A sexualidade e o educador (parte II)

Devemos minimizar a repressão que entra em cena para estabelecer uma ordem, que é a ordem de um discurso equivocado sobre valores humanos numa sociedade utilizadora do preconceito como forma de excluir aquilo que lhe confere mal estar. Entender o discurso da sexualidade, quando trabalhamos com crianças e jovens, facilita a prática docente porque favorece a descoberta das relações políticas de nosso corpo e suas manifestações com o decorrer da vida.

Quando falamos em entender, referimo-nos à visão psicológica dos aspectos básicos da sexualidade: o ser humano já nasce exercendo sua sexualidade. O bebê sente prazer quando explora objetos através da boca. Portanto, mamar e chupar reforçam necessidades momentâneas, por exemplo, fome, sede. A maneira como ocorreu essa satisfação – a amamentação se realizou no colo, no berço etc. – também é de grande valia para termos uma ideia de como a criança reage aos estímulos e a certas situações. Além disso, a pele exerce um papel muito importante na produção de estímulos quando tocada. Essa troca de estímulos (tocar e ser tocado) oferecerá, no futuro, uma forte estrutura para tornar a sexualidade num momento prazeroso.

Depois dessa fase, uma outra região do corpo se torna reduto do prazer, a região anal. Para criança, provoca sensação de prazer o controle (reter) ou descontrole (liberar) esfincteriano, sendo tal processo, dependendo das respostas do meio, que irá determinar o destino dessa forma de satisfação. A criança trocará esse prazer corporal pela aceitação do mundo no qual vive.

À medida que o círculo de amizades vai aumentando, a criança passa a perceber as “diferenças” e “igualdades” pertinentes aos coleguinhas, pois o interesse nas amizades superará a atenção dada aos adultos. Quando o menino percebe a ausência do pênis na menina ou a menina percebe que há uma “falta” desse órgão nela, surge a angústia de perda (menina) e a angústia de perder (menino). Castração é o nome que a psicanálise colocou para essa experiência psíquica: designa uma experiência psíquica completa, inconscientemente vivida pela criança por volta dos cinco anos de idade, e decisiva para a assunção de sua futura identidade sexual.

Os órgãos genitais passam a ser um campo de interesse por parte da criança e, consequentemente, diversas situações como exibicionismo e masturbação, por exemplo, fazem parte da vivência dela e não podem ser encarados sob o discurso patológico, pois ‘exibir o órgão genital’ consiste numa forma natural de driblar as angústias que nascem do reconhecimento de um forte concorrente na disputa do amor pela mãe, o pai. A masturbação, para criança, se torna um caminho de autoconhecimento erótico e de afirmação. A sensação de prazer decorrente desse ato reforça uma defesa necessária quando o mundo externo oferece duríssimas exigências. Essas situações servem de ponte para a sexualidade adulta.

Acontecimentos tão humanos quanto estes deveriam ser tratados num tom de normalidade com comentários saudáveis e instrutivos, levando a criança a perceber a sua evolução. Não basta somente a compreensão do educador, mas compreender extensivamente, ou seja, o fruto de sua compreensão se torna uma atividade que desperta nos educandos algo prazeroso e, ao mesmo tempo, educativo. Trabalhar essa ‘descoberta do corpo e do prazer’ inserindo-a numa visão humanista, crítica, sem preconceitos de ordem sexual, proporcionará um ‘autoconhecer-se’ e uma posição mais sólida em relação a si próprio”.

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