenças sociais, dos erros políticos, das injustiças que permeavam o país e o mundo.

Íamos, nas tardes de sábado, vez por outra, em encontros com seminaristas claretianos que viviam, para aqueles anos, fora da cidade, num seminário construído na distância, cujo prédio parecia resguardar a cidade de todos os males, erguido ao final de uma avenida central onde terminava seu aspecto urbano.

Liderando o grupo, um sacerdote gaúcho, também jovem, Canuto, todos, ele e seus seminaristas, inteligentes, muito lidos, afiados para discussões interessantíssimas. Eram tempos que permitiam, sem a trava mais tarde imposta para censura e medo, pensar e agir livremente.

Não se imaginava, então, que já, nos anos seguintes, a juventude em especial e o país como um todo, tolhido, em seu raciocínio lógico, na sua capacidade de deduzir e conceber, de refletir.

Por conta disso se esvaziaram aquelas tardes voltadas para discussões acerca de filosofia e espiritualidade, música, a descoberta de Deus em sua plenitude, muitas vezes tecida em poesia que revelava crítica real do presente, “como instrumento consciente de desmascaramento pelo fato de focalizar as situações de restrição dos direitos ou de negação deles, como a miséria, a servidão, a mutilação espiritual”.

Neste ambiente pude saber e pudemos todos de Pedro Casaldáliga, recém-chegado da Espanha para lançar no serrado brasileiro, o sal da terra e a luz do mundo. Em outro extremo do Brasil, outra voz se fazia ouvir em toda sua clareza. Era Hélder Câmara, a quem pude conhecer em 1984, no Recife, ao lado de amigo, também ele professor nesta cidade, em notável celebração de verdade e esperança.

Com dom Hélder, pude trocar algumas cartas a respeito de seu trabalho e de sua obra. De Dom Pedro recebi obra autografada, antes de conhecê-lo pessoalmente, quando, então, reconheci o poeta sensível que era, sua estreita ligação com a população excluída, vulnerável, sofrida do centro-oeste brasileiro, sua relação com o serrado, em especial os que dele e nele viviam, sobrevivendo do que lhes oferecia em comunhão com Deus.

Tive, daqueles ex-seminaristas, amigos que, ao deixarem Rio Claro, trabalharam a seu lado em São Félix do Araguaia, novas sobre esta ação sociopastoral inigualável, em favor de pobres e excluídos.

Exercício pleno do sacerdócio “usando palavra e bastão não para golpear ovelhas perdidas e indefesas, mas para afugentar lobos fortes, ferozes e famintos por trabalho humano; dedo em riste e língua afiada contra o latifúndio e as cercas, a tirania e a ditadura, na proteção dos povos indígenas, dos camponeses e das comunidades quilombolas”.

Dom Pedro transpirava liberdade. Voz e olhar de Cristo e em Cristo, voltados para os desvalidos. Ação libertária, altruísta, abnegada, com desmedido amor pelo próximo, esparramando na sua fala e em seus poemas a cultura da resistência, que “prossegue apesar dos altos e baixos conjunturais. Meio ambiente. Direitos Humanos. Democracia como valor substantivo, desarmamento. Renda mínima universalizada.”

Levando consigo a coragem desta luta travada em favor dos indígenas, em especial, dos quilombolas, do pobres, dom Pedro despediu-se da vida no último dia 12 de agosto, deixando-nos inscrito num poema seu último desejo: “Para descansar/ quero só / esta cruz de pau,/ com chuva e sol,/ estes sete palmos/ e a ressurreição”.